Dante Ramon Ledesma – Voz pampeana pela América Latina

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Neste mês de setembro, a coluna Cultura Gaúcha completa um ano e comemora trazendo aos leitores o cantor e compositor Dante Ramon Ledesma. Argentino naturalizado brasileiro em 78, Dante chegou ao Brasil perseguido pela ditadura militar de seu país. Criou raízes no estado – mas sua voz se estende pelo pampa para unir a América Latina. Premiado nos festivais e com nove discos de ouro na carreira, a voz de Dante levou “A Vitória do Trigo” a ser reconhecida na Europa como um hino das famílias sem-terra e “América Latina” a transformar-se num clamor pela união entre os povos explorados do continente. O trabalho de Dante reafirma que a música é um dos maiores pontos de expressão da cultura regional e folclórica, e traz as tradições e os anseios da América Latina em sua poesia.

 

Foto: Letícia Garcia

Eu sempre defini meu trabalho, desde 29 anos atrás, como uma proposta de música popular folclórica latino-americana. Uma música dedicada à recopilação de condutas, de dignidades indígenas, negras, ciganas, gaúchas – de todo ser humano que necessite de um canto que lhe represente, que lhe conheça a fundo e que leve ao público suas realidades. Minha pretensão era escrever e ter um lugar onde cantar, um bar, uma churrascaria… De repente eu me vi num festival. Em termo de meses eu ganhei a Califórnia da Canção Nativa (de Uruguaiana, em 1984, com a canção “O Grito dos Livres”, de autoria de José Fernando Gonzales). No outro ano, “América Latina”, “El Condor Pasa” e outras canções estouraram. Parecia que havia uma necessidade, que faltava isso no dia a dia. Então você se sente responsável por aquilo que plantou, por aquilo que trouxe. Era só um violão e a voz, não era muita coisa, mas havia o que dizer, havia o que cantar.  A realidade da vida ensina que a gente retrate o que ama, o que sente respeito, e não podemos fugir disso. Por isso essas músicas, como “A Vitória do Trigo”, “El Condor Pasa”, “América Latina”, “Latinamente Só”, “Pra que Cantes Comigo”, que são músicas com mensagens universais, lembram das pessoas que lutaram por dignidade humana, por igualdade de direitos, por apagar e superar preconceitos, e isso é o que queremos: viver com mais fraternidade, descobrir que na vida, através da arte, podemos descobrir a grandiosidade e o amor que Deus depositou nos homens.

 

Povos da América

Eu me sinto um pouco responsável – me sinto um descendente dos invasores da cultura indígena, que um dia, embandeirando seus conceitos, pretendiam apagar os dogmas de pessoas como os indígenas. Respeito muito a cultura índia, assim como nossos irmãos africanos, que vinham com seus rituais, suas magias, seus encantos, e que, de repente, nós, com 500 anos de colonização e 2000 anos de religiosidade, pensamos que podíamos invadir culturas milenares. Então o que eu senti quando comecei com minha música é que havia uma necessidade de dizer que eu sou um pouco responsável pelas culturas que foram apagadas.

Temos uma raça que floresce todos os dias – o gaúcho. Esse gaúcho de amor a terra, com rostos jovens, de raças miscigenadas (porque ele é uma miscigenação). O homem da terra, o homem de vida rural ou urbana, sempre tem as duas conjunções sociais, e o direito à sobrevivência.

 

Pátria pampa

Argentino, uruguaio e rio-grandense, nós temos dentro de nós um amor especial pela topografia que habitamos – o pampa. É a única planície do planeta e o único lugar onde temos nossos hábitos, costumes, vestimentas, vícios e também temos a adoração a terra. Quando o indivíduo que sobrevive se identifica com o lugar onde mora, a música é o que mais lhe apaixona, porque lhe toca o íntimo, o coração, o sentimento, a saudade, a alegria, é com ela que festeja, dança, canta, se manifesta. O que acontece quando se ama sua terra? Você a defende. O que acontece quando você descobre que esse é seu lugar para ser livre, para ter seus filhos, seu lar, seus parentes, onde você aprendeu a viver? Você vai defendê-la. A música é uma defesa de paz, você se sente altivo, se sente orgulhoso em seu chão, e por isso canta. Antigamente, os guerreiros a defenderam; hoje, nós temos que exaltá-la.

Durante muitos anos, um país ao norte da América esteve interessado em ser o dominador de todos os costumes, de implantar sua forma capitalista de viver. Mas todo aquele que ama sua terra, que ama a América Latina, vai defendê-la sempre – isto que se chama “América Gaúcha”. Onde você for, terá um gaúcho, no Norte ou fora do país. E onde tem um CTG haverá um templo, onde as pessoas que comungam lembram que há um ponto na terra que é uma pátria. Não tem bandeira nem hino: é a pátria gaúcha, é a pátria dos uruguaios, argentinos, rio-grandenses – é a pátria pampa.

Seria bom que as novas gerações se acerquem mais da sua raiz, de seus ancestrais, não só por clicar em um computador, mas por abrir um Martin Fierro (de José Hernández), por exemplo. Ler o que somos, para onde vamos, e por que somos, sim, gaúchos – que identidade temos com a terra, com a história e com o homem de amanhã.

 

Dante e o Mercado

O Mercado Público não é só um ponto de referência, é a história de Porto Alegre, onde por todas as portas entram e saem culturas, costumes, hábitos, sonhos. Eu já cantei no Mercado Público várias vezes. Ali eu almoço, janto, tomo café, porque ele é um núcleo que verte vida, onde você encontra rostos, pessoas, que lhe alimentam a alma. O Mercado Público é um nutriente da sobrevivência de Porto Alegre.

 

“Quem tem paciência para viver/ Aprenderá, será ouvido/ Um dia agradecerá ao Criador/ O destino recebido/ Não carregueis no coração/ Diferenças, nem rancores/ Temos que cuidar da nossa alma/ Como quem nesta vida, ainda cuida de flores” (Chafariz)

 

 

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