Volmir Martins: Sou movido a sentimento, falo muito com o coração.

TRADICIONALISMO

Volmir Martins: Sou movido a sentimento, falo muito com o coração.

      Homem de opiniões fortes, Volmir Martins é conhecido e respeitado no meio artístico gauchesco. Vem de uma trajetória de festivais, rodeios, rádio e TV, estando atualmente com três programas na TV BAND, inclusive com alcance nacional. Como artista viajou bastante, conheceu muitos artistas, locais e nacionais. Uma vivência e experiência que moldam suas opiniões firmes e críticas, especialmente sobre o tradicionalismo. Considera-se um profissional que cuida muito bem do lado comercial, para poder ter a estrutura que tem e fazer a sua arte. “No nosso meio um ou dois ganham dinheiro e o resto passa trabalho. Músico tem que ter um bom trâmite, boas relações, visão comercial. A música é um negócio como qualquer outro. Muitos não têm essa visão. Isto não quer dizer que tu vai te vender. O Teixeirinha foi um exemplo para muita gente”. Encerrou prometendo gravar um programa no Mercado

 Intolerância no tradicionalismo

    

     Ele acha que o tradicionalismo é muito pouco flexível com aqueles que não comungam das mesmas tradições. Uma intolerância que para ele deixa de agregar mais gente, principalmente os jovens. “As pessoas misturam identidade com autoritarismo. Os patrões de CTG não são capazes de dizer para aquele moço que chega de brinco, de piercing, “olha aqui, a nossa cultura é outra, mas precisamos de ti aqui também”, afirma. Para ele é preciso que o “movimento” entenda também que está muito caro para cultivar o tradicionalismo: “Um bom chapéu custa 100 reais, uma bombacha 50, um par de botas mais 100, quando tu vês gasta mais de 500 reais. Então é mais barato ele botar um tênis que já usa, uma calça e uma camiseta e dançar em outro lugar”, avalia. “Acho lindo quem sabe fazer um barbicacho torcido, pelear um potro, trançar, saltar de madrugada, mas na verdade ele não é mais gaúcho que ninguém”.  

O papel da mídia

     Para Volmir a mídia e os formadores de opinião poderiam desempenhar um papel fundamental neste trabalho de conquistar mais gente, jovens e outros públicos para o tradicionalismo. Como ele procura fazer nos seus programas, sempre respeitando as diferenças, mas procurando levar princípios da nossa cultura. Iniciativas que ele não vê nos programas gauchescos similares aos seus e no próprio MTG. “É preciso investir mais na cultura gaúcha, informar os jovens, ir para a periferia. Mas agora com a Copa do Mundo, em vez de fazer mais colégios, estão fazendo estádios para roubar”. Acha que os jovens estão perdendo um espaço mais saudável na cultura gaúcha. Tudo isto faz com que ele não perca a juventude e que ame cada vez mais o Rio Grande. “Não se sintam excluídos, todos somos gaúchos e fazemos partes do movimento.

                                          A imagem do gaúcho e o “tchê music”

 

     Temos que parar com essa visão que o gaúcho é grosso. Nós somos um povo diferente do mundo. Esse amor próprio o gaúcho tem, vem com a gente. Eu não abro mão disso. O cavalo veio antes do carro, cruzou a cordilheira dos Andes, faz parte da n  ossa identidade. Não existe nada mais caseiro que o cachorro. Tu pode chegar às 4 da manhã que ele te espera abanando o rabo, não quer saber se tu é pobre, rico, se tem carro importado”, diz. Volmir acha a influência do campo maravilhosa na música. E por isto mesmo se mantém fiel aos seus princípios e influências. “Prefiro não ficar mais famoso se eu cantar diferente, a identidade é uma só”, diz referindo-se àqueles que tomaram outros rumos. “Foram buscar o caminho deles. Mas agora querem voltar, ser gauchão de novo, andar de bombacha, de bota. Não estou criticando, cada um tem uma forma de pensar, não podemos condenar esse pessoal”, diz referindo-se especialmente ao movimento “tchê music”.  Acha que por aqui falta união. “Quando sobe um baiano, ele chama outro. O gaúcho não. Você nunca viu os gaúchos quando chegam na mídia nacional dizerem, olha lá no Rio Grande do Sul nós temos outros, o fulano…” Destaca Luiz Marrenco, que criou um estilo, Mano Lima que também criou o seu, assim como Ortaça com seu estilo missioneiro. Para bailes, nem vacila: Monarcas, Serranos e Porca Véia. 

 

 Volmir Martins por Volmir Martins

 O início da carreira na TV, SBT e BAND

     Há sete anos surgiu uma proposta de trabalhar na tv, no SBT, onde fiquei seis anos. Aí colocamos um programa lá, pago. Nos primeiros meses vimos que não tinha dinheiro para pagar. Fomos acertar e disseram que o Ibope estava bom e o interesse dos clientes era bom. “Em vez de vocês pagarem, a gente dá 40% do faturamento e vocês só entregam o programa”. Nesse meio tempo o Siri (sócio na época) arrumou outro sócio e eu virei funcionários deles. Aí vim pra BAND e segui ganhando festivais. Gravei 10 discos, tenho uma empresa que cuida das minhas coisas, já toquei em vários lugares do estado, do país, do mundo – Argentina, Uruguai, duas vezes nos Estados Unidos. E vim crescendo como músico, apresentador, mas isso é por uma necessidade, porque sou mesmo é trovador, só que isso não é valorizado. Aí passei a cantar, fiz técnica vocal, ganhei como campeão do estado, em Vacaria, quatro vezes e lá é bem difícil porque é a “copa do mundo” dos rodeios. 

As origens

     Sou filho de um casal de colonos, meu pai era muito pobre e depois se separou da minha mãe. Fui conhecer luz elétrica com 12 anos, na minha infância não tinha nada dessas coisas modernas, videogames, internet. Comecei a acompanhar meu pai pelo rádio. Como minha cidade não tinha quartel, fui servir em São Gabriel. Sempre lidei muito com boi, tirei leite, então na minha lida eu criava um personagem, um trovador – um dia trovava com o Gildo (de Freitas), no outro com meu pai. Quando cheguei em São Gabriel comecei a frequentar um programa de rádio chamado Rodeio da Querência, do Evaristo de Oliveira, onde ganhei concursos. Depois de 1989, vim para Porto Alegre, onde rolei muito. Trabalhei de servente de obra, de guarda noturno, de garçom. E sempre nos fins de semana cantava nos festivais. Ganhei mais de 500 prêmios como trovador. 

 

Novas gerações e a influência das lidas campeiras

     A era do vídeogame e da tecnologia trouxe para as novas gerações um desrespeito com o homem rural. Boa parte não sabe se a vaca bota ovo ou dá cria e trata um lavrador como um zé ninguém. Eu acho que o homem que planta, que cria, que sabe a lua certa para plantar um aipim é tão importante como um médico.  A lida de campo até nos atrapalha um pouco. Porque o cantor gaúcho vive muito isso, somos uma coisa diferenciada do resto do país, gostamos muito de cantar o cavalo, a mulher gaúcha. Desde os 10 anos trabalho por conta e vivi esse negócio de acordar às quatro da manhã e tirar leite. Não sou um exímio campeiro, mas sei carnear, capar um touro, laçar. Conheço aquilo que eu sinto, está no nosso sangue. Eu tenho umas ovelhinhas, cada vez que estou lá, digo pro caseiro, “deixa que eu lido, tocar de um campinho para o outro, escovar um cavalo, tratar, tosar”. O gaúcho vive isso como ninguém e paga um preço muito alto por isto porque primeiro, somos bairristas. Antes de eu ser brasileiro, eu sou gaúcho. E não é só o homem rural, mas aquele que gosta de rock, pagode, de funk, também tem orgulho de ser gaúcho. Hoje para uma empresa fazer sucesso tem que parecer gaúcha, isto está provado por pesquisas.                           

 

O movimento tradicionalista, contradições

      O movimento tradicionalista cresceu muito e está muito forte. Nunca se vendeu tanta bombacha, tanto chimarrão, nunca se contratou tanto show gaúcho. Falo com conhecimento de causa. A Semana Farroupilha movimenta um milhão de pessoas. E o próprio movimento cobra 15 mil reais por uma banquinha de vender rapadura. Não sou contra, tudo na vida é um comércio. Sou contra é vender uma falsa imagem; nós amamos a tradição e cobramos por ela. Tem empresa que paga 20, 30 mil reais para estar ali. Conforme vai chegando mais perto, vai aumentando até o preço para fazer os galpões. Virou um comércio. A Semana é mais forte que o carnaval, só que a mídia não valoriza. Boa parte dos que coordenam o movimento está ali por interesse comercial e não por amor ao gauchismo. Mas é claro que dentro tem os que sentem no coração. Tem os que trabalham e esperam o ano inteiro para tirar férias em setembro. Não podemos misturar os homens que respeitam a identidade e os que usam ela. Hoje o MTG emprega muita gente e ganha muito dinheiro, tem patrocínio de grandes empresas. 

 

O Mercado Público por Volmir

      Primeiro, o Mercado Público é um cartão postal do Rio Grande, um ponto de referência, sinônimo de identidade do povo gaúcho. E talvez um lugar mais gaúcho do que o próprio 35 porque tu encontras tudo aquilo que tu tens na tua vida do interior: rapadura, peixe, charque, fruta, erva boa, mel de abelha, chás, maçanilha, carqueja, guaco – tudo que tu encontra num bolichão de campanha.  O homem do interior se identifica. Ele está no coração dos gaúcho.Gosto muito e quando vou compro bastante coisa. Acho até que vou fazer uma música sobre o Mercado Público!

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