Viva o Centro a Pé – o começo, a memória e religiosidade da cidade

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Viva o Centro a Pé – o começo, a memória e religiosidade da cidade

Capitaneado pelo arquiteto Luiz Merino, do Patrimônio Histórico da Secretaria Municipal da Cultura e atualmente no Programa Monumenta, o passeio visitou as raízes fundacionais da cidade. Centrando-se nas ruas mais antigas de Porto Alegre, o roteiro fez um rápido resgate da arquitetura, praças, antigos becos, monumentos e espaços públicos que hoje já fazem parte da história da capital gaúcha.

 

A caminho da Riachuelo, uma breve parada na Praça da Matriz, onde praticamente a cidade começou. Como era costume dos portugueses, geralmente eram feitas duas praças na cidade: uma na parte alta, onde ficavam a aristocracia e a classe alta, além dos equipamentos do poder, como palácio, catedral e legislativo, e outra na parte baixa, geralmente a parte comercial. “É assim em Salvador e Lisboa”, diz o arquiteto. A parte superior tinha também uma função estratégica militar de proteção da cidade, uma vez que tinha vista tanto para o Guaíba, como para a Lagoa dos Patos – um esquema geográfico muito bem definido. E, nessa região, a grande referência é a Praça da Matriz, que vai ser embelezada, passando por ajardinamento de influência francesa a partir de 1870, pelo Império. Antes era um grande largo, com funções diversas e palco de festas, como a do Divino, quermesses, paradas militares, etc. Na Duque de Caxias, predominavam os casarões, como a casa de Júlio de Castilhos, o Solar dos Câmara e muitos outros, que vão surgir mais tarde, no começo do século XX, como o casarão da família Chaves Barcellos. Na praça da Matriz vai surgir, em 1913, o monumento em homenagem a Julio de Castilhos, criado pelo arquiteto carioca Décio Villares e com toda a plataforma executada pelo arquiteto gaúcho Afonso Hebert, o mesmo que executou o Arquivo Histórico do RS e a Biblioteca Pública de Porto Alegre.

 

O Arquivo Histórico, a documentação histórica, artística e cultural da cidade

Descendo a Praça da Matriz, rumo à Riachuelo, uma parada no Arquivo Histórico, com entrada junto ao chamado Multipalco. Já na entrada, um bonito jardim, margeado por grandes escadarias, chama a atenção. “Houve uma época em que fazer arquitetura era também pensar na criação de pequenos espaços e recantos dentro da cidade. Os arquitetos tinham também a responsabilidade de pensar em espaços semi-públicos”, diz Merino, referindo-se também aos recantos internos da Santa Casa e dos jardins do Palácio Piratini. O prédio é de 1910, bem na época dos governos positivistas. A construção de um arquivo público mostra o que era o espírito do positivismo, de trazer a iluminação cultural para o povo, com as faculdades e escolas públicas, como Paula Soares e Ernesto Dornelles, lembra o arquiteto. Informa ele: “É um prédio clássico, com repertório arquitetônico, da Grécia, com pilastras gigantes, um estilo que a gente chama de eclético, um pouco de tudo, uma miscelânea, com um efeito de refinamento, para marcar presença e imponência”. Como diz a funcionária do arquivo, Malu Souto, o prédio foi feito especificamente para ser um arquivo público, com a guarda de documentos históricos. Para isto teve uma estrutura bem específica, com estantes de cimento e piso de ferro vazado, para aeração. Enfim, um prédio anticombustão, em condições ideais, pensado em 1910 – o único da América Latina dentro deste conceito. “Nós temos cartas de alforria, testamentos, processos-crimes, habilitações de casamentos e registro civil que vão do período de 1763 a 1985, tudo disponível para acesso do público”, diz ela. Nos anos 80 o AP deixou de recolher documentos por falta de condições, mas atualmente já está aberto novamente.

 

Rua Riachuelo, seus antigos becos e casarios

Também chamada, naquela época, de rua da Ponte e rua do Cotovelo, a Riachuelo tem algumas das casas mais antigas do Centro Histórico. Era cortada por inúmeros becos, estreitos e íngremes, habitados por taverneiros, negros com terreiros e frequentadores de bordéis, como o Beco do Fanha, Rua Clara, Beco dos Pecados Mortais, Beco do Jogo da Bola, Beco dos Nabos a 12 (vinténs) e Beco do Mandinga, que foram aos poucos sendo “higienizados” pelo governo municipal e desaparecendo, dando lugar a ruas pavimentadas e urbanizadas. Dessa época sobraram poucas casas, que são verdadeiros documentos e exemplos de como as pessoas moravam nos primórdios da cidade. Uma delas, na Riachuelo, foi a primeira a ser restaurada pelo Monumenta, em 2002. A casa é de 1840, tipicamente portuguesa, trazendo as principais características de moradia da época: ocupa todo o lote, estreito e comprido, comércio no térreo e residência nos pavimentos superiores. Na virada para o século XX, ela ganha ornamentos à moda francesa: pilastras dos templos gregos, com capitéis, sacada de ferro com curvas delicadas. Reformada em 1910, ganhou um estilo próximo ao palaciano e mais um pavimento. Atualmente é residência de uma família alemã, que comprou o imóvel, depois de várias ameaças de demolição.

 

Fotos: Emílio Chagas

A casa mais antiga de Porto Alegre

Existem apenas três espécimes desse estilo português de casas em Porto Alegre: a sede do Museu Lopo Gonçalves, na Cidade Baixa, o Solar da Travessa Paraíso e esta, nas proximidades da Igreja das Dores. Típica da arquitetura colonial, com arcos abatidos, feitos de madeira, pintados de verde ou vermelho, geralmente. Tombada e a última do gênero que sobrou no Centro Histórico, deverá ser restaurada pela prefeitura, por obrigação da Justiça. Trouxe duas novidades a partir da reforma de 1831: uma platibanda para evitar que a água da chuva caísse na calçada e o uso de vidraça, o que foi um grande avanço, principalmente em termos de saúde pública, permitindo a entrada da luz solar, arejando as casas – até então fechadas com janelas de madeira, os chamados postigos. No bom estilo português, uma casa com rés de chão, ou seja, sem porão.

 

 

 

 

 

Igreja das Dores: O acesso às torres, depois de 80 anos

A Igreja das Dores começou, na verdade, com a casa paroquial da antiga igrejinha que fazia frente para a Riachuelo. Aos poucos, foi sendo incorporada e se transformou no altar, desta vez virado para a Rua da Praia, da futura majestosa igreja, construída no final do século XIX. Começou em 1807 e terminou em 1901. Reza a lenda que foi uma praga do escravo Jósimo de que a igreja nunca seria terminada. O escravo foi acusado injustamente de ter roubado as telhas da igreja e, por isso, foi enforcado na frente da igreja, no chamado Largo da Forca. Adentrando a nave única da igreja destacam-se, além do altar (construído em escadas, no estilo rococó), o coro recentemente restaurado, as paredes com pintura em relevo, o arco cruzeiro separando os fiéis do altar e as pinturas do teto. Também chama a atenção o antigo para-vento, recuperado e reinstalado, protegendo os fiéis do vento e permitindo a entrada da luz. A obra mais “pesada” do restauro foi a troca do piso, onde foram substituídas as antigas tijoletas por um piso hidráulico, típico dos séculos XIX e XX. Mas, a grande novidade foi a visita, em primeira mão, uma oportunidade inédita em 80 anos, às duas magníficas torres da igreja, que permitem uma vista de 360° da cidade.  O acesso, que deverá ser liberado ao público, é bastante difícil, com passagens por escadas em caracol e vários lances muito pesados, permitindo a subida de apenas uma pessoa por vez, com muito cuidado. Mas compensa: ao chegar no topo, pode-se ver a cidade por todos os lados, principalmente o maravilhoso Delta do Jacuí e as água do Guaíba. Uma vista, literalmente, divina.

 

 

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