Viva o Centro a Pé: Arquitetura cemiterial: um passeio pelo eterno

Viva o Centro a Pé:Arquitetura cemiterial: um passeio pelo eterno

 

       Ministrado pela arquiteta Gicelda Webber Silveira, formada pela UFRGS e com mestrado em teoria, história e crítica da literatura, o passeio teve como tema a arquitetura cemiterial em dois dos mais conhecidos e antigos cemitérios da cidade, o da Santa Casa e o São Miguel e Almas. Intimamente ligados à história da cidade, têm em comum aspectos que remontam a memória e evolução de costumes dos nossos antepassados.

    

     Assim como em outros cidades, os cemitérios de Porto Alegre ficavam no centro da cidade, mais especificamente na Praça Harmonia no então chamados Altos da Praia, onde hoje é a Praça da Matriz e nos fundos da Santa Casa. Com a mudança da capital do estado de Viamão para Porto Alegre, o da praça foi para os fundos da Igreja Matriz e as mudanças não pararam aí. No século XIX, com as ideias higienistas, os cemitérios começaram a sair das áreas urbanas das cidades, indo para áreas mais distantes. Em Porto Alegre o lugar escolhido foi a chamada Estrada Da Cascata, que mais tarde viria a ser conhecida como Azenha. “A arquitetura cemi­terial sempre teve importância ao longo dos tempos, basta ver as pirâmides. A nossa sociedade tem grande tendência a ignorar os espaços da morte. Mas fora a carga emocional que carrega, os cemitérios têm uma linguagem arquitetônica que tem a ver com o tempo em que a gente vive”, diz a arquiteta. 

          O roteiro começou exatamente na entrada do cemitério da Santa Casa, que tem sua distribuição em forma de reprodução das classes sociais, ou seja, as classes alta, média e baixa. No início eram as catacumbas nos muros, o que segundo a arquiteta, tinha um significado especial. “Eram mais valorizadas na época das Irmandades porque ficavam no alto, ao contrário dos túmulos que ficavam no chão”. Ela explicou também que houve muita resistências em retirar os cemitérios do entorno das Igrejas pelo significado espiritual que isto continha. No cemitério da Santa Casa o que chama imediatamente a atenção é a chamada Ala Histórica. Ali estão túmulos das famílias mais tradicionais daquela época da cidade e de figuras públicas como Júlio de Castilhos, Plácido de Castro, Vigário José Ignácio, Comendador Baptista e o senador Pinheiro Machado, entre muitos outros. E mais recentemente, de Teixerinha. São túmulos com estatuária repleta de significados e todos, invariavelmente, imponentes. “Havia até um certa concorrência para ver quem fazia túmulos mais bonitos”, relata Gicelda. A Irmandade de São Miguel, considerada uma das mais antigas da cidade, fundada em 1773 também tinha espaço dentro da Santa Casa. Posteriormente ela se mudou para o terreno fronteiro, onde é criado então o São Miguel e Almas. O cemitério da Santa Casa teve, segundo Gi­celda, inspiração direta no Pére La Chaise, de Paris, onde também se observa muito a estra­tificação social, da aristocracia aos indigentes.

 

Novos tempos: os cemitérios deixam o centro de Porto Alegre

    

     Primeiro e maior cemitério de Porto Alegre, ele teve um crescimento bárbaro, segundo ela, em função das muitas epidemias que dizimaram milhares de portoalegrenses, como ti­fóide, gripe espanhola e tuberculose. Um dado interessante que a arquiteta apresentou é que em meados do século XIX Porto Alegre tinha o mesmo número de túmulos e de habitantes, ou seja, 50 mil. A mudança para os altos da Azenha é decorrência dos novos tempos, de preceitos positivistas em relação à higi­enização, buscando espaços com arborização, ventilação e lugares mais elevados, apesar da resistência das igrejas em manter os cemitérios nas suas proximidades. Na verdade já em 1808, através de um decreto imperial Dom Pedro I já havia decidido a transferência, que aqui na capital só foi im­plementada pelo então Barão de Caxias, primeiro interventor da Província. “Teve problemas em função da declividade, principalmente em dias de chuva, com estradas enlameadas. Mas a imortância desses locais eram tanta que surgiram, inclusive, meios de transportes especiais, como locomotivas com trilhos de madeira e bondes de tração animal, que foram primeiramente usados nos trajetos para o cemitérios”, explica Gicelda.  

 

 

Surge o inovador São Miguel e Almas, onde repousam Erico Veríssimo e Mario Quintana

      Em termos de arquitetura cemiterial pode-se dividir em três grandes grupos, explica Gicelda, traduzindo espíritos religiosos variados: os de florestas, de origem nórdica, predominantes nos cemitérios luteranos, com sepulturas em meio à vegetação, onde a morte é encarada de maneira mais natural; os cemitérios-jardins, com gramados e sepulturas bem espalhadas e os monumentais, que são os modelos italianos, onde predominam os grandes volumes, dando um enfoque mais pesado à morte. O da Santa Casa é considerado bastante híbrido, mas no geral se enquadra na segunda categoria. Já o São Miguel e Almas, criado em 1908, surge dentro do modelo italiano, isto é, monumental. Trans­ladando seus tú­mu­los para o pátio central do novo cemitério, poucas décadas depois, em 1930 a Irmandade São Miguel e Almas contrata o engenheiro Armando Boni, italiano, radicado no Brasil para fazer ampliação da área. Surgem então as inovadoras galerias, uma novidade inclusive no Brasil, com dois pisos e catacumbas nas suas paredes. No sistema antigo, as galerias tinham túmulos no piso e nichos para cinzas nas paredes.   

 

Túmulos monumentais e um modelo copiado

      O projeto aplicado pelo engenheiro Boni revelou-se extremamente apropriado para o terreno acidentado, hoje com 80 mil m2 e com uma grande decli­vidade. Ao longo das décadas as galerias foram sendo ampliadas, tendo hoje galerias inclusive com nove pavimentos, conforme a inclinação. O modelo de galerias acabou sendo copiado por outros cemitérios, como o João XXIII e o próprio cemitério da Santa Casa, principalmente pela necessidade de economizar espaço. As galerias, com colunas dóricas e jônicas, com uma linguagem clássica, predominando clareza e simplicidade, acabaram se expandindo, incorporando também o antigo cemitério da Baneficência Portuguesa, onde estão imponentes túmulos nos pátios centrais. “São vários espaços, maiores, menores, mas permitindo essa ventilação e verticalização a partir da conjunção de galerias e pátios, até mesmo com claustros que são lugares de contemplação e repouso, elementos inéditos em cemitérios”, finaliza Gicelda.

 

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