Velha gaita de botão

Foto: FreeImages.com/Griszka Niewiadomski

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Acordeão. Sanfona. Gaita. Gaita-ponto, diatônica, de botão, botoneira, verdulera, de oito baixos, de oito socos, pé de bode, mamangava… Muitos nomes para falar do mesmo instrumento, tão emblemático para a música regionalista do RS. A presença da gaita-ponto no estado remonta aos imigrantes alemães, ganhando força com a eclosão do movimento tradicionalista. Para conhecer a história e papel deste instrumento que emana tanto do som do sul, conversei com Orlandinho Rocha, gaiteiro experiente que hoje comanda a Casa da Gaita-ponto.

“Conheci a gaita quando entrei pela primeira vez dentro de um CTG. Escutei esse instrumento e fiquei encantado com o som rústico e diferenciado – desde então, a gaita faz parte da minha vida e da vida da minha família.” José Orlando Rocha dos Reis, mais conhecido como Orlandinho Rocha, foi gaiteiro em grupos como Eco do Minuano e Bonitinho e Os Mirins, e há 15 anos está à frente da Casa da Gaita-ponto, em Porto Alegre. Tornou-se íntimo deste som e um especialista. “A gaita-ponto é um instrumento alegre de som rústico e forte, prático devido ao seu tamanho e peso. A gaita é um dos símbolos de nosso estado – simboliza nossa cultura, música, costumes e tradições”, diz. O caminho da botoneira para se tornar o instrumento símbolo da música regionalista é longo e antigo – data de 2.700 a.C. Foi quando, na China, surgiu o cheng, aparelho de sopro feito por tubos verticais, no qual o ar faz vibrar palhetas para produzir som. O cheng viajou para a Rússia e, de lá, para a Europa. Na Alemanha, passou por transformações nas mãos de Christian Buschmann, que criou a gaita de boca em 1821. Pouco depois, em 1822, o austríaco Cyrill Demian construiu, em Viena, o primeiro acordeão, que fez questão de patentear em 6 de maio de 1829. A primeira das gaitas foi, justamente, nossa conhecida gaita-ponto, chamada então de acordeão diatônico. Ela possui botões no lugar de teclas e tem um sistema de afinação diferenciado: ao abrir e fechar do fole, produz notas diferentes saídas do mesmo botão, uma para quando abre, outra para quando fecha. É chamado de instrumento bissonoro. “A primeira gaita-ponto teve apenas uma fileira de botões na mão direita e dois baixos na mão esquerda”, conta Orlandinho. Desta invenção, surgiriam outros modelos de cordeona, como a pianada, a cromática e o bandoneón.

Gaita botoneira

Como conta Orlandinho, também foi a gaita-ponto a primeira a chegar ao Rio Grande do Sul, através dos imigrantes alemães. Atracou em São Leopoldo no ano de 1846 com a família de Pedro Roth Bierkenfeld. Mal sabiam eles o quanto fariam diferença para a cultura do estado. De início, os instrumentos eram importados, mas logo passaram a ser fabricados no Sul do país. Houve um tempo em que muitas fábricas estiveram no estado, como a Todeschini, fundada em 1939, que fez sucesso produzindo acordeões e depois migrou para o ramo moveleiro. Hoje, os fabricantes mais conhecidos são Bugari (Itália),
Hohner (Alemanha), Pampiana (RS) e Scandalli (Itália). Para fazer nascer este instrumento, são utilizados materiais como madeira, aço, papelão, celulóide, alumínio e acrílico. O que se vê da gaita são seus botões, ajustados em duas caixas retangulares ligadas por um fole – mas, por trás dessa estrutura, estão mais de três mil itens. Destaque especial para as palhetas, que, acionadas pelos botões, dão origem aos sons pela vibração da passagem do ar, empurrado através dos movimentos do fole.

Abre o fole, gaiteiro!

A gaita de oito baixos tem seus maiores representantes nas regiões Nordeste e Sul do Brasil. Chiquinha Gonzaga e Zé Calixto são destaques do NE, enquanto por aqui são Gilberto Monteiro, Reduzino Malaquias, Renato Borghetti, Sadi Cardoso e Tio Bilia os mais adorados pelo público. No estado, existe uma preocupação em despertar o interesse das gerações mais novas através de iniciativas que valorizam o instrumento. “Destaco o projeto Fábrica de Gaiteiros, que começou na Barra do Ribeiro e hoje atua em várias cidades do estado. É um projeto social idealizado por Renato Borghetti que conta com vários apoiadores, e que proporciona a crianças carentes terem contato com o instrumento”, ressalta Orlandinho. Entre nossos vizinhos pampeanos, a gaita-ponto também conquistou espaço em ritmos que nos são comuns, com o trabalho de músicos como Ernesto Montiel e Raulito Barbosa. A gaita-ponto tem lugar de honra, mas diferentes tipos de acordeão marcam presença no estado – tanto que a gaita está presente em todos os gêneros musicais regionalistas cultivados aqui. Xote, valsa, rancheira, vanera, chamamé, milonga… Para todos, quem marca o compasso é o toque da cordeona, em seu respiro musical.

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