Vanderlei Pereira da Rocha: “O Mercado foi a minha terapia”

Ele começou no Mercado Público ainda menino, com nove anos, trazido por um irmão mais velho. Entre idas e vindas, está agora há 12 anos na Banca 47, onde já havia trabalhado anteriormente. Casado, dois filhos, Vanderlei teve problemas de dependência química. Com apoio psicológico e muita determinação, mergulhou no trabalho – e terapia – no Mercado Público. Deu certo.

Foto: Letícia Garcia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nascido em agosto de 1970, natural de Porto Alegre, Vanderlei diz que o irmão Darci Pereira da Rocha, o “Ratinho”, já falecido, era muito conhecido de todos no Mercado, onde trabalhou mais de 30 anos. “Na época ele trabalhava na Flora Kolesar, e me trouxe para cá – e não era para passear. Era no tempo em que o Mercado abria aos domingos, até ao meio-dia, mais ou menos, ele me trazia para trabalhar. Desde aquela época eu comecei a tomar conhecimento do Mercado. O patrão dele, seu Mariano Kolesar, também já falecido, me dava o equivalente a R$ 5 ou R$ 10, o que para um menino era muito bom.” Porém, antes de ingressar no Mercado, trabalhou seis anos em uma empresa privada. Considera sua chegada oficial no mundo mercadeiro a partir da metade de 1992, e acha que ficou até o final de 1994. “Isso tudo é meio confuso para mim, eu tinha 23 anos, estavam começando meus problemas.” Lembra que trabalhou em alguns lugares, como as bancas 25 e 37, que na época eram de Ernani Ernesto Agiova, e na 47, de Ari Sauer, onde estava na época da reforma, quando a banca foi deslocada para a parte superior. “A parte de baixo ficou um caos.” Saiu em 1994, passando a fazer “várias coisas”. Trabalhou em livrarias, instalação de telefones, entre outros, ficando 10 anos fora do Mercado, “mas sempre frequentando”

 

Rotina puxada
Voltou em definitivo em novembro de 2004: “Lembro que foi bem na época do primeiro ano do meu primeiro filho, hoje ele tem 13 anos”. Ainda estava vivendo uma fase difícil – sumia, tinha recaídas, passou por várias internações. Mas felizmente contou com todo o apoio do chefe Ari. “Até hoje eu sempre digo que minha maior terapia foi o Mercado. Quando voltei para cá, me atirei de cabeça, trabalhando até 12, 13 horas. E estou aí até hoje. Mas ainda me trato com psicólogo.” A rotina: chega às 6h, e 19h30 está indo embora. “É bem puxado. Sempre digo que para trabalhar no Mercado tem que estar disposto a fazer de tudo.” No caso dele, tanto pode trabalhar no balcão como na rua. “Tiro pedido nas lancherias da volta, na Praça XV, Praça Parobé ou na (Avenida) Borges de Medeiros e faço entregas. Levo ketchup, mostarda, linguiça, essas coisas. Esta é a minha função principal. E quando o movimento está meio parado, eu fico na banca. Mas antigamente era muito difícil me ver aqui; era muito serviço. Hoje caiu bastante.” Quanto aos clientes, diz que tem os fixos, de muitos anos, e os esporádicos – mesmo esses sempre criam uma relação, perguntando chamando os funcionários pelo nome. “Tem uns que a gente viu crescer. Muitos vinham com os filhos, que já estão enormes. Como o tempo passa…”

 

Lembranças
Em relação à banca, diz que a 47 mudou bastante. “Mas sempre na área da alimentação e com muita variedade. Antes era mais focada em cereais – farelo de trigo, amendoim. E era tudo a granel. Eu me lembro que a gente vendia o mel num balde e as abelhas subiam pelas mãos.” Hoje o mel é vendido em potes e os cereais também deram lugar aos embutidos, latas de azeitona, milho, ervilha, pepino, etc. Além de produtos para feijoada e mocotó. “E bacalhau, que é um dos carros-chefes da banca, principalmente na Semana Santa. Não é a minha área, prefiro estar na rua, na verdade.” Uma das lembranças não muito boas é do incêndio, que ele considera muito triste. Para ele o Mercado é um mundo à parte. “Mesmo a gente não estando de bom humor ou estando cansado, a gente precisa do Mercado. Então quando pegou fogo, a gente pensava: ‘o que vai ser agora, será que a gente vai conseguir de novo?’” Mas, felizmente, a banca não chegou a ser atingida diretamente. Outra lembrança é do irmão que faleceu. “Ele trabalhava praticamente na frente, na Banca 1 (Flora Bandeira). Ele adoeceu e, numa semana, faleceu. Isso vai fazer 10 anos e na época a gente estava meio brigado, em função dos meus problemas. A gente estava começando a reatar, foi muito marcante. Eu olhava para a banca e chorava.”

 

Mercado, segunda casa
A banca também sentiu a crise destes últimos tempos. Antes era uma média de 12 a 13 funcionários, agora são aproximadamente nove. Mais de uma década depois, avalia que materialmente não cresceu tanto quanto poderia. “Mas o Mercado, pelo serviço que a gente faz, paga um pouco melhor do que aí fora.” Acredita que quem se organiza pode crescer dentro desta realidade. Está satisfeito: embora ainda more de aluguel, tem um carro, instrumento de trabalho de sua esposa, e constituiu uma família. “Minha esposa (Raquel) eu conheci aqui no Mercado, ela era gari. Eu, como falei, trabalhava na rua. E aí ‘pintou’ a paquera e rolou. Ela é a mãe do meu segundo filho. Acabamos morando juntos, ela não é mais gari, profissão que admiro muito, mas tem uma outra função, é autônoma. O Mercado me ajudou e eu consegui dar uma estabilidade para ela. Minha vida, na verdade, se desenvolveu aqui dentro”, conta. “Outra coisa que eu digo é que, quem trabalha na 47, não precisa de academia.” Confessa que gostaria de ter um pouco mais de tempo, principalmente para ficar em casa, com a família, mas não arrisca sair. Muito por isso, não abre mão das suas férias. Tem muitas amizades no Mercado. “Às vezes não sei o nome das pessoas, mas elas sabem o meu. Também por eu trabalhar na rua, entregando mercadorias, as pessoas passam e cumprimentam, mas eu não sei quem são.” Assim como muitos, acha que o Mercado é uma segunda casa: “É onde a gente passa a maior parte do tempo. Às vezes é complicado viver aqui, mas a gente não consegue passar sem o Mercado”. Para concluir, faz questão de registrar o seu agradecimento ao apoio que teve de seus patrões Ari e Marisa Sauer nos tempos difíceis. “Se não fossem eles e por minha mãe, eu não teria a oportunidade de estar bem como estou hoje.”

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