Valéria Di Lorenzo: mercado, uma história de amor

Eles formam uma típica família de imigrantes italianos do Mercado Público, em determinado momento tão numerosa quanto a de portugueses. São os Di Lorenzo, donos da Banca Central, uma das mais tradicionais do prédio. Na época da fundação, eram três irmãos associados: Anunziato, Biagio e Tommaso (já falecido), nascidos em Calábria Morano, na Itália.

 

Foto: Letícia Garcia

Os irmãos Di Lorenzo trabalharam juntos por anos. Quando Biagio ficou doente, passaram a realizar um sistema de rodízio na banca, no qual cada um trabalhava seis meses — sistema que perdura até hoje. A banca já está na segunda geração: Valéria é filha de Biagio, que, adoecido, já não comparece mais ao trabalho, mas ainda orienta de casa. Ela nasceu em Porto Alegre em 17 de novembro de 1972 e tem um casal de filhos, uma de 20 anos, que, ao que tudo indica, poderá seguir a tradição familiar na banca, e um garoto pequeno. Valéria é uma grande apaixonada pelo Mercado. E pela Central, claro — tanto que, mesmo formada em Pedagogia e Psicopedagogia Institucional, ainda prefere estar ali. Quando nasceu, a família já tinha a banca. Naquela época, a Central ficava justamente bem no centro do Mercado, em cima do assentamento do Bará. “Quase sempre vinha com meu pai, porque comecei a estudar no Centro. Então, o Mercado era ‘ponto’ para mim. Era muito frequentado, ‘bombava’, como acontece até hoje, com pessoas de várias etnias, cores, raças. Aqui não tem credo, nem cor.” Das primeiras lembranças, uma das mais fortes é o do depósito das mercadorias, onde a garota ia com o pai buscá-las para reposição. “Depois a gente sempre ia tomar o caldo de frutas da Banca 40, que era maravilhosa e ficava aqui no meio também.” Lembra das antigas peixarias e das três reformas pelas quais a banca passou: “Lá no centro eles acharam a tal ‘caixa-preta’ (assentamento do Bará), mas nunca se mexeu porque era um símbolo e tinha todo um sincretismo.” As mudanças também passaram pelos produtos da Central: “Os alimentos mudaram muito na banca, antes se trabalhava até com carne”. Ela lembra das grandes quantidades de mondongo do lado do caixa, por exemplo. Depois da grande reforma do Mercado, nos anos 1990, a banca mudou para o ramo de fiambreria, alimentos coloniais e produtos para feijoada, um dos pontos altos da Central.

 

SANGUE NOVO

Para Valéria, o Mercado é uma história de amor e de fé: “Tem um contexto emocional envolvido, acredito que para todo mundo que trabalha aqui dentro. Passa de pai para filho. Meu pai adoeceu e a gente assumiu de vez, continuou a caminhada”. Além dela, a mãe Teresa e a irmã Fabiana dividem as tarefas. A filha Ornela também vem, às vezes. “Ela gosta, mas eu mesma a estimulo a estudar, ter uma carreira, assim como fui estimulada. Depois ela decide onde vai plantar sua raiz de verdade — se vai ficar aqui ou seguir a carreira dela.” Já Valéria não tem dúvidas: se precisasse escolher entre a banca e os outros negócios da família (pousadas em Porto Alegre, para estudantes e idosos), ficaria sempre no Mercado. “Para mim, o Mercado é tudo, minha vida. Eu gosto do comércio, de conversar com as pessoas, sou muito comunicativa. Quero continuar o trabalho da família. Tudo mudou, o mundo está muito globalizado, é muito rápido — então é preciso ter esta garra nova que a gente traz e tenta fazer as mudanças necessárias, mas sempre mantendo a essência da banca, principalmente em termos de fatiação, que é feita na hora, tudo fresquinho, como o público gosta. É o forte da banca.” Nisso a banca conta com a habilidade de Airton (Malfatti), que fatia queijos há muitos anos: “Ele me viu ainda na barriga da mãe”.

 

PEGANDO JUNTO

A herdeira considera o Mercado uma segunda casa. Fica feliz de ter visto pessoas evoluindo ali, inclusive ex-funcionários que hoje são gerentes em outras bancas. “Tem muita gente que saiu e acaba voltando, porque o Mercado está arraigado nelas. Eu tenho funcionários que são filhos de funcionários que trabalharam com a gente. Nós somos em 15, e aqui todo mundo ‘mete a mão’. Não tem diferença se é patrão; se precisar, a gente varre o chão, vai na câmara fria, repõe, faz pedido. E se tiver que ir para o balcão, a gente vai. Eu adoro ir, tenho o meu uniforme, tenho que saber de tudo, até para organizar a equipe.” Essa, faz questão de dizer, é uma das lições do seu pai. Para ele, cada funcionário merece uma atenção especial e um jeito carinhoso de ser tratado, “porque eles moram aqui, chegam cedo, vão embora tarde, é uma casa para eles”. Como muitos, Valéria acha que o Mercado é uma família de funcionários, clientes, pessoas. Isso criou um grande círculo de amizades e aproximação com os clientes, principalmente os mais antigos e fiéis. “Eles sempre perguntam: ‘ah, tu és filha de quem? Do Biagio?’.” Pessoas ainda dos velhos tempos, de quando ela nem trabalhava no Mercado. Eram tempos mais tranquilos: “Quando cheguei era mais calmo, a gente entrava numa grande paz. Hoje se vive numa insegurança, isso deixa a gente muito triste.”

 

LEGADO DA CENTRAL

Ela também não vacila em responder sobre qual o legado da Central para o Mercado: “O marco de sermos italianos. Temos um estilo de trabalhar mais ‘gritão’, de brincar, com esse sangue italiano, com muita garra. A banca é diferente: se comparar com a do Holandês e a 43, por exemplo, a nossa tem um perfil mais popular. Tudo o que a família construiu foi graças ao trabalho da banca”. Por essas razões, para ela, o Mercado é uma casa, onde se encontra amor, muita energia e fé, e onde o trabalho passa a ser sinônimo de alegria e recompensa por se fazer o que gosta. “O Mercado é um símbolo, não só para a população, mas pessoal, emocional. Envolve o afeto, a família, os colegas que a gente cria aqui dentro. É um prédio monumental que nos toca e que amamos — o meu interior grita com amor pelo Mercado. Se não venho para cá, fico mal. Eu tenho orgulho de dizer onde trabalho: em uma banca no Mercado Público, que é dos meus pais e tios.”

 

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