Valdir Pellenz: “Lembranças de um garçom convicto”

Nascido em 1° fevereiro de 1961, é natural de Lajeado. Separado, cinco filhos, mora em Alvorada. Veio procurar emprego no Mercado Público em 1981, encontrou e foi ficando, com pequenas fases ausente. Mas voltou para permanecer até hoje. Começou na lancheria do “seu” Carlos, a loja 155 – naquele tempo as bancas eram definidas por números. Começava ali a sua trajetória mercadeira. Trabalhou um ano e nove meses na 155, e depois comprou a sua própria lancheria junto com seu irmão Armi Pellenz, já falecido.

Foto: Letícia Garcia

“Ela ficava onde é hoje a loja 11 (Comercial Martini). Vendi na década de 1990, mas fiquei no Mercado trabalhando, aluguei a lancheria do ‘seu’ Manuel Gueiral, e fiquei lá 10 anos.” Ele lembra que naquele tempo o Cais do Porto funcionava a pleno. Os embarcados encomendavam comida por horários. “Por exemplo, 20 pessoas marcavam no início da noite para comer às 23h. O Mercado funcionava 24h na época, e isso foi até os anos 80, começo dos 90. Tinha o Treviso, que era famoso, ali do outro lado, que servia café da manhã, e quem ia para os bailes de manhã cedo tomava aquela canja. Naquela época era muito bom, eu trabalhava na parte da noite, ‘pegava’ às 19h e ‘largava’ às 7h do outro dia. Tinha um funcionário que trabalhava de tarde e quando ele saía, meu irmão assumia”. Depois que vendeu a lancheria, comprou casas de aluguel. Mas, mesmo com a venda, sua história no Mercado estava longe de encerrar: foi convocado por Belmiro Pires, do Restaurante Pires, onde ele está há 10 anos. Na verdade, nunca deixou de exercer a sua profissão, da qual tem muito orgulho: garçom. Revela que, no começo, quando se entrava em alguma lancheria ou restaurante do Mercado, tinha que começar na cozinha. “Era preciso aprender, porque se um dia faltasse alguma cozinheira, a gente entrava lá atrás e sabia servir uma comida. Depois que a gente passava para o salão, para ser garçom, e depois à gerente. Eu passei por todas as fases de um restaurante.”

OS SEGREDOS DE UM GARÇOM

No Restaurante Pires, ele continua trabalhando como garçom, mas fez curso de saladeiro há três anos. “O Belmiro contratou uma profissional que nos deu aula, fiz todos os testes e passei. Tenho diploma de saladeiro, mas ali eu sou garçom.” Quando o patrão vai para a praia, ele fica como gerente. “Toco sozinho, é tudo comigo: compro e vendo.” Diz que ainda pegou a época do pai de Belmiro, também chamado Belmiro Gomes Pires, que tinha um bar-restaurante na parte do Mercado junto à Avenida Júlio de Castilhos. “Meu irmão chegou a trabalhar muito tempo com ele, ficou 10 anos de gerente dele. Sempre fomos muito honestos e eles acreditaram na gente.” O que mais roda no Pires, diz, é o mocotó e filé de peixe com salada, pratos tradicionais do dia. Valdir chega às 6h30 e sai às 14h30, depois vai para casa, pois tem outro trabalho, na verdade, um negócio próprio: um salão de festas em Alvorada. “Quando a gente se aposentar, tem que tocar o que sabe fazer. Sempre trabalhei como garçom, então vou fazer outra coisa? Não sei fazer outra coisa.” No Pires, é ele quem abre o restaurante. “Abro, faço café, boto o mocotó a cozinhar, sou eu que dou andamento. Somos três garçons e duas cozinheiras.” O básico do garçom, revela, é saber todos os pratos que tem na casa para oferecer aos fregueses. “Mas o que a gente oferece mesmo é o a la minuta: filé de peixe e salada. O PF (prato feito) está saindo fora.”

 

NO TEMPO DOS MARINHEIROS BRIGÕES

De manhã, no café, o Pires faz torradas, sanduíche, pão com linguiça, pastel de forno e pastel feito na hora, explica. Segundo ele, dos clientes, a maior parte é freguês da casa. “E tem aqueles que a gente pega na porta. Os fiéis são os que seguram a casa, mas é por causa da qualidade da comida, que é boa mesmo.” Fez muitas amizades neste tempo todo, mas os “antigos mesmos” já se foram. Segundo ele, quem está dando andamento e continuidade às bancas são os filhos dos fundadores, como o seu próprio patrão e mais alguns. “Mas a maioria não deu continuação, foram vendendo e hoje já estão em outros ramos. Antigamente aqui era quase só lancheria, uma do lado da outra, a gente disputava freguês, já deu até briga: dois portugueses se grudaram no soco por causa de um deles. Agora não, tem mais variedade de bancas, açougue, sorvete.” Nos bons tempos do porto, que funcionava 24h, os bares vendiam muito. Ele lembra que os barcos encostavam uma semana para descarregar as cargas. “E aquela turma de marinheiros vinha para gastar. Chegavam em grupos de 10, mas a gente não gostava de atender porque eles brigavam muito. Nem a Brigada (Militar) podia prender, só a Marinha conseguia fazer com que eles parassem. Chegavam num bar e quebravam mesmo.”

 

LEMBRANÇAS DE UM MERCADEIRO

Das lembranças, o que mais marcou o nosso garçom foi ter vendido a sua lancheria. Diz que foram dois anos sob pressão, levando muitas multas. Acabou vendendo. Mas constata que atualmente está bem. “Investi em casas de aluguel e ainda tenho o salão de festas. Com o que eu tenho, posso viver o resto da vida.” No salão, trabalha aos fins de semana, fazendo bailes e aniversários. Sobre os tempos mais antigos, anteriores à reforma dos anos 90, diz que tudo era mais “descansado”. O Mercado, lembra, era pintado uma vez por ano. “A maior mudança foi a reforma. Depois dela, tudo ficou mais bonito e muito melhor para os clientes.” O próprio Restaurante Pires também foi reformado, mais recentemente. Segundo Valdir, melhorou principalmente na parte da limpeza.  “Tudo foi feito para agradar os clientes.” Garçom convicto e apaixonado pelo que faz, orgulha-se em lembrar que chegou no Mercado com 19 anos e está nele até hoje, na mesma função. Como muitos mercadeiros, para Valdir o último incêndio é a lembrança recente mais forte. “Ficamos 45 dias parados, a gente não sabia se ia voltar ou não, mas o patrão nos deixou em casa e pagou como se a gente estivesse trabalhando. Aqui no Mercado, muita gente não fez isso, só pagou aquele básico da carteira. O Belmiro, não; ele é muito pelo correto, estudou Economia, até hoje nenhum funcionário botou ele na Justiça.” Para finalizar, ele é muito grato ao Mercado, ressaltando que tudo o que ele tem na vida veio dele.

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