Fátima Gimenez – Uma mulher do Rio Grande

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Uma das precursoras das vozes femininas no nativismo, Fátima Gimenez canta o Rio Grande desde os anos 80, quando era vocalista e tocava bombo leguero no Grupo Tempero. Acumulando prêmios, inclusive nos festivais de música nativista, sua voz é conhecida por interpretações de “Cabo Toco”, “Guerreiras da Paz”, “Súplica do Rio” e por levar o hino rio-grandense aonde vai.

 

Foto: Letícia Garcia

Sinto muito orgulho de ser uma das precursoras da presença feminina na nossa música. Eu trabalho há muitos e muitos anos, e muitas foram desistindo pelo meio do caminho. Eu persisto, insisto e consigo me manter. Sou uma das cantoras que mais faz shows dentro do estado – trabalho em festivais, rodeios, CTG’s, atuo como jurada de vários festivais, esporadicamente sendo mestre de cerimônias, e trabalho paralelamente junto ao grupo que me acompanha. Também trabalho em congressos, interpretando os hinos nacional e rio-grandense. Em 89 eu estava gravando meu primeiro trabalho em disco e tive um sonho em que estava cantando o hino rio-grandense para milhares de pessoas. O disco sairia com dez músicas, e na última hora eu resolvi gravar o hino rio-grandense. Fui buscar a letra, fiz um arranjo muito bonito com o Carlos Garofali e o João Vicente, e fiz uma interpretação do hino rio-grandense. Na época, o disco quase não saiu, porque era proibido interpretar o hino, um dos símbolos do estado. Quem me defendeu junto a um órgão chamado COMOCI (Coordenação de Moral e Civismo) foi Antonio Augusto Fagundes, que é advogado. Ele mostrou que o hino foi gravado com o maior respeito e sem modificar a melodia – eu apenas modifiquei o andamento porque fiz uma interpretação livre. Foi um sonho que se concretizou, porque desde então eu já cantei o hino rio-grandense para milhares de pessoas, inclusive fora do país, na Europa.

 

A música

Já houve mais presença feminina nos palcos nativistas. Nos anos 90 as músicas e os festivais eram mais abertos, havia temas que propiciavam a interpretação feminina. Hoje as músicas estão mais voltadas ao campeirismo. Mas eu canto de tudo: tanto faço a música bastante projetada, que me agrada demais, como faço a música campeira nos rodeios e nos CTG’s, e também me encanto. Acho que o Rio Grande do Sul é isso, é rico em arte, em tradição, em história e em músicos e artistas muito bem conceituados.

Eu ouço de tudo, admiro todo tipo de trabalho. Dentro do gauchismo, tenho algumas preferências e algumas parcerias musicais, como Elton Saldanha, Luiz Carlos Borges e Vaine Darde, que sempre trabalham comigo em novos projetos. No meu trabalho, procuro expressar sempre a verdade – canto sempre com muito coração, com muito carinho. Quando vejo uma platéia repleta, muito me emociona. Gosto de cantar letras que digam alguma coisa, que tragam alguma mensagem. Se pudesse destacar um trecho de música para representar isso, seria “Súplica do Rio” (de Paulinho Pires), um tema que cantei em 78, na Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana, que fala sobre poluição e os problemas dos rios. É um tema cada vez mais atual e preocupante.

 

 

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