Uma livraria no Mercado

Diversidade é uma das palavras que define muito bem o Mercado Público. Ao longo da sua história, o local ficou conhecido por ser um verdadeiro centro de compras, abrigando uma grande variedade de produtos. Na década de 1970, entre o peixe fresco e o colorido das frutas, existiu um espaço voltado não somente para o comércio, mas, também, para troca de ideias e discussões: a velha Livraria Coletânea.

 

 

Livraria Coletânea, 1976. Fonte: mercadopublicodeportoalegre.wordpress.com

Quando se localizava na Rua da Praia, quase em frente à Praça da Alfândega, a Livraria Coletânea era conhecida por ser estreita — ocupava pouco mais que um corredor — e por trabalhar com livros de Ciências Sociais. Além disso, era o lugar para quem quisesse encontrar jornais da chamada imprensa alternativa, em meio à censura e à repressão do Regime Militar vigente no país. Em 1977, após entrar em um período de decadência, a livraria passou a ocupar os altos do Mercado, sendo administrada por Iolanda Saldanha. O selo que vinha colado nos livros indicava o endereço: “Mercado Público, 62, sala 2”.

O escritor José Weis trabalhou na Coletânea logo que a livraria começou a funcionar no Mercado. Na edição nº 2 do Jornal do Mercado, de novembro de 2007, ele relatou como estava o país na época e de que modo a Coletânea se portava perante isso: “Aquele verão de 1977 foi dos mais porto-alegrenses. O clima abafado não era apenas meteorológico. […] Mesmo em tempos de repressão, havia espaços de resistência democrática. A Coletânea era um destes lugares em que poderia respirar uma literatura mais crítica e comprar jornais como Pasquim e Opinião”.

No espaço da livraria também eram promovidas noites de autógrafos e era feita uma venda clandestina do livro “As veias abertas da América Latina” (1971), de Eduardo Galeano, para driblar a repressão. “A Coletânea daqueles tempos, se mudou de endereço, não perdeu a ousadia. Há muitas histórias dos tempos em que o Mercado Público contava com uma livraria com estilo e originalidade, a inesquecível Coletânea dos anos de 1970.”

 

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