Uma história em família no Mercado

Wenceslau Barcellos.A esposa Margarida e os filhos Susana e Hermes contam a história do falecido empreendedor

 

Trabalhavam duro, num tempo em que os espaços no Mercado eram menores, com muita gritaria, multidões de clientes, funcionários se batendo. Frios eram cortados em “grandes pilhas”, manualmente. Galinha era o carro-chefe das vendas. Naquele tempo vendia-se muito, dizem. “Era bom de ver. Hoje agente lembrando assim, dá saudade”, diz Hermes, filho de Wenceslau Barcellos. Tinham uma peixaria e depois a fiambreria da antiga banca 30.

Eram outros tempos mesmo, meados da década de 70: Margarida, por exemplo, foi a primeira mulher a trabalhar no Mercado, o que causou muito espanto em todos. Hermes conta: “Sim, foi a primeira mulher a trabalhar no Mercado Público. Mulher que entrasse naquela época, há uns 40 anos atrás, era considerada prostituta, mulher da vida, hoje é liberado para qualquer pessoa”. Margarida completa: “Eles viram que não era aquilo que imaginavam, né? Puxa, o Barcellos trazer a sua esposa aqui…” Mas com o tempo, os outros donos de banca também começaram a levar suas esposas e filhas. Margarida cuidava da fiambreria e Barcellos, como era mais conhecido o seu esposo, tocava a peixaria.

A rotina da peixaria, também era bem diferente. Os peixes vivos, traíra, bagre, jundiá, entre outros, tinham mais valor e eram colocados numa espécie de tanque. Hermes e Margarida lembram também que a população também comprava peixe diretamente nos barcos. Outra curiosidade é que os balcões na época já eram refrigerados. Não viveram,
portanto, o tempo em que o peixe era colocado nas famosas banquinhas de concreto e depois de um certo tempo tinha o rabo cortado pelos agentes da saúde – sinal que já tinha vencido a sua validade. Hermes: “Não, não. Todas as bancas possuíam uma boa estrutura e balcões de refrigeração. Sim porque nem todos os peixes eram vendidos no mesmo dia, ficava de um dia para o outro.”

O garoto, o jipe e as galinhas
Quanto às bancas, Hermes diz que não tem nada a ver com o que é hoje. Lembra que as peixarias eram bancas maiores. “Aquele sistema que criaram foi totalmente remodelado, não era assim. Mesmo com a compra da fiambreria, a família continuou com a peixaria. “Meu pai atendia na peixaria e eu para dar uma cobertura, porque a mãe era a única mulher, ia junto, pois ele me mandava ficar mais ou menos junto com a mãe na fiambreria.” O novo empreendimento chegou a ter até 11 funcionários “Eram duas caixas e agente só pegava o dinheiro, não tinha tempo de contar, só guardando. No fundo tinha um cofre e quando estavam muito cheias as caixas, se largava lá dentro e depois botava em um saco e subia a Borges com aquele saco cheio de dinheiro”, lembra Hermes. O povo ficava nos portões esperando o Mercado abrir. Entravam tipo uma avalanche. Margarida lembra detalhes: “Recebíamos caixas e caixas de morcilha quentinha e eles
diziam: me dá, me dá!”

Hermes lembra que o pai tinha comprado um jipe zero. Naquela época o garoto Hermes, com 14 anos levantava de madrugada e ia até a Auxiliadora, buscar galinhas prontas e limpas. “Eu colocava as galinhas até o teto e umas tábuas do lado para elas não caírem no meu colo. Só tinha lugar para o câmbio. E eu fazia isso só na madrugada, pois naquela época não tinha muito controle de trânsito”.A fiambreria trabalhava com outros produtos: carne, galinhas, frios, azeitonas, enlatados em geral, sal, salamito, salame, morcilha e vários tipos de queijos. Margarita também tinha seus feitos: “Para você ter ideia, naquele tempo eu desmanchava um traseiro (de boi), que é carne de primeira.”.

O espírito empreendedor de Barcelos
Quando chegaram já existia o Mercado Livre, entre a Mauá e a Júlio de Castilhos. Margarida diz que lá tinha frutas, hortigranjeiros, mas não o fluxo do Mercado. “Competíamos muito com a Banca Central. Aliás, tinha uma rivalidade muito grande do meu pai com esse alemão,o Müller… Então aí foi a grande jogada, tacada mais forte do meu pai que o Müller não tinha filho… Entendeu, então nós tínhamos essa diferença nos frangos e na galinha. Chegava 9h30, 10h00… até antes, a galinha dele já não existia mais. Ele (Müller) não tinha como buscar e nós tínhamos essa fonte. Então eu ia lá buscar. Era a única banca que tinha galinha para vender, entendeu. Nem o Parolin e nem a Banca Central. O pai era esperto, muito honesto, estava sempre pensando em uma maneira de correr a frente, esse espírito empreendedor.”Hermes conta que a família penhorou a casa para comprar a fiambreria. “Foi um peitaço que ele deu, porque não sabia se ia dar certo ou não entendeu”, porém, seis ou oito meses depois ele já estava resgatando a casa.

Lembranças de um antigo Mercado
Lembram também da Banca 40, com o sorvete mais famoso do Mercado. Contam que era mais refinada, com colheres de prata e que o seu dono, Manoel Martins, tinha grandes plantações de maçã e pêssego. Falando em frutas, contam que a maioria das bancas do Mercado era de frutas e armazéns. Fiambreria, só a da família. “Depois que começaram a abrir, mas no início era só de frutas. Peixaria também, mas armazém era incrível, né? E de secos e molhados eram muitos. A do Holandês já tinha, desde que nós trabalhávamos com fiambreria, só que ele não tinha frango, carne, entendeu? Mas frios ele trabalhava e produtos importados, conta Hermes, que só se arrepende de uma coisa: de não foi ter ficado com as bancas. “Meu pai ofereceu para mim antes de vender. E eu não quis!”, diz. Ele avalia que hoje já não é “como antigamente”, referindo ao grande número de supermercados existentes na cidade.

Discriminados pelo cheiro do peixe
Acham que o peixe até hoje ainda é considerado uma carne de segunda, com uma margem de lucro menor. Sofreram com o cheiro de peixe entranhado em todos os lugares onde passavam. “Então a fiambreria disparou e o pai vendeu a peixaria e se dedicamos os três na fiambreria”, resume Hermes que classifica o público do Mercado como A, B, C e D. Margarida diz que lá tinha “tanto pessoas finas, como o pobre que trabalhava no porto”. A diferença? A segurança. “As pessoas na época podiam usar jóias. As madames iam lá e compravam, senhores bem engravatados”, diz Hermes. Já Margarida, orgulhosa, afirma: “Eu acho que todo mundo gostava do meu marido no Mercado, porque ele tratava o mais humilde até o mais rico da mesma forma. Adorava andar engravatado, foi bancário muitos anos, se acostumou com aquele estilo”. Contam que, em geral, o nível cultural dos donos de bancas era muito baixo e o velho Barcelos gostava muito de ler. Da reforma, Margarida lembra que quando o seu marido soube pensou em vender a banca, assustado, pensando que talvez o Mercado fosse demolido. O que, felizmente, não aconteceu.

 

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