Uma biografia para Bento

Bento Gonçalves foi o líder mais importante da Revolução Farroupilha — personagem emblemático para os que se interessam por história e pela cultura gaúcha. Muitas ruas, escolas, praças e até uma cidade do Rio Grande do Sul levam o seu nome. Então é de espantar que não houvesse uma só biografia resgatando a sua trajetória. Isso mudou graças a Giovanni Mesquita, que lançou a primeira obra ampla sobre essa figura histórica, dividida em dois volumes: “Bento Gonçalves: do nascimento à Revolução” e “Bento Gonçalves: da Revolução à morte”.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

Foto capa: divulgação Pintura: Vasco Machado

“Há muita superficialidade sobre esse personagem, o que se explica pela ausência de estudos biográficos”, começa explicando o autor. Foi há quatro anos que Giovanni Mesquita do Estreito tomou para si a empreitada de escrever sobre o líder farrapo. Historiador, museólogo, professor de História e diretor do Museu Histórico Visconde de São Leopoldo, ele percebeu a falta de material ao montar uma exposição sobre o personagem na extinta Fundação Instituto Gaúcho de Tradição e Folclore (FIGTF). As poucas obras focavam em momentos específicos — apenas esboços históricos, como “Bento Gonçalves, o herói ladrão” (1983), de Tau Golin, e “Bento Gonçalves: mito e história” (1984), de Fernando G. Sampaio. “Nenhum deles tem como proposta fazer um relato biográfico completo de Bento”, explica Giovanni. Ele começou, então, a pesquisa para preencher essa lacuna.

 

Cronologia farrapa

O trabalho de recuperar e organizar a história de Bento Gonçalves, da infância até a morte, passou a ocupar quatro horas diárias de Giovanni. O autor foi atrás de todas as fontes possíveis, começando aqui no estado, depois partindo para Rio de Janeiro e Uruguai, num roteiro para recuperar a cronologia de vida do personagem. Conforme a pesquisa avançou, Giovanni percebeu que seriam necessários dois volumes para contar tudo.

Foram muitas referências encontradas — só esse primeiro livro tem 750 citações. “A coletânea de documentos mais importante que usei foi o Archivo Artigas, 36 volumes de documentação, uma parte significativa recolhida no Rio Grande do Sul.” O maior desafio foi abordar o movimento que redundou na Revolução Farroupilha (1835–1845): “Qualquer evento de grande monta encerra em si complexidade, contradições, ocultamento. O trabalho clandestino que faziam os líderes da Revolução deixava tudo muito dúbio. Só o trabalho árduo tornou possível dar alguma luz a essas situações”.

 

Momento histórico

Giovanni consegue aliar centenas de fontes a uma leitura agradável, trazendo um panorama histórico que contextualiza a época em que Bento viveu nos seus 58 anos (1788–1847). “A vida de Bento Gonçalves é de grande interesse para todos aqueles que estudam o Brasil, o Rio Grande do Sul e a região platina”, defende. “A razão disso é por ele ter vivido num momento importantíssimo para o nosso continente e para o mundo.

Abarcou as Guerras Napoleônicas, as lutas anticoloniais de independência das Américas e do Brasil e a luta pela república. Ele participou, de uma maneira ou de outra, de todos esses eventos, esteve no centro de todos os eventos nacionais, regionais e platinos.” Contribuir para o relato de nossa história é uma das intenções do autor ao resgatar a trajetória do líder farrapo: “Participar das discussões sobre a formação de nosso povo, nossa cultura e dos tópicos polêmicos que nos motivam”, explica.

 

Além do mito

É comum, na dicotomia cultivada no estado, que Bento Gonçalves seja ou defendido como herói, ou acusado como vilão. Muito do que se conta é pautado em mitos, como o de que ele seria ladrão de gado e desertor — ambos desconstruídos pelo autor por meio de pesquisa histórica. Não há discussão, porém, quanto ao importante papel de Bento para a história rio-grandense. “Não por ele mesmo, mas por ele ter sido um ator ativo de tantas situações capitais para nosso estado”, diz Giovanni, que destaca a riqueza de nossa história.

Para ele, a Revolução Farroupilha, e história das Missões e o movimento de 30 são os momentos mais significativos, com elementos que precisam de estudo e compreensão. “A epopeia farroupilha foi a proposta de um Brasil que muito se distinguia do monarquismo escravista. Foi a derrota dos liberais federalistas que possibilitou que o modelo vitorioso se estendesse, absurdamente, até o fim do século XIX, o Império — o que nos manteve como último foco de uma resistência reacionária, atrasada e desumana”, avalia o autor.

 

Volume dois

Giovanni diz que essa biografia é a sua contribuição para aqueles que se interessam por história e para todos os que se veem e se compreendem gaúchos. “Acredito que, se o livro se tornar conhecido do público, ele vai motivar uma discussão que levará a outros estudos sobre Bento e sobre os outros temas abordados.” O segundo volume, “Bento Gonçalves: da Revolução à morte”, deve ser lançado no final de 2019. Os dois livros são edições do autor, que também está trabalhando na distribuição e divulgação. Os exemplares estão disponíveis em alguns pontos da capital e do interior e também podem ser adquiridos pelo e-mail bento1835@gmail.com.

É sempre bom lembrar que, apesar de a ideia do gaúcho tradicionalista ser constantemente ligada à época farrapa, o contexto real é bem diferente, como Giovanni explica a seguir.

“A formatação do que hoje se chama de ‘identidade gauchesca’ muito pouco tem a ver com Bento Gonçalves ou mesmo com a Revolução Farroupilha. Essa construção se deveu ao movimento tradicionalista surgido nos anos 1950. Ela se atém muito às aparências e a protocolos ditados por aqueles que comandam o movimento. Há por esses setores pouco interesse por um estudo mais crítico e aprofundado da história. Na época de Bento Gonçalves, os súditos do Império, portugueses e brasileiros, não se nominavam de gaúchos, e sim de rio-grandenses ou continentinos.

Os gaúchos, como explico no livro, eram elementos que viviam no pampa e não se sentiam representados por governos ou igrejas, não constituíam família, viviam da caça do gado alçado e não reconheciam fronteiras. Eram mestiços pertencentes ao pampa de toda região platina. Esse setor social começou a ser incluído socialmente, como soldados, pelos movimentos de libertação colonial que depois fundaram a Argentina e o Uruguai. A ideia que algumas pessoas têm que de os farroupilhas eram um bando de estancieiros ignorantes seguidos de peões néscios é uma construção bastante preconceituosa. E acho que uma nova visão sobre esses indivíduos, nossos antepassados, é um passo importante, com o qual eu espero ter contribuído.”

 

 

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