Um passeio pelo Centro Histórico

Centro Histórico, por Emílio Chagas

 

Um passeio pelo Centro Histórico

Desta vez o passeio foi comandado pelo próprio Glênio Bohrer, responsável pelo Programa Viva o Centro a Pé. À frente de um grupo de 200 pessoas, numa fria e chuvosa manhã de sábado, ele passou pelos principais pontos do Centro Histórico contando um pouco da sua história, que se confunde, claro, com a própria história da cidade.

                                                                                                     

Glênio iniciou o passeio com uma pequena aula sobre a história de Porto Alegre. Basicamente a sua origem e formação. Alçada à condição de capital em 1873, a cidade começa um crescimento rápido. Já no começo do século passado surgem os primeiros prédios, criando as feições de uma jovem metrópole, principalmente com o governo de Carlos Barbosa, que imprimiu um ritmo moderni­zante na cidade. Exatamente onde iniciou o passeio, na Praça Daltro Filho, o arquiteto apontou o cinema Capitólio, em reformas para se transformar na cinemateca municipal, como um dos principais marcos desse período. O cine-teatro foi cons­truído em 1928, com 1300 lugares, o que dá uma idéia da sua grandiosidade até hoje. A cidade chegou a ter 10 teatros de grandes proporções e o cinema se constituía num dos principais costumes de lazer, entretenimento e cultura da população. Eram tempos de Borges de Medeiros e de modernização da cidade. Surge também o viaduto Otávio Rocha, considerado central nesse processo. Com a abertura da avenida Borges de Medeiros a cidade fica definitivamente ligada em suas zonas sul e norte, criando aquilo que Glenio definiu como o primeiro grande sinal de concectividade em Porto Alegre.

Cúria e viaduto, majestosos

A Cúria Metropolitana foi o próximo destino do grupo. Situada atrás da Catedral Metropolitana, onde antes ficavam os cemitérios da cidade, a Cúria também funcionou como seminário. Erigida em 1868, era um dos mais monumentais edifícios de Porto Alegre. Em linhas neo-clássicas, começou com um arquiteto francês e foi concluída por um arquiteto alemão, de onde resultam misturas de estilos, como o gótico e o medieval. Patrimônio tombado, está em negociações com a prefeitura para a instalação no local de um museu sacro. Seguindo, chegou-se no viaduto da Borges, como é popularmente conhecido o viaduto Otávio Rocha. Glenio ressaltou também a sua majestosa imponência e detalhes arquitetônicos. “Uma obra magnífica até hoje, do ponto de vista da logística e estrutura de engenharia e arquitetura”, disse ele. Diante do estado lastimável que se encontra hoje, com depredações e atos de vandalismo, o arquiteto adiantou que o viaduto deverá passar por um processo de revitalização, incluindo uma nova reforma. O local também deverá abrigar um pólo temático de comércio, atualmente em negociação com os comerciantes atuais da área.

 

Altos da Duque

Ponto mais alto do centro antigo da cidade, a Duque de Caxias, que abrigava as classes mais abastadas, também mereceu destaque no roteiro. Marco divisor da cidade, era onde ficavam  os grandes casarões, como o solar dos Chaves Barcellos, dos Câmara, além das casas onde moraram Júlio de Castilhos e Borges Medeiros. Os casarões foram demolidos gradativamente, dando lugar aos grandes edifícios, principalmente de fazendeiros que possuíam grandes apartamentos no centro. Era o processo de urbanização e verticalização da cidade, implementado por Loureiro da Silva, um prefeito arrojado e que fez grandes intervenções na face urbana de Porto Alegre.

Pouco mais adiante, a Praça da Matriz, antigo cemitério da cidade alta, que tem sua construção iniciada em 1772. A Duque de Caxias, que era chamada a Rua da Igreja, era a grande referência de um conjunto de obras majestosas, que  circundam a praça da Matriz, como o próprio Palácio Piratini, o Theatro São Pedro, a Casa Real da Fazenda (onde está hoje a Assembléia Legislativa e mais tarde a Catedral Metropolitana, construída porque a antiga igreja ficou muito desproporcional em relação ao Palácio Piratini. “Aqui (praça da Matriz) era um campo, de onde podia ser ver todo o rio. Ao lado do Theatro São Pedro tinha uma edificação igual, que era a Casa de Câmera, destruída em 1849. Com o teatro ela formava uma espécie de portal da praça”, explicou Glenio.  O portal tinha também a função de proteger a cidade, que foi legalista e leal ao Império.

Neste importante entorno histórico da Praça da Matriz, que passará por uma ampla reforma de recuperação, estão a complexa estátua de Julio de Castilhos e seus múltiplos elementos e significados – hoje completamente entregue ao vandalismo. Compõem ainda o entorno o prédio do Arquivo Histórico, praticamente sufocado pelo anexo do Theatro São Pedro e a Biblioteca Pública, que também passa por uma reforma estrutural. Destoando um pouco do cenário, o prédio do Palácio da Justiça, mas ainda assim, um dos principais referenciais da arquitetura modernista em Porto Alegre.

 

Período áureo do Centro

Descendo pela chamada rua da Ladeira, que também será completamente revitalizada pelo Programa Monumenta, com nova iluminação e alargamento das calçadas, assim como o Largo dos Medeiros, mais em baixo, o grupo puxado por Glênio chega à Praça da Alfândega, referencial central na história da cidade. O Guaíba vinha até a atual rua 7 de Setembro e da praça tinha um trapiche que ia até o porto. A antiga Praça da Quitanda, ponto central de abastecimento passou a fazer limite geográfico com os imponentes prédios do atual Museu de Artes do Rio Grande do Sul, MARGS e o do Memorial, onde funcionava o Correio. Juntos eles formavam também uma espécie de Pórtico, com dois torreões, que serviam de entrada para que vinha do porto pela avenida Sepúlveda.

A região era extremamente movimentada, como zona de desembarque, e com muitos e grandes hotéis, como o Majestic, o Grande Hotel, entre outros. Compunham a região, dando ares de metrópoles, os cinemas Guarani e Imperial (considerado o primeiro arranha-céu da cidade, com 11 andares), moderníssimos para a época, o Clube do Comércio e, claro, a Rua da Praia. Hoje a Praça da Alfândega está passando por uma restauração (Programa Monumenta) e o Imperial será transformado no Centro Cultural da Caixa Econômica Federal. Além disso, o projeto do Cais do Porto prevê um complexo turístico-gastronômico-cultural e o Bonde Histórico terá a área incluída no seu roteiro.

“Será uma mudança nunca vista na área central”, diz Glenio, ao se referir a todas as novidades previstas para a região, que inclui reformas profundas na Praça XV e no próprio Largo Glenio Peres, com iluminação, bancos, pavimentação, estatuárias novas, chafariz, ampliação do Chalé, entorno do Mercado com colocação de decks nos bares do Largo Glenio Peres, reurbanização das ruas Marechal Floriano e José Montaury e reforma do Abrigo dos Bondes. Será o Centro voltando aos seus gloriosos tempos?

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