Um passeio pelo antigo bairro fabril de Porto Alegre

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Vila Operária, as chamadas “casas de porta e janela”, da Avenida Polônia                                                                           Foto: Maria Cristina de Carvalho

Numa cálida manhã de sábado, um grupo de quase 200 pessoas tomou um ônibus da Carris e saiu para mais um passeio do programa Viva o Centro. Destino: o chamada 4º Distrito, na região dos bairros São João, Navegantes e Floresta. Ministrado pela arquiteta Leila Mattar, o passeio tinha um objetivo: resgatar a história das primeiras fábricas da cidade e seus trabalhadores.

 

“Antigamente a cidade dividia- se em distritos. O Centro, por exemplo, era o 1º Distrito e até hoje essa região que vamos visitar ainda é conhecida por 4º Distrito”, explicou a professora e arquiteta Leila Nesralla Mattar*, que orientou o passeio do Programa Viva o Centro a Pé, que sai aos sábado dos Caminhos dos Antiquários para desvendar um pouco da história e memória da cidade. A primeira parada, de ônibus, um articulado da Carris
levando quase 200 pessoas, foi no início da Voluntários da Pátria, em direção ao bairro Navegantes. Ali pode-se ver um pouco do que restou da exuberância dos armazéns que serviam como centros de abastecimento
de víveres da cidade. Os casarios ficavam junto ao Guaíba e a localização era estratégica Numa cálida manhã de sábado, um grupo de quase 200 pessoas tomou um ônibus da Carris e saiu para mais um passeio do programa Viva o Centro. Destino: o chamada 4º Distrito, na região dos
bairros São João, Navegantes e Floresta. Ministrado pela arquiteta Leila Mattar, o passeio tinha um objetivo: resgatar a história das primeiras fábricas da cidade e seus trabalhadores. pela aproximação dos barcos e
pela linha férrea que trazia carregamentos do interior do estado. Nos Navegantes ficavam as principais fábricas da cidade e era hábito na época os seus donos morarem nas proximidades, razão pela quais ainda existem
grandes e belos casarões junto aos armazéns projetado pelo arquiteto alemão Theodor Wiederspahn, um nome de referência na arquitetura histórica de Porto Alegre. São deles os projetos da Cervejaria Brahma, o
prédio da loja Tumelero junto ao viaduto da Conceição, Margs e Santander (Centro), entre muitos outros.

 

Uma rua chamada Paraíba e seus sobrados
A região também era conhecida, sugestivamente, como Caminho Novo, ou Caminho das Chácaras. A sua pujança começou com a chegada dos imigrantes alemães. Apesar de, hoje, parecer muito próxima ao centro, a área fabril ficava bem distante na época. Prosseguindo o passeio, a arquiteta Leila fez a próxima parada na rua Paraíba. Com aspecto de abandono, a pequena rua exibe um conjunto de “casas-fita”, com um mesmo padrão, com um arco de tipuanas altíssimas, árvores trazidas da Argentina. Próxima à Vila dos Papeleiros, hoje reurbanizada e com habitações populares, a Paraíba cria uma perfeita ambiência segundo Leila, formada pelas árvores e os sobrados, típicos dos anos 30 –frutos dos pecúlios da Rede Ferroviária Federal que contemplou seus trabalhadores. Para além do bairro Navegantes, se inicia a confluência com o bairro Floresta, que também concentrou muitas fábricas e conjuntos de moradias de trabalhadores, o que era uma característica da época.

 

Moinho Riogrande, a grandeza de uma época                 Foto: Guerreiro/PMPA

Moinho Riogrande, a pujança de uma época
Dadas as explanações sobre a rua Paraíba e seu retrospecto histórico, a próxima parada extasiou o grupo com olhares curiosos e, principalmente, muitas fotos: a famoso Moinho Riograndense, construído em 1914 e inaugurado em 1915 por seus proprietários, da cidade de Rio Grande. Imponente em seus cinco pavimentos, o Moinho reinou absoluto durante quase um século. Funcionou até o ano passado, produzindo farinha. Extremamente robusto, de paredes grossas e reforçadas, com a parte de cima reservada para os equipamentos e máquinas, que faziam o transporte por via áera da avenida Voluntários para os silos que ficam às margens do Guaíba. Justamente esse lado do Moinho, situado ao lado da avenida é que hoje está à venda. O prédio, projetado pelo arquiteto Antonio Farias Santos, contudo não é tombado, embora seja de interesse cultural.

 

Uma das mais antigas fábricas da cidade, hoje só na memória
A antiga fábrica da Fiateci, Fiação de Tecidos, que também reinou na produção de cobertores, principalmente, foi a próxima parada. Abrigando a realização da Casa Cor não pode ser visitada, mas nos seus jardins a
arquiteta deu uma ideia da importância de uma das mais antigas fábricas da cidade.  Fundado em 1893, a Fiateci era praticamente a única que tinha jardim para os seus funcionários. Hoje no local está sendo construindo um complexo de torres habitacionais e comerciais, mas preservando as antigas dependências da fábrica. Um pavilhão será reservado para um centro de Pesquisas e Acervo e outro será transformado em um shopping
center. Como outras fábricas na época, a Fiateci também tinha por norma construir conjuntos habitacionais para seus trabalhadores, no caso na avenida Polônia, nas suas proximidades.  Ali encerrou-se o passeio, na chamada Vila Operária, igualmente erigida com casas-fitas, também chamadas de “casa de porta e janela”.

Arquiteta Leila e sua aula no pátio da Fiateci         Foto: Maria Cristina de Carvalho

 

 

 

 

 

 

 

* Quem é Leila Nesralla Mattar
– Arquiteta (UFRGS), Especialista em Projeto de Arquitetura Habitacional (PROPAR/UFRGS), Mestre em História do Brasil (PUCRS), Doutoranda no Curso de Pós-Graduação em História da PUCRS, Docente na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da PUCRS e da Faculdade de Engenharia da PUCRS, profissional atuante no mercado de arquitetura.

 

 

 

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