Um Mercado para a capital

Para organizar o comércio de Porto Alegre, surgiu a necessidade de criar um grande espaço de abastecimento no centro da cidade.

 

O Brasil era um Império e, desde a proclamação da independência de 1822, havia o desejo dos governantes de modernizar a arquitetura do país. Isso chegou a Porto Alegre na metade do século XIX. Na região onde hoje está o nosso querido Mercadão se espalhava um enorme comércio a céu aberto: vendedores de peixes e outros animais, vendedoras com tabuleiros de refeições, quitandeiros de frutas e verduras que chegavam por barcos e carretas.

Pensando em acabar com o comércio ambulante, o governador da província, Saturnino de Sousa e Oliveira, pediu à Câmara dos Vereadores de Porto Alegre a construção de um mercado. O primeiro mercado foi erguido na Praça do Paraíso (atual Praça 15 de Novembro) em 1844, financiado por ricos comerciantes. Mas logo novos ambulantes voltaram a se espalhar no seu entorno.

 

Novo e melhorado mercado

Em 1855, passada a Revolução Farroupilha, a Câmara resolveu contratar o renomado arquiteto alemão Friedrich Heydtmann para construir um novo mercado, que ajudaria a promover o desenvolvimento da capital. O local escolhido exigia um novo aterro do Guaíba, e mas a Assembleia Provincial foi contrária ao aterro — e isso atrasou por anos o início das obras.

As discussões só terminaram em 1862, com a aprovação do projeto depois de ajustes. O empreiteiro Polidro Antonio da Costa venceu a licitação e assinou o contrato para construção do Mercado em 1864. Nesse ano, foi lançada a pedra fundamental do prédio, enterrada a 1,8 m, na esquina das Av. Borges de Medeiros e Júlio de Castilhos.

Fototeca Sioma Breitman/Museu Joaquim José Felizardo/PMPA

Dentro dela está uma cápsula do tempo, um tubo de chumbo que contém sete moedas da época e quatro jornais do dia 29 de setembro de 1864: Mercantil, Correio do Sul, Jornal do Comércio e Deutsche Zeitung.

A construção seguiu com alguns percalços. Em 1867, ano marcado para entrega, ainda longe da conclusão, foram concedidos mais dois anos e meio para as obras. Registros indicam que os trabalhadores envolvidos com a sua construção eram um misto de mão de obra livre, de pedreiros e carpinteiros, e mão de obra escravizada — pois o país ainda estaria por mais 20 anos em regime escravocrata.

Em 3 de outubro de 1869, com o prédio ainda não finalizado, mas já abrigando comerciantes, a Câmara tomou posse do Mercado e o inaugurou com uma grande festa. A abertura oficial foi em 1º de janeiro de 1870 com nova festa popular, mas as obras finais só foram concluídas em 1871. Neste ano, o velho mercado da Praça do Paraíso foi demolido.

 

Arquitetura

A arquitetura inicial do Mercado segue um estilo neoclássico, também seguindo a ideia de prédios grandes que ocupavam quarteirões. Próximo ao rio, o prédio era cercado por docas, por onde chegavam os mais diversos alimentos — vindos também por carroças que estacionavam no atual Largo Glênio Peres.

O prédio anelar tinha um amplo pátio interno, por onde se espalhavam tabuleiros para venda de diversos produtos. Inicialmente com um só pavimento, o quadrilátero do Mercado tinha torreões em cada esquina, e apenas eles tinham um segundo andar. As muitas portas desenhavam uma sequência de arcos na fachada, com saída para a rua, e já com os seus quatro portões centrais de cada lado do prédio.

Sob responsabilidade do poder público municipal, o Mercado Público Central se tornou o maior e principal centro de abastecimento da cidade.

 

Bará do Mercado

Aberto a todas as crenças, o Mercado tem um significado especial para as religiões de matriz africana, que se apropriam vivamente do espaço nas suas celebrações. Isso se deve principalmente ao assentamento do Bará, o orixá dos caminhos e encruzilhadas, cujo ocutá (pedra simbólica) teria sido assentado bem no centro do Mercado por escravos que trabalharam na construção do prédio. Outra vertente defende que o Príncipe Custódio, na nação Jeje, teria assentado o Bará em 1901, quando passou por Porto Alegre. Independentemente da versão, o Mercado é valorizado pelos seguidores das religiões afro-brasileiras, que obedecem a ritos de entrada e saída do prédio — as quatro floras que estão localizadas próximas aos quatro portões dizem respeito a isso. O centro do prédio recebeu, em 2013, o Mosaico do Bará, integrante do Museu do Percurso do Negro em Porto Alegre, em reconhecimento a essa história.

COMENTÁRIOS