Um marco que resiste

Um marco que resiste

 

Em seus 143 anos e dez meses de existência, este é o quarto grande incêndio enfrentado pelo Mercado Público, que também já passou pela enchente de 41 e por uma ameaça de demolição. Com a luta dos mercadeiros, o investimento do governo e o carinho da população, o Mercado sempre encontrou apoio para se recuperar.

 

 

Parte da identidade de Porto Alegre, o Mercado Público transformou-se em muito mais que um centro de abastecimento. Reunindo memória, lazer e cultura, ele é um espaço de relações e de diversidade – diversidade de pessoas, cores, aromas e produtos. Peixarias, açougues, lancherias, restaurantes, floras, bancas de frutas, de itens gauchescos, de bebidas, de especiarias, de doces… São 110 bancas, algumas centenárias, muitas que passaram de geração a geração. Mais de 1,2 mil pessoas trabalham no Mercado, e cerca de 150 mil passam por ele diariamente. Inaugurado em 5 de outubro de 1869, o Mercado já passou por alguns momentos difíceis, e de todos conseguiu se reerguer.

 

1912 – o primeiro grande incêndio

Em 1912, o Mercado passava por uma grande reforma. O segundo pavimento, conhecido como “altos do Mercado”, estava sendo construído, trazendo com ele as características estéticas que definiriam muito da fachada do prédio. Foi durante a reforma, em julho de 1912, que o primeiro grande incêndio atingiu o Mercado. Diz-se que o movimento atrapalhado de um gato foi o causador das chamas – ele teria derrubado uma garrafa de querosene num braseiro. O incêndio se estendeu até as 4h da manhã, e consumiu os 24 chalés do pátio interno. Na reconstrução, bancas de ferro e cimento substituíram os antigos chalés de madeira. O segundo piso foi inaugurado ainda em 1912, destinado a escritórios e repartições públicas.

 

1941 – enchente em Porto Alegre

Entre abril de maio de 1941, a água também abalou o Mercado Público. A enchente de 41 fez o Guaíba transbordar, e o Mercado foi um dos primeiros atingidos.  As águas chegaram a quase um metro e meio de altura, marca que está gravada em suas paredes até hoje. Em fins de maio, o Mercado pôde reabrir suas portas.

 

Anos 70 – três incêndios em uma década

Na década de 70, o fogo atingiu o já centenário prédio por três vezes. Em dezembro de 1972, um incêndio provocado por curto-circuito destruiu várias bancas – foi o segundo grande incêndio. Outro de pequeno porte o atingiu em 1976. Mal havia se recuperado, e o fogo chegou ao Mercado mais uma vez: em julho de 1979, o grande incêndio consumiu um quadrante inteiro do prédio, entre a Av. Júlio de Castilhos e a Praça Parobé. Entre 10 e 17 bancas foram destruídas, e 30 sofreram algum prejuízo. Mesmo diante da tragédia, foi neste ano que o Mercado recebeu a boa notícia de seu tombamento como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade.

 

Ameaça de demolição

A partir de 1945, começaram a surgir as intenções de derrubar o prédio para abrir espaço a uma avenida. Nos anos 60 e 70, especialmente na gestão do prefeito Thompson Flores, a construção da Av. Perimetral, unindo a Siqueira Campos a Júlio de Castilhos, colocou o prédio sob forte ameaça. Em 1967, surgiu a Ascomepc, associação de permissionários para defender o Mercado junto ao governo. A ameaça de demolição chegou ao auge em 1979, ano do terceiro grande incêndio, mas o movimento de jornalistas, mercadeiros e da população em geral em defesa do prédio foi enorme – e deu resultado. Em 12 de dezembro de 1979, o Mercado foi tombado como Patrimônio Histórico e Cultural de Porto Alegre.

 

A força do Mercado

A estrutura do Mercado resistiu de pé a todas as ameaças. Construídas com tijolo maciço, as paredes longitudinais internas e externas que formam a parte principal da estrutura do Mercado estão estáveis e não foram afetadas pelo incêndio do último dia 6 de julho, conforme confirmou o laudo estrutural da Smov. Nos anos 90, o Mercado passou por uma grande reforma, que integrou o primeiro e o segundo pavimento, além de renovar a estrutura e as condições de funcionamento do prédio. Unindo o antigo ao novo, algumas melhorias feitas durante a reforma também ajudaram o Mercado a resistir ao incêndio. A cobertura em estrutura metálica do telhado, que não desabou, é deste período, assim como as pilastras metálicas que sustentam o telhado.

Ao longo do tempo, o Mercado provou que é mais que um prédio. Suas paredes centenárias são feitas de histórias, e são muitas vidas que o fazem viver – vidas de mercadeiros e de freqüentadores, de passantes e de turistas. É nessas vidas que o Mercado encontra forças para buscar apoio e se erguer mais uma vez.

 

 

“O Mercado Público é protegido pelos fantasmas do tempo”, Mário Quintana

 

Foto: Arquivo Correio do Povo

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