Um baita linguajar

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Gaúcho tem um modo de falar todo especial. Bebendo de influências diversas, que vão desde nossos vizinhos platinos até os imigrantes alemães e italianos, formou-se algo de “gauchês” que se infiltra na fala de todo o estado. Luís Augusto Fischer, professor de Literatura Brasileira na UFRGS, é um estudioso do linguajar local, e, em livros como “Dicionário de porto-alegrês” (L&PM, 1999) e “Bá, tchê!” (Belas Letras, 2012), procura desvendar as marcas de vocabulário deste extremo sul do Brasil.

 

“Do meu ponto de vista específico, acho que esse linguajar tem grande força expressiva, pelas comparações, mas também pela visão de mundo que ele expressa e que aparece na literatura gauchesca, que é o meu ponto de partida”, começa contando o professor. Desde a pesquisa para o “Dicionário de porto-alegrês”, Fischer tornou-se um curioso pelo significado de palavras cotidianas. A fala média dos rio-grandenses, em contraste com as outras falas regionais brasileiras, se diferencia por sua musicalidade, por ditos e expressões típicos e por um vocabulário específico, como destaca o professor. Por exemplo, o uso cotidiano de termos campeiros, castelhanos e de origem militar, que é herança direta da história da nossa região: “A permanência do uso desses termos tem a ver, por um lado, com a simples inércia, como ocorre com qualquer língua, mas também se deve, em particular, ao fenômeno social e cultural do gauchismo, do chamado Tradicionalismo, dos CTGs, etc., uma coisa realmente singular no quadro das Américas, não só do Brasil. A figura do gaúcho simples, que era um zé-ninguém, virou o símbolo geral de toda a população, e isso é uma coisa a ser pensada. Os CTGs, a meu juízo, têm um aspecto de conservadorismo forte que tem um lado bom, justamente o lado de resistir à modernização a qualquer custo, à ‘macdonaldização’ do mundo, resistência que me interessa muito, e tem um lado ruim, quando tenta se impor como visão de mundo geral, imposta nas escolas e tal, como alguns dos ideólogos do tradicionalismo pensam em fazer e de vez em quando fazem mesmo”, afirma Fischer. O tradicionalismo exerce por aqui uma grande força coletiva de produção de identidade cultural, como diz Fischer, o que se reflete na linguagem.

 

Mas bá

O jeito gaúcho de falar mais ligado ao mundo campeiro, presente na chamada Metade Sul do estado (e diferente das regiões coloniais alemã e italiana e à fala média rio-grandense), tem basicamente duas raízes: “para além de ser uma variante do português em geral, esse jeito gaúcho se liga a algo do castelhano, pela fronteira porosa entre o Rio Grande e o Uruguai e a Argentina, que nos faz compartilhar muita coisa, tanto de vocabulário quanto de entonação; além disso, esse jeito depende diretamente do mundo a cavalo, do mundo do trato com o gado, e tudo que isso implica, desde nomes de pelos de animais até questões ligadas à visão de mundo das pessoas que viveram e vivem esse mundo”, explica Fischer. Em uma realidade cada vez mais conectada, essas características do falar ainda conseguem se manter. “Há forças históricas que determinam homogeinização, como a televisão, e outras forças que tendem à diversidade, como a vida cotidiana. Essa luta não termina nunca e não se resolve aos gritos. A escola precisa estar atenta a isso”, pontua o professor. “A língua expressa a visão que os indivíduos e os grupos têm, e por isso ela se molda às exigências e conveniências de cada experiência histórica e social em particular. A beleza disso é justamente a variedade resultante, que faz uma língua como a nossa, a portuguesa, ter essa linda diversidade, que é preciso conhecer sempre mais”, conclui Fischer.

 

– Alguns verbetes do livro “Bá, tchê!”

ATUCANAÇÃO: Preocupação, aborrecimento. A gente se atucana à toa, sabe como é.

CAGAÇO: Medo, susto; origem mais que óbvia. De larguíssimo uso.

CRIA: Criança. Toda analogia com filhote de animais, em geral. Costuma-se dizer, sem intenção pejorativa, que se precisa levar as crias ao médico, por exemplo, em referência aos próprios filhos.

INVOCADO: Sinônimo corrente para brabo (não confundir com bravo, que no Brasil é sinônimo para brabo, mas aqui é elogio ao guerreiro). Correlatamente, usa-se o verbo “invocar-se”, sempre com próclise, “se invocar”, com regência indireta: fulano se invocou com beltrano, eu me invoquei com aquela pinta.

LE: Pronome pessoal de uso meramente enfático, usado em lugar de lhe, por clara influência do espanhol. Curioso que independe da pessoa do discurso e mesmo do nome (substantivo) a que se refira: “Tomou-le um laço que deu pena” ou “Tomei-le uma chuva medonha”.

MATAR A PAU: Acabar com a situação, arrasar, abafar, se dar bem, cumprir totalmente a expectativa. Cara que jogou bem uma partida “matou a pau”. Origem truculenta, como boa parte das metáforas gauchescas. Hoje em dia se usa dizer simplesmente “matar”, no mesmo sentido. O mesmo que “fechar todas”.

POR DEMAIS: Qualificativo para coisas positivamente boas ou muito ruins: “O churrasco tava bom uma coisa por demais”; “Chovia uma coisa por demais”. Parece que sempre tem aquela “coisa” no meio.

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