Tuim, o pequeno-grande bar

Centro Histórico, por Emílio Chagas

 

Com certeza, um dos bares mais queridos de Porto Alegre, que cativa pelo acolhimento, clima, qualidade e toda a mística que ele encerra em seu pequeno espaço (ampliado há sete anos) – ou seja, tudo o que se procura num bar. Mantendo a boa tradição de pai para filho, o português Manuel Gomes Ervalho delegou ao filho André Azevedo Ervalho, em 1994, o comando do lugar.

De pai para filho: Manuel Gomes Ervalho e André Azevedo Ervalho Foto: Emílio Chagas

Para começar, a origem do nome é cercada de lendas: “Contam duas histórias sobre o motivo do nome: uma era porque o bar era pequeno, e Tuim é um pássaro pequeno, o menor periquito da América Latina. Mas a história que os clientes mais gostam é que o Tuim não tomava água, tirava o líquido das frutas e flores. Aqui tinha uma faixa dizendo ‘não vendemos bebidas sem álcool, não  insista.’ Aí, diziam que os clientes eram os tuins – bebiam direto da seiva, não tomavam água”, diz André. Até hoje o folclore é alimentado: para beber água ou refrigerante, só com atestado médico dizendo que o cliente não pode tomar álcool… Verdadeira instituição etílica da cidade, o Tuim foi fundado em 1941, mas segundo André, existem relatos da sua existência anteriores à esta data. Ele começou na rua Uruguai, num prédio que hoje não existe mais. Depois, foi para a rua Riachuelo e “pousou”, finalmente, na rua General Câmara, mais conhecida popularmente com a rua da Ladeira, em 1958. André informa que o bar foi fundado por um polonês. “Uns dizem que é ucraniano, chamado Zenon. Depois o filho de criação do meu avô, José Pedreira, ficou uns 30 anos e depois o pai, que está aqui desde 1989 até hoje.

 

Desde os tempos da boêmia do centro da cidade

Manuel ajuda na memória: “O primo da minha mulher e filho de criação do meu sogro era dono aqui. Aí, ele faleceu num acidente e a viúva ligou para mim para ver se eu queria comprar. Eu tinha acabado de vender o meu bar na Ramiro Barcelos. E comprei.” Manuel veio de Portugal em dezembro de 1957. Como muitos portugueses nessa época, seu destino foi o Mercado Público, onde começou a trabalhar em 1958. Lá teve uma passagem meteórica: trabalhou nos bares Santa Cruz e Castelo. Depois abriu seus próprios negócios – um bar na avenida Voluntários da Pátria e rua Ramiro Bercelos, com uma também rápida passagem pela lancheria Trianon. “A cidade na época era bem calma. A gente pegava o bonde ali no Mercado Público. Eu morava na rua Hoffman, às vezes até ia a pé para casa.” Tempos boêmios, sem dúvida. Lembra das boates do centro da cidade, todas próximas do Mercado: Balalaika, Cabaré do Turquinho, Castelo Rosado, Mãezinha, Maipu, Oásis e outras. E também dos redutos boêmios do Mercado Público, como Graxaim, Naval e Treviso. Com as mudanças dos tempos, assumiu o herdeiro André, que já está no comando há 22 anos.

Primórdios do Tuim na Rua Uruguai, década de 1940 FOTO: Aquivo Pessoal

 

Clientes com mais de 40 anos de casa

Enfrentando a fatídica burocracia oficial, o bar lutou durante 10 anos para conseguir colocar o seu convidativo deque na rua – há cinco anos. Isso que já havia uma autorização da prefeitura, de 1987, permitindo que fossem colocadas mesas e cadeiras na rua. Democrático, o bar abriga gente de todas as classes, como diz André – mas predominam advogados, jornalistas, políticos (muitos), médicos, engenheiros e profissionais liberais em geral. “É o verdadeiro botequim, bar de conversas e amizades, de debates sobre política e futebol. Alguns clientes, como Antonio Carlos Estrela, são frequentadores há mais de 40 anos”, diz. A fama do bar também vem do chope, considerado o melhor da cidade, o que lhe rendeu algumas premiações: arrebatou, por dois anos consecutivos, 2009 e 2010, a mais alta distinção da Região Sul, concedida pela Ambev, pela qualidade do chope. “Ganhamos também, neste ano, a premiação Melhor Comida de Boteco”, acrescenta André. Bolinho de bacalhau e almôndegas aceboladas são os deliciosos carros-chefes da casa. E, para breve, a volta do tradicional sanduíche de anchovas. E a água que o passarinho não bebe? Além do chope, uma boa linha de destilados e as “misturadas”: melzinho, maracujá e barrolda. O almoço, que começou apenas para os donos e funcionários, foi “incorporado” pelos clientes. Hoje são de 60 a 70 pratos por dia. Aproveite e não chegue muito tarde: às nove da noite o pássaro se recolhe ao ninho!

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