Troncos missioneiros

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Cenair Maicá, Jayme Caetano Braun, Noel Guarany e Pedro Ortaça. Nascidos na região missioneira do RS, os quatro pegaram o violão nos anos 1960 para cantar sua terra, sua gente, as injustiças sociais que presenciavam e um passado guaranítico que os orgulhava. Essas eram suas marcas, em especial, cantar denunciando. Com seu canto, construíram uma identidade missioneira através da música e entraram para a história como os troncos missioneiros.

SÃO MIGUEL DAS MISSÕES, RS, BRASIL, 19.10.12: Interiorização em São Miguel das MIssões. Foto: Camila Domingues/Palácio Piratini

Foto: Camila Domingues/Palácio Piratini

Tudo começou nos anos 1960 – Pedro Ortaça marca como 1966 o ano em que se reuniu com Maicá e Guarany para criar um novo modo de tocar. Pouco depois, integrou-se ao grupo Jayme Caetano Braun, que logo deu a eles o nome de quatro troncos da cultura missioneira. Todos eram filhos da região das Missões: Jayme e Noel eram de Bossoroca, na época distrito de São Luiz Gonzaga, Pedro é são-luisense e Cenair era da vizinha Tucunduva. Juntos, eles buscaram e criaram a voz das Missões. O estilo de cada um podia até diferir um pouco – como Noel, que usava apenas voz e violão, e Braun, que fazia só payadas –, mas todos compartilhavam o cerne do que seria uma nova identidade na cultura musical gaúcha: a denúncia e o protesto contra injustiças sociais e a recriação de um passado histórico missioneiro, conectado à contemporaneidade dos artistas. Suas músicas tinham o compromisso de trazer temas sociais – eles cantavam opinando. Também traziam os hábitos da gente da região rural e a história das Missões Jesuítico-guaranis – como destaca a doutora em História Roselene Pommer, faziam uma interpretação regionalista do passado. Eles uniram cotidiano e história. Nos anos 1970, a ideia de uma identidade missioneira já tinha se espalhado pelo RS, graças à defesa de suas quatro vozes. Em 1988, eles gravaram juntos o disco “Troncos missioneiros”.

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QUATRO VOZES

Só foi possível o surgimento dos troncos missioneiros porque todos compartilhavam ideias comuns sobre a cultura da região. Por exemplo, todos eles valorizavam a produção regional, contra a influência da cultura estrangeira, especialmente na música – movimento que, em geral, caracterizou o regionalismo gaúcho da década de 1980 e foi forte no missioneirismo. Todos também eram autodidatas. Noel aprendeu sozinho inclusive a língua guarani. Ainda jovem, ele viajou pela América Latina – Argentina, Bolívia, Paraguai, Uruguai – para pesquisar sobre a música e conviver com sua gente. Isso despertou a necessidade de criar um canto para sua região – muitos o consideram o principal nome entre os troncos. Ele trouxe para cá os ritmos que ouviu, cantando o passado rural e guaranítico, os hábitos da terra e de sua gente, assim como os demais missioneiros. Adotou Guarany como sobrenome para valorizar sua ligação com a terra – “cantar minha terra” era seu lema. Lutou contra os latifúndios e tinha convicções democráticas, e por isso foi perseguido pela ditadura militar. Tornou-se defensor da integração latino-americana através da música, assim como seus colegas – Jayme inclusive dizia que era um pampa só. A ideia de três pátrias gaúchas predomina no missioneirismo, já que a história das Missões e dos guaranis atravessava as fronteiras.

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CANTAR A TERRA

Foi Jayme quem trouxe para o estado o gênero da payada, declamação poética improvisada muito popular em países platinos, com a linguagem cotidiana do gaúcho. Ele ressaltava a vida campeira, além dos temas comuns. Era curandeiro, radialista e envolveu-se na política, como nas campanhas de Leonel Brizola e João Goulart. A questão da terra está em toda a sua obra, assim como na de Maicá, que cantava muito a natureza. Maicá lançou-se ao reconhecimento ao lado de Guarany, ao vencer o 7º Festival do Folclore Correntino em 1970, na Argentina, com a música de Guarany, “Fandango na fronteira”. Já Ortaça é grande defensor do canto pelos oprimidos e esquecidos guaranis, além da valorização dos costumes e da história missioneira. Pedro Ortaça é o único remanescente ainda vivo dos troncos missioneiros – Cenair faleceu em 1989, Noel em 1998 e Jayme em 1999. Ortaça ainda canta e identidade missioneira ao lado dos filhos, e recebeu o título de Mestre da Cultura Popular do Ministério da Cultura em 2008.

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IMPRESSO NO TEMPO

Na época do surgimento da ideia missioneira, a música regional espalhava-se pelos rádios e CTG’s, mas o modelo principal era o gaúcho da fronteira sudoeste. Também nos anos 60 se intensificou a modernização do campo e o êxodo rural, como destaca o pesquisador Iuri Barbosa – a paisagem rural passou a trazer nostalgia. Então a ideia de negociar com o passado uma referência para o presente começou a circular entre cantores e poetas da região, como destaca Roselene Pommer. Esses fatores podem ter impulsionado ainda mais a criação da identidade missioneira através da música. Maicá, Braun, Guarany e Ortaça influenciaram diversos cantores e estão na base do nativismo, movimento artístico urbano da música regional que também traz temas sociais.  Ícones do nativismo compartilham do cantar missioneiro, como Telmo de Lima Freitas e Luiz Carlos Borges, nascidos na região das Missões, além de João de Almeida Neto, Leonardo, Leopoldo Rassier e Luiz Marenco.

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Para ouvir: “Caminhos”, “Homem rural”, “Rio de minha infância” (Cenair Maicá). “Bochinco”, “Galo de rinha”, “Galpão de estância” (Jayme Caetano Braun). “Destino de peão”, “Potro sem dono”, “Romance do pala velho” (Noel Guarany). “De guerreiro a payador”, “Herança missioneira”, “Timbre de galo” (Pedro Ortaça).

Saiba mais: “Missioneirismo: a produção de uma identidade regional”, de Roselene Moreira Gomes Pommer. “O consumo de música regional como mediador da identidade”, de Valton Neto Chaves Dias. “Os troncos missioneiros e a construção da identidade missioneira a partir da música”, de Iuri Daniel Barbosa.

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