Três Quilos

Três Quilos

 

Sérgio Costa Franco*

     Mesmo com idade avançada, estou longe de ser saudosista. Apesar de todos os pesares, acho os tempos atuais bem melhores que os do passado, os padrões de vida melhoraram, a educação popular se afinou, (embora esteja longe do ideal), e até o comportamento coletivo ganhou em racionalidade.

     Um exemplo disso são as relações entre comprador e balconista, o respeito ao direito dos idosos e dos deficientes físicos, e até as benditas filas, que puseram um pouco de ordem no atendimento aos consumidores e aos fregueses das diversões e das repartições públicas. Vivi, aqui mesmo em Porto Alegre, o tempo em que se brigava junto à bilheteria dos cinemas pela compra do ingresso, e um amigo meu foi até despojado de sua jaqueta, em acotovelamento e confusão para entrar num jogo de futebol.

     Mais além, nas quatro cidades onde tive residência, sucessivamente, em razão de ofício, ainda não havia chegado o hábito das filas, nem o das senhas numéricas para fixar a ordem de chegada. Nos armazéns, nas lojas movimentadas, nas bancas de verduras ou nos açougues, tinha prioridade quem falasse mais alto ou quem gozasse da preferência do balconista.

     Jamais vou esquecer um episódio do açougue do Guto Vargas (nome que inventei agora para não atrair eventualmente a ira do falecido), onde predominava o freguês de melhor pulmão e de maior insistência no pedir. Era um tempo de carnes escassas, o estabelecimento era central e bastante procurado. Sucedeu certa manhã em que eu esperava a graça de levar para casa os bifes do almoço. A freguesia se acotovelava junto ao balcão, o açougueiro era o único a cortar, a pesar e a embrulhar os pesos de carne. E uma freguesa impaciente, acampada em frente à balança, repetiu mais de uma vez o seu pedido, que era de 1 quilo de paleta, se não me falha a memória.

     O Guto Vargas, com vinte anos de pesado serviço nos cepos, na faca, na chaira, no balcão e nas balanças, não era exatamente um “gentleman” com a freguesia, e muito menos com os apressados e impacientes. A certa altura, ele deu um corte alentado na paleta bovina, e, irritado, largou na balança todo o enorme pedaço, regulando uns três quilos.

        -Tá bom assim, vizinha ?

         Assustada com a rispidez do atendimento, a mulher contestou:

     – Mas, seu Guto, eu só quero 1 quilo.

     – Ué, pediu três vezes!

     Coisas assim já não acontecem nem na barraca dos feirantes, e muito menos em nosso cordialíssimo Mercado.

Historiador*

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