Três praças que se confundem com a história de Porto Alegre

 

CENTRO HISTÓRICO

Três praças que se confundem com a história de Porto Alegre

Porto Alegre é uma cidade de muitas praças, mas três delas são consideradas históricas e até hoje muito importantes na vida dos porto-alegrenses. São as praças que o arquiteto Luiz Merino Xavier, da Equipe do Patrimônio Histórico Cultural, da Secretaria Municipal de Cultura, considera como “fundacionais”. São elas: Praça da Matriz, Praça da Alfândega e Praça Montevidéu. Todas estão relacionadas com as origens da cidade e revestidas de significados que registram o desenvolvimento de Porto Alegre. Recentemente foram tema de um passeio do programa Viva o Centro a Pé.

 

 

 

 

       Praça da Matriz, o centro do poder

       O passeio começou pela tradicional praça da cidade, criada no século XVIII. Os portugueses, explica Merino, tinham uma concepção muito característica sobre as praças. Primeiro construíam uma na parte alta da cidade, onde se situava a aristocracia e as instituições do poder, como é o caso da Praça da Matriz.  Nela estavam os grandes casarões, a igreja matriz e o palácio do governo. “Não era originalmente um jardim, isso vem a ocorrer bem mais tarde, com as influências inglesa e francesa. Era um largo descampado onde eram feitas festas religiosas, quermesses, paradas militares, festas”, explica o arquiteto. O ajardinamento é posterior, quando o Império decide embelezar as cidades brasileiras. E também com as novas e modernizantes tendências das primeiras décadas do século XX, com a verticalização da cidade, abertura de grandes avenidas. É a fase, diz Merino, de apagar o passado português, tido então como ultrapassado e decadente. Neste cenário desaparecem a antiga igreja, em estilo barroco, considerada uma grande perda, e o Palácio de Barro. Em seus lugares vão surgir obras de grande imponência, como a Catedral Metropolitana, projetada em Roma pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Giovenale, e o Palácio Piratini, este totalmente feito com materiais importados da França e projetado pelo arquiteto francês Maurice Gras. A Casa da Câmara, o Auditório Araujo Vianna, (com uma concha acústica), o Theatro São Pedro e o extinto prédio do Tribunal de Justiça emolduravam, então, a Praça da Matriz e todo o seu aristocrático entorno. O teatro e o tribunal, que eram prédios idênticos, formavam uma espécie de pórtico, pelo qual se via toda a parte baixa da cidade e o Guaíba, imagem perdida com a verticalização da cidade. Outra grande atração da Praça é o monumento em homenagem ao governador positivista Júlio de Castilhos, falecido em 1903. “Revela o culto à personalidade, com estatuária imponente, bem típico daquela época, um conjunto escultórico, criado por um dos escultores mais importantes da época, Décio Villares”, informa Merino. O monumento, que representa as fases da vida do político, com diversas alegorias deverá ser restaurado em breve, inclusive a esplanada na qual está assentado. A sua instalação reflete bem as mudanças que a Praça passou, deixando de ser apenas um largo, ganhando jardins, vegetação e conjuntos escultóricos.

 

 

 

 

       Praça da Alfândega, o centro comercial

       Dentro da lógica portuguesa de construção de cidades, a parte baixa delas se destinava ao comércio. Em Porto Alegre não foi diferente. A ligação entre as duas partes se dava naqueles tempos através da hoje popular rua da Ladeira, ou General Câmara. Dos altos da Duque de Caxias se descia para aquela que é considerada a rua mais antiga da cidade, a também popular rua da Praia, ou dos Andradas, onde se concentrava o comércio. Margeando com parte dela, a Praça da Quitanda, hoje praça da Alfândega, que era uma grande quitanda, onde ficavam os feirantes, negros e negras vendendo quitutes. E, principalmente, onde os barcos chegavam, uma vez que a “praia” vinha até a sua metade.  A área, informa Merino, aos poucos foi sendo aterrada. “Tinham trapiches e chegavam barcos com animais vindos da campanha. Era um bom ponto de atracação, bem protegido, e com uma ótima situação locacional para construir um porto e a rua comercial ao lado”, diz Merino. Mais tarde é feito um aterro, onde é construída a Alfândega, posteriormente demolida. Também havia um chafariz, usado para abastecimento de água. Porém todo esse quadro muda a partir de1869, com a construção do Mercado Público, que passa a assumir as funções de abastecimento. Na atual rua 7 de Setembro, duas grandes escadarias. No final do século XIX é demolida a antiga Alfândega, que dá lugar à nova, nas proximidades daquela que viria ser a grande obra que é Porto Cais Mauá. Ainda sobre a forte influência francesa, são trazidos os armazéns A e B, além do pórtico central, de cristal. “Ali era o desembarque, a sala de estar de quem chegava”, explica Merino. Para estender essa chegada, foi construída a Avenida Sepúlveda, restaurada, com pedras de paralelepípedos, luminárias e retirada dos ônibus. Funcionando com uma espécie de boulevard, a avenida fica entre dois importantes patrimônios da arquitetura da cidade que são o prédio do Margs, Museu de Arte do Rio Grande do Sul e o antigo prédio dos Correios, atual sede do Memorial do Rio Grande do Sul, ambos projetados pelo melhor arquiteto da época, o alemão Theodor Whidespahan. A seguir a praça ganhou ajardinamento, passeios e luminárias importadas dos EUA, além da estátua equestre do General Osório, obra do importante escultor Leon Veloso, além outras 13 obras. No atual processo de recuperação, a praça vai ganhar um novo conjunto de sanitários (o antigo será demolido), com espaço para floristas e um café. E os artesões serão realocados.

 

 

 

 

       Praça Montevidéu, o centro do poder local

 

       Até o começo do século XX a sede do poder local era, praticamente, itinerante. Para por fim a essa realidade, resolveu-se construir um prédio permanente, surgindo, assim, o chamado Paço Municipal. O local, diz Merino, não era o mais nobre da cidade, ficando perto do Mercado Público, do Beco do Ópera e da então Praça Paraíso, que era zona dos bordéis do centro da cidade. E, além disso, do Cais. Para a construção do projeto do Paço foi chamado o arquiteto italiano Carrara Colfosco, que fez o prédio elevado, ao estilo veneziano e dentro dos princípios positivistas. Existem registros de que as atuais Praça XV e Praça Montevidéu foram no passado um mesmo espaço. No século XVIII esse conjunto de áreas era conhecido como Praça dos Ferreiros. O Paço ficou pronto em 1911, formando com o Mercado Público e os primeiros edifícios, como o Malakoff um imponente conjunto arquitetônico da jovem cidade. O Intendente José Montaury solicitou à República Oriental do Uruguai autorização para dar ao largo fronteiro ao Palácio Municipal o nome de Praça Montevideo. O ajardinamento da praça, em 1927, foi obra do intendente Otávio Rocha, que mandou criar um canteiro verde em forma de elipse no centro. Em 1935, no centenário da Revolução Farroupilha, o canteiro recebeu a Fonte Talavera, doada pela colônia espanhola, sendo o nome do logradouro mudado para Praça Montevidéu.

 

 

 

 

 

Fotos: Letícia Garcia

 

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