Tragédias no coração da cidade

Quatro grandes incêndios e uma enchente atingiram o Mercado nestes seus 150 anos.

 

O sinistro mais presente na memória da população costuma ser o mais recente, que atingiu o Mercado em 6 de julho de 2013. Antes dele, foram três outros grandes incêndios e um de pequeno porte, além de uma devastadora enchente que atingiu o Centro da cidade. Mas o Mercado é um marco que resiste: vem recuperando-se de tudo ao longo dos tempos graças à união dos mercadeiros, ao investimento dos governos e ao carinho da população.

Foto: Virgilio Calegari/Fototeca Sioma Breitman/Museu Joaquim José Felizardo/PMPA

O primeiro incêndio

Em 5 de julho de 1912, durante a construção do segundo piso, acontece o primeiro grande incêndio no Mercado. Ele começa em uma das barracas internas e destrói todos os 24 chalés de madeira do pátio central.

O vigia daquela noite, João Cândido Maas, relatou em depoimento que viu um gato derrubar uma garrafa de querosene, que caiu em cima de um fogareiro em brasa deixado por um comerciante, o que iniciou o incêndio. Os fogareiros para aquecer comidas e as estufas eram ambos proibidos, exatamente pelo risco. O fogo começou à meia-noite e só foi contido por volta das 4h. Nenhuma das bancas tinha seguro, então os prejuízos foram irrecuperáveis.

Francesco Provenzano, dono do Açougue e Café Provenzano do Mercado, mesmo que não atingido pelo incêndio usou a sua influência para conseguir do intendente José Montaury a garantia de que os comerciantes teriam novas lojas de ferro construídas após o incêndio. Além disso, o máximo conseguido foi a isenção de aluguéis por três meses e a cobrança pela metade por um tempo, para recuperação.

No mesmo ano é iniciada a reconstrução, mas em lugar dos espaços de madeira são erguidos pela Bromberg & Cia. quatro grandes chalés em ferro e cimento, e mais um frigorífico coletivo com divisões para carnes, peixes e frutas, que vai durar 80 anos. As obras são concluídas em 1914.

 

A enchente de 41

Entre abril de maio de 1941, foi a água que abalou o Mercado Público. A enchente de 41 foi a quarta em 15 anos em Porto Alegre, mas a mais trágica até então. As chuvas, que atingiram tanto a capital quanto as regiões do entorno desde abril, fizeram subir e transbordarem as águas do Guaíba, que avançaram pela cidade, e o Mercado foi um dos primeiros atingidos. Mercadorias e mobília foram arrastadas pela enxurrada.

As águas subiram a Borges de Medeiros e foram parar na Rua da Praia. A cidade ficou às escuras e barcos substituíram bondes, transportando a população em trajetos improvisados. O dia mais crítico foi 8 de maio, quando a água atingiu a altura de 1,5 m nos corredores do Mercado.

Este registro está marcado em metal em uma das paredes do prédio, junto ao portão do Largo Glênio Peres. Em fins de maio, o Mercado pôde reabrir suas portas, mas muitos permissionários não conseguiram se recuperar, entregando as suas permissões de uso de volta à prefeitura.

Foto: Arquivo/JM

Três incêndios em uma década

Algumas décadas de calmaria separariam o Mercado das suas próximas angústias. Nos anos 1970, porém, o fogo atingiria o já centenário prédio por três vezes. Em dezembro de 1972, um incêndio provocado por curto-circuito destruiu várias bancas – foi o segundo grande incêndio. Outro de pequeno porte o atingiu em 1976.

Mal havia se recuperado, e o fogo chegou ao Mercado mais uma vez, em 1979. O espaço andava abandonado pela prefeitura, com deteriorações e gambiarras colocando em risco inclusive a segurança dos mercadeiros.

Em 25 de julho de 1979, outro curto-circuito foi o responsável pelo terceiro grande incêndio no prédio, que consumiu um quadrante inteiro, entre a Av. Júlio de Castilhos e a Praça Parobé. Dez bancas foram destruídas e 30 sofreram algum prejuízo, além de o telhado desabar. Mesmo diante da tragédia, foi neste ano que o Mercado recebeu a boa notícia de seu tombamento como Patrimônio Histórico e Cultural da cidade.

Foto: Fabrício Scalco

O recente sinistro

No dia 6 de julho de 2013, o Mercado Público foi atingido pelo quarto grande incêndio da sua história. O sinistro começou por volta das 20h30 com um curto-circuito e as chamas se propagaram pelo telhado de madeira e pelos espaços do segundo piso que fazem frente à Av. Júlio de Castilhos, espalhando-se em U para os lados superiores da Av. Borges de Medeiros e da Praça Parobé.

Atingiu seis restaurantes, um café, uma sorveteria, uma loja de artesanato e diversos espaços de exposições e serviços. Por volta das 22h30, duas horas após o início do incêndio, as chamas foram controladas. O fogo consumiu cerca de 10% da área total do prédio.

No mesmo mês, a prefeitura iniciou a retirada de entulhos, limpeza, isolamento e restabelecimento da energia, enquanto a Associação do Comércio do Mercado Público Central (Ascomepc), que reúne os permissionários, já começava a investir para a reabertura do prédio, como a impermeabilização de manta asfáltica da parte sinistrada, tapumes e um transformador da subestação. O Mercado ficou 38 dias fechado, reabrindo cerca de 50% em 13 de agosto.

As bancas do primeiro piso da área em U afetada ainda levaram mais alguns meses para reabrirem, e as bancas atingidas pelo incêndio continuam operando em espaço provisório até hoje, pois o segundo piso permanece interditado.

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