Tradição milenar em Porto Alegre

ESPECIAL, 100 Anos da Imigração Japonesa

 

Aproveitando as festividades do centenário da imigração japonesa no Brasil, o Jornal do Mercado, também presta sua homenagem a todos imigrantes e descendentes. Nossa equipe realizou uma entrevista muito especial.

“Não falo muito bem português”, Dona Sakae no restaurante Sayuri

O termo Issei é utilizado na comunidade japonesa para se referir à primeira geração de imigrantes vindos para a América. Quase que diariamente, uma representante desta geração pode ser encontrada circulando pelo Mercado Público. Sakae Suzuki veio do Japão no ano de 1961, então com 22 anos. Enfrentou uma viagem de navio de 46 dias, deixando para trás um país que já não comportava sua população, com escassas oportunidades de trabalho. Sem saber ao certo em que parte do Brasil se encontrava, Sakae desembarcou no porto de Rio Grande acompanhada de seu marido Akira. Ambos naturais da cidade de Nagoya, localizada na região central do Japão, onde sua família trabalhava no plantio de arroz.
Depois de uma estadia de três meses em Viamão, o casal estabeleceu-se em Esteio, onde passou a trabalhar com hortifrutigranjeiros. Durante dois anos uma parte do dinheiro era repassada ao governo, conforme obrigava o contrato com a companhia de imigração. Mas esta não era a maior dificuldade, havia também o problema com o idioma, pois Sakae não falava e nem entendia o português. Curiosamente, quando chegava a hora de dar a luz a seus três filhos, respectivamente, ela optou por uma parteira de origem alemã, da cidade de Novo Hamburgo, e que também não falava uma palavra de português. Logo vieram morar em Porto Alegre, trabalhando em uma fruteira da Protásio Alves época em que conheceu o Mercado Público.
“Fazem 41 anos que eu conheço e freqüento o Mercado, ainda me lembro das bancas e do cheiro característico de cada uma das peixarias, com seus produtos frescos e dos açougues com suas lingüiças e carnes penduradas.“
No ano de 1967 a falta de perspectiva financeira obriga Akira, esposo de Sakae, a partir para os Estados Unidos em busca de melhores condições de trabalho. Na ausência de seu marido, que não tornaria a ver por mais de quarenta anos, Sakae produzia e vendia Tofu (queijo de soja). Ela fazia a entrega dos queijos de soja de bicicleta. O costume oriental pode ter causado estranheza a algumas pessoas pois chegou a ser hostilizada certa vez : “algumas pessoas me atiravam bergamotas, eu em minha bicicleta e elas no bonde, não sei ao certo o motivo desta atitude, deve ser pela falta de costume com este meio de locomoção.

 

O restaurante
Em 1974 surge a idéia de abrir um restaurante, o Sakae‘s, primeiro da cidade a oferecer pratos com temas e sabores orientais, exóticos para a época. A novidade chamou a atenção até mesmo de alguns jornalistas que começaram a publicar suas impressões sobre a novidade. Dentre os articulistas a escreverem sobre a sua comida havia o jovem escritor Luiz Fernando Verissimo , que passou de cliente a amigo pessoal de Sakae.
No Japão a profissão de sushiman é exercida somente por homens, pois a temperatura da mão masculina é mais adequada para o manejo com a carne crua dos peixes e temperos. Um sushiman não é formado do dia para a noite, são 20 anos de preparação, sendo que destes, três são apenas lavando a louça. Todos estes mitos e ritos se devem a milenar cultura japonesa, passada de geração para geração. Sakae também confidencia que a melhor idade para ensinar qualquer coisa a uma pessoa é quando a mesma tem seis anos de idade. E foi exatamente com esta idade que sua filha Sandra Sayuri começou a ajudá-la na cozinha do restaurante.

A tradição continua

Sandra e Jefferson, a tradição continua

Sandra foi aprendendo aos poucos e desenvolvendo a sua própria maneira de fazer as coisas, até mesmo encontrando uma forma mais rápida e prática de se lavar a louça da cozinha. Tudo isso sob o olhar maravilhado do sushiman, o chefe da cozinha. O caminho parecia estar traçado, ao talento foi agregado conhecimento e dele surgiu o restaurante Sayuri, mesmo nome de Sandra, que significa pequeno lírio em japonês. Localizado no segundo piso do Mercado Publico, de fácil acesso a todos que apreciam ou tem curiosidade de degustar o melhor da culinária oriental, especificamente a japonesa. No local você será muito bem recebido pelos simpáticos colaboradores do restaurante que atendem sob a tutela de Sandra e Chico, uma parceria de sucesso. E se tiverem sorte podem desfrutar da companhia da matriarca, a dona Sakae, uma simpática senhora japonesa, que se denomina brasileira e gaúcha por excelência. Quem sabe até mesmo ouvir alguma destas suas histórias. Uma coisa é certa, antes de começar ela sempre nos previne com “ eu não falo muito bem o português“… vale a pena arriscar não entender, pois o que se entende pode-se tomar como aula e a sua história, assim como a de outros que também imigraram, como exemplo de superação.

 

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