Tommaso Dilo Renzo, o “Chico”: “o Mercado hoje está bonito, mas antes era mais acolhedor”

Assim como muitos permissionários, ele também é imigrante e veio para o Brasil fazer a vida. Não demorou muito e o Mercado entrou no seu caminho. Hoje, 40 anos depois, é um dos ilustres membros desta família de mercadeiros.

      A mãe deu-lhe o nome de Francesco Tommaso Dilo Renzo, quando nasceu em 1941. Mas quando veio para o Brasil, com 18 anos, em 1959, entrou na delegacia do estrangeiro e cortou o Francesco. Mas pela sonoridade acabou sendo conhecido por todos como “Chico”. Chegou no Brasil como a maioria dos imigrantes naqueles tempos, tutelados por um tio. Maioridade naquela época só com 21 anos. Foi trabalhar numa lan-cheria na rua Alberto Bins. Diz que não sabia nem fazer cafe-zinho direito. Passou por mais um bar, cuidou de outro açougue até que chegou no Mercado. Primeiro numa banca de “secos e molhados” e finalmente no açougue que abriu definitivamente os caminhos para ele os outros dois irmãos que também viriam da Itália. De Morano Calabro, mais precisamente. A pequena cidade italiana de cinco mil habitantes só em Porto Alegre tem hoje mais de 10 mil descendentes. Lá, “Chico” tem uma filha, formada como de-signer de jóia, numa joalheria que ele abriu para ela. Ah sim, não esquecendo os dois netinhos que ele gosta de lembrar.
O açougue foi comprado em 1965, quando tinha 24 anos de um “patrício” que tinha o restaurante Caporale, onde também trabalhou. O açougue era na antiga Banca 36, onde ficou muitos anos com os irmãos. Depois mirou a Banca Central. Levou tempo oito meses, mas conseguiu pegar a concessão da banca. Quem “deu uma mão”, como ele diz, na intermediação foi Antonio Rigone.  A Central pertencia a um alemão e Rigone deu a pista: “Tens que pegar ele antes das 7 da manhã, leva ele para tomar um café”. Aí “Chico” ficou sabendo o por quê da dica do amigo. É que o alemão tinha um filho que a esta hora já estava bebendo uísque no Treviso ou no Graxain, onde ficava lendo revistinhas policiais e às 10 horas já “não prestava para mais nada”, como diz Chico. Claro que isto aborrecia profundamente o alemão que acabou passando, em 1968, a banca para os irmãos Tommaso, Biagio e Anunciato Dilo Renzo.
Ele lembra que por esta época se falava muito em demolir o Mercado, o que pode também ter influenciado na venda. A banca estava muito deteriorada. Ele fez uma nova estrutura, forte e moderna, que quase foi em-bargada. A Central antes da reforma ficava exatamente em cima do “cruzeiro” do Mercado, onde os afro-religiosos acreditam que está assentada a Pedra do Bará. “Chico” diz que respeita a lenda. “Eu não sei dizer se tinha alguma coisa, sei que ali passava água da rua lá embaixo. E a turma atirava moeda para tudo que é lado, quase pegava na nossa cara. E os funcionários de noite passavam a vassoura e pegavam tudo.”

“A gente vive mais aqui do que com a família”
Época boa, diz ele, mesmo com muito trabalho – no domingo iam até ao meio-dia. “O Mercado naquela época vendia o dobro que se vende hoje. E sabe por que? Não tinha supermercado”, diz, completando que, em compensação também se trabalhava mais. Lembra que o próprio Zaffari não existia. Eram dois irmãos que tinham um armazém na Protásio Alves. Os fornecedores em comum lhe sugeriram de abrir um supermercado, mas os irmãos não tinham interesse. Quem sabe hoje não haveria uma Rede Dilo Renzo de Supermercados? Mas “Chico” diz que está muito bem na sua banca. “O Mercado é a minha vida. Tive sorte porque meu itinerário foi rápido. Devo tudo ao Mercado, o que vivi e adquiri, criei meus dois filhos, fiz muitos amigos, como o Luiz Salami, o Dante Mabília. Conheço todo mundo, aqui se cria uma família, fora as divergências comerciais. A gente vive mais aqui do que com a família, 12 horas por dia” diz.  Falar em família, e a esposa? Ele conta que encontrou sua companheira quando ela tinha 12 e ele 19 anos. Seis anos depois é que começou o namoro que acabou no casório com fruto de dois filhos. Ela, naturalmente, também de Mo-rano Calabro, que chegou no Brasil com seis meses de idade.
Saudade? Só de não poder trabalhar quando sai. Na banca os três irmãos se revezam, seis meses para cada um. Mesmo assim “Chico” diz que tem parar porque o negócio anda muito puxado. “São 14 funcionários, 14 problemas para administrar. Tem que ter pulso.” E não foram poucas as dificuldades para este guerreiro que muitas vezes acabava de se vestir no bonde, quando vinha para o Mercado de madrugada. Da grande reforma dos anos 90, lembrava que foi muito difícil. A banca ficou fechada durante dois anos. E pagando aluguel. “Os per-mis-sionários ajudaram bastante, mas teve gente que caiu fora”, conta ele. O nosso personagem também diz que hoje o Mercado está mais bonito, mas que antes era mais acolhedor. E para a felicidade de todos, acolheu também o bravo “Chico” Dilo Renzo.

 

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