Territórios Negros

Centro Histórico, por Emílio Chagas

Territórios Negros 

Visibilidade do percurso do negro em Porto Alegre

O projeto Territórios Negros nasceu em 2009 na SMED (Secretaria Municipal de Educação), informa o seu coordenador Leonardo Rosa. Cresceu e ganhou apoio do Gabinete do Povo Negro da PMPA, da Procempa e da Cia. Carris. Destinava-se a escolas, fazendo um roteiro que recupera os espaços históricos negros na cidade. Neste ano, foi aberto ao público, aos sábados, com duração de três horas, passando por oito territórios significativos para a comunidade negra. O último foi conduzido pela historiadora Fátima Rosane da Silva André.

 

Tambor – ecos e ritmos da religiosidade


É o primeiro monumento
em homenagem à visibilidade da população negra da cidade, concebido no projeto do Museu do Percurso do Negro. Está situado na Praça Brigadeiro Sampaio, chamada então de Largo da Forca, pois os escravizados eram enforcados ali. Foi criado em 2010, numa iniciativa que envolveu o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional e o Programa Monumenta. “A forca era montada, e isso era considerado um evento na cidade, com grande público, para servir de exemplo, aterrorizar os escravos e manter o regime escravocrata”, diz a monitora Fátima, acrescentando que na África o tambor, além de ser um instrumento musical, servia também como meio de comunicação. O tamboreiro tem função fundamental nos ritos religiosos, de ligação entre os orixás da ancestralidade e os religiosos reunidos no culto.

 

Igreja das Dores – a praga do escravo Josimo

 

A igreja começou a ser construída em 1807 e só ficou pronta em 1900 – mesmo assim, não completamente. Durante a construção, houve, inclusive, a queda de uma das torres. Depois passou por reformas e restauros, todos processos com dificuldades de execução. Na realidade, ela ainda não está totalmente pronta. Reza a lenda que tudo isso seria em função da praga de Josimo, um dos escravizados, acusado de roubar material de construção. Condenado à forca, antes de morrer ele teria rogado uma praga para que a igreja nunca ficasse pronta. Ela entra no roteiro, na verdade, porque no seu largo fronteiro ficava o pelourinho, onde os negros eram castigados no tronco com chibatadas.



Foto: Fernanda Leal / divulgação PMPA 

 

Mercado Público – Bará, marco da ancestralidade negra


Um dos marcos mais importante das religiões de matriz africana, o Mercado Público, construído por escravos em 1869, abriga na sua área central o marco do Bará – uma pedra (ocutá) ali assentada por ser o cruzamento das quatro entradas. É onde os filhos de santos realizam suas primeiras obrigações depois que estão prontos em seus terreiros. Os passeios e visitas são geralmente às segundas-feiras, dia do Bará, uma entidade responsável pela abertura dos caminhos, das portas e da abundância. Recentemente, o ponto ganhou um marco definitivo, reproduzindo os signos do orixá, com pedras e chaves e em forma circular, onde são feitas oferendas e pedidos, com balas de mel e moedas. O marco também faz parte do Museu do Percurso do Negro.

 
Foto: Letícia Garcia 

 

Parque Farroupilha/ Redenção – os antigos Campos da Várzea

 

Ponto de passagem, que no roteiro escolar prevê parada para o lanche dos alunos. A inclusão no programa deve-se ao fato de que no século XVIII era lugar de grande concentração negra – para onde os escravos iam depois de libertos. Bairros nobres hoje, como o Bom Fim, Mont’Serrat, Higienópolis e Rio Branco, formavam antes a chamada Colônia Africana, que foi varrida e empurrada para a periferia na medida em que a cidade se expandiu. “Em nome da urbanização, da higienização e do branqueamento da cidade”, registra Fátima. A área foi batizada de Redenção numa alusão à abolição da escravatura. Em 1935, com os festejos do centenário da Revolução Farroupilha, passou a se chamar Parque Farroupilha.

 

Ilhota – reduto negro e berço de Lupicínio Rodrigues

 

Assim como ocorreu na Colônia Africana, a antiga Ilhota, uma pequena ilha situada onde é hoje a Avenida Erico Verissimo, também teve a sua população removida para a periferia. A região era um alagadiço às margens dos arroios Cascatinha e Dilúvio e concentrava uma população negra, formada majoritariamente por negros libertos e descendentes de escravos, que viviam de “biscates”, já que não existia trabalho formal para eles. Ali nasceu o mais importante compositor gaúcho, Lupicínio Rodrigues. Nos anos 60, teve início a sua remoção, e seus moradores foram mandados para a então recém criada Restinga, a 50 km de distância do Centro, sem água, luz e escola e com ônibus em apenas dois horários: um de manhã e outro à tarde.


A historiadora e monitora do passeio Fátima André


 Fotos: Fernanda Leal / divulgação PMPA

Quilombo Areal da Baronesa – territorialidade negra conquistada

 

Quilombo sempre foi um sinônimo de resistência negra. No início, onde se refugiavam os escravos fugidos. Hoje são quatro quilombos urbanos em Porto Alegre, dois deles com titulação, como é o caso do Areal da Baronesa, localizado junto à Avenida Praia de Belas. Ali ficava o casarão de veraneio do Barão e da Baronesa do Gravataí, cuja “casa grande” era onde é hoje o complexo Pão dos Pobres. Eles ganharam o título por ter abrigado em sua casa o Imperador D. Pedro II, em 1845. No Areal vivem duas famílias descendentes de quilombolas e o casarão espera por uma restauração. 

 

Largo Zumbi dos Palmares – homenagem ao maior líder negro

 

Antigo Largo da Epatur, até que em 2002 passou a se denominar oficialmente Largo Zumbi dos Palmares. O espaço era muito frequentado por militantes do movimento negro nos anos 70, mas, em épocas mais remotas, sempre registrou uma tradicional presença de afro-descendentes. Na época da escravidão a região era conhecida como Emboscada, um grande matagal para onde fugiam os escravos perseguidos que se organizavam para emboscadas. Próximo ao Largo, a Prefeitura de Porto Alegre construiu um monumento, uma lança, numa referência a Zumbi, e propôs que a comunidade negra trocasse o espaço – proposta recusada.

 

Informações:

(51) 3289.2164

territorios.negros@carris.com.br

facebook.com/territorios.negros


 

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