Tenho saudades da Kaiser Bock…

Depois que a Heineken adquiriu o controle acionário da Kirin Brasil (antiga Schincariol), escutei rumores sobre o encerramento das atividades da unidade Kaiser Gravataí. Fui tomado por uma nostalgia que me deixou tristonho, pensativo. Cheguei à conclusão de que mais um ciclo cervejeiro chegava ao fim.

 

Burgomestre, por Sady Homrich

Estive diversas vezes nessa fábrica, mas os melhores momentos foram os lançamentos anuais da Kaiser Bock! Sim, essa Kaiser, para os preconceituosos, foi uma das melhores cervejas comerciais já produzidas no Brasil, com destaque para as dessa unidade.

Uma grande campanha publicitária anunciava em 1993 o lançamento da Kaiser Bock num belo filme rodado na Adega dos Frades, em Petrópolis/RJ (goo.gl/1cvhhS). O sucesso relativo trouxe para a versão 1994 um jingle chiclete: “Ô Ô Ô, Kaiser Bock, pra alegria não esfriar, todo o mundo vai tomar, Ô Ô Ô, Kaiser Bock” (goo.gl/3YZbFy), ambientado no pub paulistano Finnegan’s.

De acordo com a legislação brasileira vigente, Bock trata-se de uma cerveja Lager (ou de baixa fermentação) forte quanto ao teor de malte: seu extrato primitivo é acima de 14% (enquanto as loirinhas da época ficavam em torno de 11%).  Mais encorpadas e com alto teor alcoólico (acima de 5,5%), têm pouquíssimo amargor e fundo adocicado. Aqui no Sul, tínhamos a Bock Polar, que já havia sido adaptada com corante caramelo, mas com sabor e potência que mantinha seu público. Nessa esteira vieram Antarctica Bock, Brahma Bock e até Skol Bock, versões high gravity (não diluídas) de suas homônimas coloridas artificialmente. Sem comentários. Até porque a complexidade da versão da Kaiser era única na época.

Puro malte, com 6,2% alc., usava duas qualidades de lúpulo: o alemão Hallertal para aroma e o americano Cascade, que emprestava fino amargor e espuma cremosa, atingindo inacreditáveis 19 IBU! Três tipos de malte procedentes da Alemanha, Bélgica e França (tipo Munich, Cristal e Pilsen), em diferentes proporções, eram fundamentais para o aroma tostado e de toffee, além de serem os responsáveis pela bela cor acobreada que a caracterizou desde seu lançamento no século passado. O processo de maturação e fermentação desta Bock brasileira era mais prolongado, garantindo o corpo e a complexidade do paladar, quando degustada em torno de 7-8 °C.

Esse estilo nasceu por volta do século XII na cidade de Einbeck, na Baixa Saxônia, Alemanha. É por causa do sotaque dos bávaros na hora de dizer Einbeck que o nome da cerveja virou Bock, palavra alemã que significa “bode”. Por isso, em geral, o rótulo das cervejas desse tipo tem uma cabeça de bode desenhada. Atenção: sua cor pode variar entre o dourado intenso e o marrom-escuro.

Por 20 anos, esperávamos o inverno para degustar essa iguaria sazonal, mas por “razões mercadológicas” a Heineken decidiu suspender sua produção. No último evento de lançamento, em 2013, ficamos até altas horas com os cervejeiros curtindo um barril na sua versão fresca (sem pasteurizar) e uma amostra da versão pré-filtragem. Aí lhes digo que era uma cerveja única!

Hoje temos boas representantes do estilo aqui pelo Sul: Babel Humbock (7,0% ABV), Hunsrück (7,0% ABV), Tupiniquim (6,5% ABV), Bierbaum (6,7% ABV), Schornstein (7,0% ABV), Bierland (5,8% ABV), Saint Bier (5,5% ABV). Utilize-as como ingrediente e acompanhamento para uma receita de costeleta de porco. Durante uma hora e meia de forno, regue a cada 15 minutos – até ficar da mesma cor da cerveja e… Bom proveito!

Abraço do Burgomestre!

 

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