Talo Pereyra – Mais tradição que tradicionalismos

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Cantor e compositor, Raul Eduardo Pereyra, o Talo Pereyra, é um dos grandes nomes da música regional, com 49 anos de carreira e uma presença marcante no nativismo gaúcho – sua voz e canções venceram 39 festivais nativistas. Também integrou o grupo Os Tropeiros do Ibirapuitã, com músicos como Leopoldo Rassier e José Cláudio Machado. Atento aos desafios impostos à cultura regional, Talo acredita em um regionalismo mais integrado aos movimentos atuais da cultura, preservando as tradições mais que os tradicionalismos.

 

Foto: Letícia Garcia

            Comecei a me envolver com música folclórica na infância, na Argentina. As minhas raízes, pelo lado do pai, foram tangos e marchas militares; pelo lado da mãe, folclore e música clássica. Quando eu tinha 11 para 12 anos, um vizinho ganhou um violão de presente; um dia veio de visita e eu fiquei abismado. Minha mãe me comprou um violão e eu cursei um ano de violão num conservatório. Depois, continuei sozinho. Sempre demonstrei talento para a música, então já fui começando a ser convidado para reuniões de folcloristas e, na troca de ideias, já com 12 anos compus minha primeira música e subi ao palco pela primeira vez, no grande Teatro Coliseo Podestá, na cidade de La Plata.

 

Música no RS

 

            Cheguei ao Brasil depois do golpe militar, em 76, e fui alugar um quarto de pensão na Cidade Baixa. Nos bares havia muita MPB, e eu cantava música latino-americana, que era uma coisa diferente e fez um grande sucesso. Acabei sendo contratado para cantar nos bares, e logo, logo fui fazendo amigos músicos – José Cláudio Machado foi meu primeiro amigo músico aqui. Me contrataram para tocar no CTG 35, junto com o José Cláudio, e trabalhei lá três anos. Neste meio tempo eu já conhecia alguns poetas, comecei a compor músicas e, quando entrei para o movimento de festivais nativistas, já houve uma quase definição para fazer uma vida profissional dentro do movimento nativista. Ganhei 39 festivais, com parceiros que muito me honram. O mais constante tem sido Robson Barenho, poeta gaúcho de Santa Vitória, hoje radicado em Brasília. Longa parceria também com Jayme Caetano Braun, de saudosa memória, e algumas parcerias com Vaine Darde, José César Matesich, Mauro Morais, Aparício Silva Rillo, José Hilário Retamozo – enfim, não quero esquecer ninguém, mas são muitos parceiros em 49 anos de música.

 

Música da alma

 

            Minha música, para mim, é a melhor, porque é o que o meu sangue grita dentro de mim. Eu não ouço muito música, preciso muito ouvir a mim mesmo. Os ventos da vida me levaram de um país a outro e minha música é fruto de todas essas idas e vindas pela América Latina. Então domino a música peruana, chilena, uruguaia, paraguaia, argentina, e é notório que em minha composição existem elementos muito fortes de latinoamericaneidade. É uma música própria, tem uma personalidade própria, não é parecida com a dos outros, e acho que isto não me desabona: acho que o caminho de cada músico é chegar ao seu íntimo, ao que sua própria alma quer expressar. A música, para ser verdadeira, tem que ser da alma, tem que nascer do que o próprio músico é. A primeira lei: não copiar ninguém.

 

Tradições

 

            Em tempos de globalização, é importante que nós globalizemos, porém, com a nossa própria cara – globalizar sem perder a identidade é o grande desafio. Em todos os lados vamos encontrar radicalismos. Vive-se em tempos de luta contra as intolerâncias, portanto eu preconizo que o tradicionalismo deve ser nossa relação com o futuro e não com o passado. Aqui estou parafraseando ninguém menos que Orígenes Lessa, esse conceito é dele, e eu assino embaixo. Penso que seria um erro continuarmos olhando “para o próprio umbigo”. Tentar preservar o que deve ser preservado, mas tendo claro que o contexto mundial, com o fim da Guerra Fria, impõe às culturas regionais novos desafios. Eu vou tentar ajudar para que o tradicionalismo possa se manter vivo, mas para isto vai ser necessário lutar contra alguns pontos de vista um pouco mais anacrônicos. Eu diria que teimam em fazer do tradicionalismo uma cultura fechada, e isso é próprio da cultura pós-moderna, que tribaliza as sociedades, de maneira que tu não entras em determinado ambiente se não te vestes de determinada maneira – tu não entras num CTG sem estar vestida de prenda, como um jovem não entra em determinado grupo se não bota uma camiseta do Ramones e piercing. Eu luto contra tudo isso, preconizo a preservação das tradições, mais do que a preservação dos tradicionalismos.

 

Mercado Público

             Sou um fã do Mercado Público, toda a vida frequentei, desde que vim para Porto Alegre foi uma paixão. É um ponto de excelência de Porto Alegre. Os cheiros do Mercado, a população diversa que frequenta, inclusive turistas do mundo inteiro, a diversidade e qualidade dos produtos, os preços e a cultura, que é muito presente, alguns espaços para exposições das mais diversas. Adoro o Mercado Público, espero que em breve possa voltar a funcionar em toda a sua plenitude.

 “Eu canto aos ventos para que minha voz, cidade afora, campos afora, sossegue a dor e o drama de quem chora e adoce os dias dos que marcham sós”


 

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