Sofia Cavedon “O Mercado não pode ser descaracterizado”

Sofia Cavedon

“O Mercado não pode ser descaracterizado”

 

Frequentadora assídua do Mercado Público, onde gosta de comprar erva-mate e produtos naturais, principalmente, a vereadora Sofia Cavedon (PT) acredita que o nosso grande patrimônio arquitetônico deve, sim, se modernizar, mas sem perder as suas principais características e raízes. E, como muitos, sente falta de música local entre suas centenárias paredes.

 

     Enxergo o Mercado Público como um lugar de encontro com as “nossas gentes”, e também com a nossa cultura. Senti muito claramente isso, quando o Mercado ficou fechado, no período do incêndio. É só no Mercado que a gente encontra determinados produtos, como gosta de comprar. A erva-mate, por exemplo, com a combinação que a gente faz e experimenta e aquela qualidade. Aqui tu encontras o saquinho de pano diferenciado, o peixe diferenciado, que é muito diferente de comprar em qualquer supermercado . É o encontro com o nosso produto, com o pescador da Ilha, da Colônia Z3. Aqui tu encontras o produtor e o vendedor de todos esses produtos que tem a cara e são, na verdade, retratos da nossa cultura e da nossa produção. A gente sabe que aqui no Mercado vai se encontrar de tudo, o vinho, a cachaça, que tem tudo a ver com o Rio Grande do Sul, com o litoral e com a serra, que é de onde eu venho. O Mercado é o coração pulsante da cidade, que respeita e retrata a diversidade dela na produção econômica e nos credos. O Mercado tem uma marca importante da cultura afro, mas ele é um espaço de todas as religiões também.

 

Mercado, espaço de diversidade

 

     O que temos que refletir sobre o Mercado é um certo fenômeno, o da “gentrificação”, que pega todos os centros e áreas nobres das grandes cidades que, na minha opinião, é uma ideia distorcida de modernização e revitalização. Na visão tradicional da elite, revitalizar centros históricos é retirar o popular. E o Mercado está sofrendo um pouco isso, eu penso. Ele tem que ter preço popular, ao lado de uma comida mais elaborada. Acho que o Mercado precisa acolher estas duas facetas, ele não pode ser descaracterizado da sua vocação de encontro e das manifestações da cultura da diversidade. Se ele perder isto, deixará de ser representativo da cidade.  O que tem que atrair as classes mais altas e os turistas é esta convivência linda com a cultura popular. O Mercado tem que manifestar estas duas coisas, tem que ter muito artesanato, muita cultura, música, artes, tem que ferver em manifestações culturais. Isto mostra a nossa gente, valoriza o nosso produto. Tem que pensar a potencialização da nossa cultura com a vinda turista, e não no esvaziamento da cultura própria e popular. Eu, como turista, não vou nos lugares para me encontrar com outros grupos de elites, com lugares iguais a todos os outros, como shoppings e lugares chiques. Eu vou para encontrar a cara, a cor, o cheiro daquele lugar e daquela temática popular.

 

Foto: Emílio Chagas

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