Símbolos da cidade, um passeio no tempo

Símbolos da cidade, um passeio no tempo

Por Emílio Chagas 

Sob uma forte chuva, foi realizado, em fins de novembro, o último passeio do ano do Viva o Centro a Pé, programa da prefeitura, coordenado por Glenio Vianna Bohrer, mestre em arquitetura e professor da UFRGS e gerente do Programa Cidade Integrada. O roteiro, também ministrado por Glenio, incluiu alguns dos principais símbolos históricos da cidade, como o viaduto Otávio Rocha, as casas de Júlio de Castilhos e Borges de Medeiros, ambas transformadas em museu, a Catedral Metropolitana, o Palácio Piratini, o monumento a Julio de Castilhos e o Theatro São Pedro. Do passeio, uma certeza: Porto Alegre viveu tempo majestosos e sua memória precisa ser preservada.

 

Porto Alegre é uma península, tendo como linha divisória a Rua Duque de Caxias, começou explicando o arquiteto. As encostas norte e sul são cortadas pela rua, que está associada à fundação de Porto Alegre. Outrora chamada de a “Rua da Igreja”, por causa da antiga Catedral, a Duque está no centro da história da cidade desde o seu início,  um pequeno povoado com os casais açorianos, chegados em 1850, instalados no Morro Santana, sede da fazenda de Jerônimo de Ornelas, principal proprietário das sesmarias da cidade. Mais tarde se alojaram na confluência com o Arroio Dilúvio, um escoamento de Viamão. Em 1763, quando Rio Grande, que era a capital, cai nas mãos dos espanhóis, a população migrou para Viamão e Porto Alegre, por causa do rio. Em 1772, Porto Alegre é designada capital, apesar de ser apenas um vilarejo, e é nessa época que começam a ser construídos os primeiros prédios públicos, como a Igreja Matriz, onde hoje é a Catedral, na época uma igreja barroca, mais modesta, e o Palácio do Governo, igualmente modesto, chamado Palácio de Barro, um casarão de 2 andares. “O resto do povoado era basicamente um casario”, diz Glenio, acrescentando que a encosta norte do rio foi a primeira a ser ocupada.

 

O Viaduto Otávio Rocha, primeiros passos da modernização

 

A cidade ficou sitiada 10 anos, durante a Revolução Farroupilha, por ter ficado ao lado do Império. Por esta lealdade ela foi recompensada com uma série de benefícios e construções imperiais. Surgem, então, a Santa Casa, a Beneficência Portuguesa, o Theatro São Pedro, e mais tarde, como decorrência desse crescimento, a Biblioteca Pública, a Catedral e o Palácio Piratini. Até 1920, as principais vias do centro ainda eram as paralelas a Duque, como a Riachuelo, outra rua fundacional da cidade. Todas as transversais eram bastante modestas, becos de má fama e prostituição, registra o arquiteto. Esta é uma das razões, avalia, de se construir o Viaduto Otávio Rocha nas primeiras décadas do século XX, rompendo a topografia, escavando a pedra através de uma trincheira e unindo as zonas norte e sul. Nascia, assim, o viaduto, com 15 metros de altura, gerando a primeira e única ligação direta entre essas duas zonas da cidade até hoje, o que faz da Borges de Medeiros uma das avenidas mais importantes de Porto Alegre. A execução durou de 1928 a 1932, resultando numa das mais monumentais obras viárias em todo o Brasil e até hoje referência, inclusive na América Latina. Projetado pelo arquiteto gaúcho Manoel Itaqui, tem sua estrutura toda de concreto armado e trechos de galerias, que funcionam com uma espécie de proteção do passeio público e suas rampas escalonadas de três metros, para suavizar a subida.

 

Os casarões da Duque de Caxias, oligarquias e elite

 

Com o viaduto, a Duque de Caxias ganha outra dimensão. Até então uma rua tradicional, local de residências das classes mais abastadas, localização alta e protegida de enchentes e cheias, abrigando seus casarões, ela vê o seu entorno, a partir dos anos 40, mudar de cenário. Começam a surgir na Borges de Medeiros os grandes edifícios, como o edifício Sulacap, por exemplo, que vão formar um grande “cânion” urbano, como define Glenio. E seus pequenos prédios começam a dar lugar a imponentes prédios, de padrão bastante elevado, requisitados pelas oligarquias rurais, principalmente. E é nela que se situam importantes casarões, como a casa de Júlio de Castilhos, típica do fim do século XIX, com colunas jônicas, janelas em arco, balaustre na sacada, janelas elevadas e preocupações decorativas. “Quando Júlio sai do governo é feita uma ‘vaquinha’ entre os correligionários, que compram o casarão, onde ele vai morar com a família, até 1906, quando falece”, informa Glenio. Ao lado, a casa onde também morou outro que comandou o estado, o lendário Borges de Medeiros, igualmente um casarão de elite. As duas casas, atualmente, sediam o Museu Júlio de Castilhos.

 

Praça da Matriz, Catedral e Palácio Piratini, símbolos do poder

 

A Praça da Matriz, ou Marechal Deodoro, tem uma longa trajetória na história da cidade, diz Glenio. “Até o século XVII, a população estava na parte baixa, encosta norte, ao lado do porto. Aqui em cima era o cemitério desse povoado”. Em seguida é construída a igreja, em estilo barroco com duas torres, e o Palácio de Barro, indo o cemitério para atrás da Cúria. Até 1860, registre-se, a praça era praticamente um descampado. Como o estado era estratégico na Guerra do Paraguai, a cidade passou a receber recursos por parte do Império. São, então, construídos o Theatro São Pedro e um prédio gêmeo dele, onde funcionava o Tribunal da Justiça, destruído por um incêndio. Também é erguido o chamado “forte apache”, prédio onde hoje se situa o Ministério Público. A praça também teve um chafariz com quatro esculturas de mármore, que estão hoje na praça ao lado do Colégio Rosário, e também a estátua de Conde D’Eu, removida para a praça homônima. Ela começa a ganhar um novo formato no início do séc. XX, com o Monumento a Júlio de Castilhos, que completa 100 anos em 2013. A partir daí surge o novo Palácio Piratini, em 1910, projetado pelo arquiteto francês Maurice Grass, que estava em visita ao estado. Para contrapor a imponência do novo palácio, é projetada a nova catedral, toda concebida no Vaticano pelo arquiteto da Cúria Romana, Giabatista Giovenalli, que nunca veio a Porto Alegre. Iniciada em 1920, foi parcialmente concluída em 1948. A cúpula, porém só fica pronta em 1972 e a catedral vai ser, finalmente, dada como acabada em 1986.

 

Theatro São Pedro, a cultura entra em cena

 

“Perto da Ópera de Paris, é uma miniatura”, disse Glenio ao adentrar no Theatro São Pedro. Porém, para a época, o teatro teve um impacto enorme na cidade com pouco mais de 20 mil habitantes, dando-lhe ares mais cosmopolitas. As obras começaram em 1833, sendo interrompidas por 10 anos, em razão da Revolução Farroupilha. Em 1850 os trabalhos foram retomados, com o projeto elaborado no Rio de Janeiro, e executado por Phillip von Normann. Em estilo neoclássico, o São Pedro tem capacidade para mais de 700 pessoas. Ante às sofisticadas poltronas, revestidas de veludo, destaca-se o majestoso palco e sua incomparável profundidade, circundado pelos seis andares de galerias. Sob a platéia, um impressionante lustre de 600 quilos. Com seus sólidos arcos, foyeurs, lustres, escadarias, sacadas, o São Pedro passou por uma reforma estrutural definitiva, iniciada nos anos 70 e comandada pelo arquiteto Carlos Antônio Mancuso, restaurando-se o clima dos tempos em que as carruagens estacionavam diante do seu pórtico.

Fotos: Emílio Chagas

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