Silvio Bertual Capacio: “O Mercado é como uma segunda mãe para nós”

Nascido em 1970, casado com Pâmela (que conheceu no Mercado, quando ela trabalhava na Lancheria Metrô), duas filhas pequenas, morador de Viamão, ele trabalha desde o início, há 30 anos, na mesma banca, a Casa de Carnes Santo Ângelo. Confira aqui um pouco dessa trajetória. 

Foto: Letícia Garcia

 

“Comecei de 17 para 18 anos, bem novo. Esta banca vem passando de geração para geração. Era do senhor Francesco Sartori, e passou para o genro dele agora, o ‘seu’ Pasqualino (Gugliotta). Agora tem mais um rapaz, o Rafael (Sartori), que está chegando. ” Para Silvio, o Mercado é tudo, uma segunda casa. Veio parar nele através do amigo Cláudio Barcelos de Sá, também de Viamão, que era entregador de carne, com quem cultiva amizade até hoje. “Ele me disse: ‘olha estão precisando de um açougueiro lá’. Quando eu entrei, era muito movimento. Fui gostando, ficando e estou aí até hoje – para mim é uma segunda casa, e acho que deve ser para todos. Quantas famílias este Mercado abriga? Aqui tem umas 1,5 mil pessoas. ” Porém, a sua estreia com açougue já tinha se dado em Viamão, onde trabalhava num estabelecimento do gênero. Aliás, vem de uma família de açougueiros. “É de berço, na família tem mais dois irmãos que também são açougueiros – um até trabalhou comigo aqui, uns quatro anos. Mas não se adaptou muito com a correria do Mercado, tem que chegar muito cedo de manhã e sair de noite. ”

 

MERCADO EM RITMO DE CORRERIA

O horário e a rotina ainda são os mesmos do início, é preciso se acostumar, registra. E todos acabam incorporando esse ritmo. “O Mercado é assim, a gente vê como ele faz falta quando acontece um fato como o incêndio, que fez ele ficar fechado. Também passamos por uma reforma há pouco tempo, fechamos por quase 30 dias. Até os fregueses sentem falta – quando reabre, é uma correria sempre, não para nunca. ” Lembra dos tempos mais antigos, antes da grande reforma dos anos 1990, quando havia bem mais açougues que atualmente. Ele calcula que eram mais de 30. Na reforma, revela, muitos açougues trocaram de lugar, outros fecharam. “Hoje, o que tem? Uma meia dúzia, nem isso. ” Nessa época vendia-se muita carne no Mercado. “Depois foram abrindo açougues pela cidade, mas nós continuamos aqui. É muita freguesia, carne boa, o patrão quer que atenda bem e atendimento hoje é prioridade – se não atender bem, as pessoas não voltam. ” Sobre isso, está tranquilo: a maioria dos clientes são fiéis e voltam sempre, alguns há muitos anos.

 

O MUNDO DO AÇOUGUE

E como é trabalhar com carne? “Ah, a pessoa aprende, mas tem que gostar. Todo mundo tem que trabalhar, mas, se for com uma coisa que a gente gosta, aí fica mais fácil. Eu adoro trabalhar com carne. ” Diz que agora está bem mais fácil trabalhar: cada um tem a sua função dentro do açougue e tudo está mais limpo. “Já limpei, cortei, desossei e serrei carne. Agora estou mais no balcão com a gurizada, somos em 18 na banca. ” Acha que, para o movimento do açougue, é um bom número de funcionários. E se alegra porque “tem serviço e dá empregos”. No açougue são três os mais antigos: ele, o serrador Lafar Machado Alves (que chegou, inclusive, a ser gerente, mas saiu do açougue, e voltou, tendo que recomeçar) e Raul Geisler de Medeiros, que está de férias, com 35 anos de casa. “A gente tem experiência, tenta ensinar os mais novos, passar informações. Mas é difícil, a nova geração é muito diferente. Ficam pouco tempo e já vão embora, não é como a gente que fica todo esse tempo. Olha o que já passou de gente aqui…. Dá para fazer um filme, é uma história. ”

 

O APEGO AO MERCADO

Do Mercado antigo, não sente falta de nada. Acha que, com as mudanças que vieram com a reforma, ele ficou bem melhor, principalmente o ambiente. “Quem viu o Mercado antes… O tempo voa, a gente não vê passar. Mas muita gente antiga adora e os seus filhos continuam comprando. O Mercado tem tudo. A vida da gente é aqui, estamos acostumados e não conseguimos nos ver mais longe daqui. ” Esse apego ao Mercado ele diz que é geral: não duvida que, mesmo se aposentando, muitos queiram ainda fazer alguma coisa no Mercado, para não se desligar dele. “A gente se acostuma com esse pique, quando para um pouquinho, a gente estranha. ” Dos clientes, diz que é muita gente e não consegue se lembrar de todos. Também tem muitos conhecidos no Mercado – acha importante ter amizade com todos. Afinal, para ele o Mercado é uma família, “um coração de mãe, onde sempre cabe mais um”. Tudo que ele espera é continuar tendo saúde para trabalhar. E que o Mercado continue sempre assim como ele está.

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