Silvino Gomes Novo: “Para mim, faltando o Mercado, falta tudo”

Silvino Gomes Novo, 64 anos, veio para o Mercado Público no mesmo dia em que chegou de Portugal -18 de novembro de 1959. O tio, “patriarca” da família, tinha vários estabelecimentos lá e precisava de mão de obra, para atender os portuários. O jovem Silvino trabalhava numa padaria. Vinha ao meio dia ajudar nos restaurantes do tio.

Sim, primeiro foi padeiro, fazendo o trabalho mais bruto, limpando forno, chaminés. O rapaz veio de Póvoa de Varzim, terra de Eça de Queiroz – “a casa dele era mais ou menos 1 km de distância da minha casa” diz, orgulhoso. Eram agricultores, ele e o irmão. Com 20 anos já era chefe na padaria. O pão era entregue às 6 da manhã. Sete anos depois comprou a Banca A, que em 2007 fez 40 sob sua propriedade. O começo foi difícil, teve que buscar clientes fora, fazendo entrega, principalmente nos hotéis. Com o dinheiro ganho, investiu em outros negócios. Hoje está aposentado, mas continua trabalhando porque para ele “faltando o Mercado, falta tudo.” Emocionado, explica: “Quando a gente conhece o Mercado, não quer mais se livrar dele.” Os filhos também trabalham com ele no Mercado – uma filha é sócia na banca e o filho Alexandre Primaor Novo tem pizzaria na Banca 71. A exceção é uma filha que é gerente de cinema no Bourbon Country. Lamenta estar sozinho porque sua esposa faleceu. “Me encontro solitário, foram 40 anos de boa convivência, mas a vida continua”. Também diz que o Mercado Público dá muitas oportunidades para crescer. “E a gente cresceu”, afirma.

 

A “família” Mercado
Para ele, tudo é marcante no Mercado; todos os dias tem coisas maravilhosas lá dentro. Diz que lá sempre se conhece novas pessoas, e que os clientes são muito bons, quase uma família. Depois de 40 anos de Mercado, se sente realizado. E as lembranças, Silvino? “Éramos uns 30 amigos que se reuniam todos os dias na Mesa 1 do Gambrinus para jogar palitinho, conversar, fazer todas as brincadeiras possíveis”, recorda. A esposa de Silvino era prima da dona Maria, do Embaixador. Conheceram-se na Casa de Portugal, num carnaval. Conta que na época tinha muito serviço na padaria, sem tempo de namorar. Casaram em 1977, ficando juntos 42 anos. A vida no Mercado faz com que Silvino acredite que lá se vive mais a família do que em casa, porque é lá que passam até 14 horas juntos. Nesse ambiente ele relata que os clientes ficam muito felizes porque são chamados pelo nome, diferente dos supermercados, onde todos são anônimos. No Mercado, é ao contrário. “O clientes vem aqui, conversam com o funcionário, comigo, às vezes contam até coisas particulares, problemas, alguma dificuldade, a gente ajuda, para que eles saiam mais aliviados”, diz o mercadeiro. Ele já viajou mais de 10 vezes para a Europa e sente muita saudades: “É maravilhoso viajar, mas sentimos saudades do povo gaúcho e brasileiro porque é um povo cativante, adora conversar, lá fora são mais frios. O brasileiro é mais dado e mais dócil. A gente sai daqui hoje, amanhã já quer voltar. Sou português, mas sou brasileiro com muita honra pelo carinho que o pessoal me recebeu”, diz emocionado.

 

Crescendo junto com Porto Alegre
Silvino viu muita coisa desde que chegou: “A gente vem para cá como cigano, traz duas camisas e duas calças e vai à luta para trabalhar. Vi o desenvolvimento de Porto Alegre. Vi fazer o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o Banrisul, todos esses grandes prédios foram desenvolvidos a partir de 1960. A gente cresceu junto com a cidade”, conta. Relembra também a época em que queriam derrubar o Mercado. Foi quando a Rodoviária estava sendo cons­truída e os técnicos queriam a área do Mercado para evitar a volta da Siqueira de Campos para entrar na Júlio de Castilhos. Felizmente a insana idéia não foi em frente, pela resistência da população e da imprensa. Sil­vino também conta um episódio interessante dos tempos em que faziam entrega na Rádio Guaíba, onde se reuniam os jornalistas e radialistas como Cândido Norberto, Lauro Quadros, o Arlindo Pas­qualini, Pedro Pereira e outras “feras” da Rádio Guaíba, então a rádio mais poderosa do RS. Silvino gostava de ver as máquinas de teletipo – na época a mais avançada forma de transmissão de notícias, enviadas pelas agências internacionais, como a Associeted Press, Fran­ce Press e UPI, principalmente. “Eu era garoto com 15 anos e ia lá ver as máquinas, porque elas “batiam” sozinhas. Esse pessoal tomava cafezinho lá. Numa dessas vezes fui ver e trazia: “Dallas, urgente: foi baleado o Presidente Kennedy. Casualmente estava ali o pessoal do “Correspondente Renner” e eu mostrei para eles: “olha, aqui tem um coisa importante”. Imediatamente deram uma edição extraordinária sobre o assassinato do presidente.”

 

O Mercado hoje, para Silvino
Para ele o Mercado tem espaço para mais casas comerciais. Acredita que o Mercado dará mais retorno, tanto para o município, como para os per­missionários, quando estiver totalmente ocupado. Como “chamamento” de público acha vital que haja uma programação cultural, bom atendimento ao público, praça de alimentação, dentro e fora, e música. Segundo ele o Mercado, além de vender os produtos também representa cultura. Da reforma ele lembra que os mercadeiros não tinham permissão de escolher os pontos. “Aí defendi uma tese que quem tinha mais tempo de Mercado deveria escolher onde ficar. Acharam válido, fomos para uma reunião e foi aprovada a minha proposta. Na reforma alguns levaram vantagens e outros ficaram em lugares não muito bons, mas o importante é estar aqui dentro”, diz Silvino, um imigrante vindo com 15 anos, de um lugar distante, sem pai, sem mãe e que hoje sente realizado, tanto no lado humano, como no comercial. “Criei meus filhos, dei estudo pra eles e acho que isto é mais importante para um homem honesto”. Este é “seu” Silvino, um dos grandes personagens do Mercado Público.

 

Nota da Redação: No fechamento desta edição chega a notícia que “seu” Silvino é o mais novo avô do Mercado. Presente do Papai Noel, Silvino?

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