Sérgio Luiz D’Ávila Pereira: “Construí minha vida no Mercado”

Há 15 anos gerente do tradicional Gambrinus, um dos mais antigos restaurantes do Mercado e da cidade, nascido em 1959, casado com Maria Conceição Costa Pereira, pai de Paulo Roberto, 32, Isabel Cristina, 28, e do caçula Carlos Alberto, 27, e avô neste mês de julho, Sérgio se aposentou recentemente. Vai se dedicar a negócios próprios, sem deixar de frequentar o Mercado, onde convive há 34 anos:  está escrevendo um livro sobre ele, e por um bom tempo estará conversando com seus personagens. Mas não só por isto: o Mercado, estando dentro ou fora dele, já faz parte da sua vida. “O Mercado é a minha história”, resume.

 

           

Como a história de muitos no Mercado Público, Serginho – como é mais conhecido pelos clientes – também começou a trabalhar muito jovem. “Perdi meu pai muito cedo, ele só tinha 51 anos. Então, como o mais velho da família, tive que ir à luta, trabalhando com um tio, em barcos de areia. A gente morava na Ilha da Laje. Meu pai tinha tambo de leite, pescava, interior mesmo. Foi uma vida bem sofrida que a gente teve lá fora”, revela. De uma família de cinco irmãos, duas mulheres e três homens, “todos vivos e bem”, Sérgio resolveu partir para Porto Alegre. O Mercado Público não chegava a ser uma novidade: seu pai era bem conhecido dos mercadeiros, para quem vendia leite e peixes. Era muito alegre: “Contava piadas, chegava e já fazia todo mundo rir”. O começo de Sérgio no Mercado foi em 1976, convidado por Renato Jardim Rosa, pai de Sérgio Lourenço Jardim Rosa, proprietário da Banca do Holandês, também dono de uma fiambreria, a Banca 25, que fechou um ano após sua entrada. “O Renato conhecia minha família, foi lá em casa fazer o convite para eu trabalhar. Nessa época eu estava ainda no barco de areia”. Ao saber do convite, como já tinha emprego, sugeriu o irmão, mas o futuro patrão foi enfático: era ele, ou então iria procurar outro. Assim, nosso personagem fez sua estreia no Mercado Público.

 

O Gambrinus no seu destino

 

            “Comecei numa época em que se trabalhava muito no Mercado. Saía às cinco horas da manhã de casa. Abria até nos domingos, era muito puxado, e em fim de ano o movimento era muito intenso”, diz Sérgio. Lembra que a cidade não tinha supermercados, nem shoppings centers. Depois da 25, foi para a Banca 43, uma das pioneiras em especiarias, onde ficaria mais dois anos e meio. O movimento também era grande: “A gente nem almoçava. O seu Oscar Endres, um dos sócios, comprava sanduíches para nós”, lembra. Da 43, o seu destino foi a Banca do Holandês, onde ficaria 14 anos. Porém, por dois anos e meio esteve fora, como gerente administrativo do Clube Independente. Seria o destino? Por causa dessa experiência acabaria indo parar no Gambrinus: Antônio Melo, o Antoninho, uma das grandes referências do Mercado, dono do Gambrinus falecido no final de 2009, iria assumir a presidência da Casa de Portugal e precisava de alguém com experiência em clubes. Antoninho já conhecia o seu futuro gerente de participações na Associação dos Permissionários do Mercado, tendo por objetivo principal impedir a demolição do Mercado. Como o emprego era para alguns meses à frente, Serginho foi admitido temporariamente no Gambrinus. Favorecido pela reforma do Mercado e pela ampliação do restaurante, acabou ficando. Quatro meses depois tomou um susto: “Ele largou as chaves para mim e disse: a partir de hoje tu vais ser o meu gerente”.

 

Gerenciando

 

            Ele ainda tentou argumentar que havia gente mais antiga. E que o restaurante tinha uma clientela de alto nível. Antoninho retrucou, dizendo que isso não contava, e que o importante é que ele tinha gabarito para cargo. Resultado: a Casa de Portugal ficou para lá e ele assumiu a gerência desde então. “O cavalo só passa uma vez encilhado na frente da gente. E eu não ia correr do desafio”, avalia hoje. Foi nesse período que o Gambrinus começou a reforma, junto com o Mercado. Seus clientes para o almoço eram executivos, advogados, jornalistas, profissionais liberais. “Terminada a reforma, a parte do boteco foi extinta. O Antônio começou a investir mais no restaurante, ele tinha muitos conhecidos, na mídia também. Mudou bastante, para melhor”, comenta. As acomodações criaram um ótimo ambiente. “Isto nos enche de prazer, saber que as pessoas vêm aqui não só para almoçar, mas pelo atendimento”, diz, acrescentando que em 2011 fez o trabalho de conclusão do seu curso (Administração/Ulbra) sobre o perfil e nível de satisfação do freqüentador do Gambrinus, e a pesquisa apontava que o atendimento é o ponto forte da casa. Dando continuidade aos estudos, Sérgio está cursando pós-graduação Master em Marketing,  na Uniritter. A sua rotina? Como gerente é o primeiro a chegar. “Começo a preparação do salão, monto as mesas, coloco os galeteiros, preparo a máquina do chope, controlo para ver se falta alguma coisa na cozinha ou no salão, recebo e confiro as mercadorias”. Os colegas também cuidam das suas tarefas e pronto: é só esperar a clientela. Rotina que agora vai ficar na lembrança, com a aposentadoria.

 

O Mercado ontem e hoje

 

            Ele não tem dúvidas que o Mercado hoje está muito melhor. E não entende os que dizem ter saudades do antigo, afirmando que aquele é que era o verdadeiro Mercado. “A estrutura era impressionante, em dia de chuva as pessoas tinham medo de passar aqui dentro. Não tinha o telhado, a água escorria pelas paredes e as caixas de luz eram todas externas. Estou muito satisfeito com a evolução do Mercado. Imagine se a gente tivesse um mercado daquele como ponto turístico aqui no Centro da cidade?”. Há 34 anos convivendo entre suas bancas, tem muito o que contar. Histórias que não se perderão: estarão no seu livro sobre o Mercado. Engraçadas, como a de batedores de carteira desastrados, ou trágicas, como a do incêndio que destruiu parte do Mercado, incluindo a Banca 25, reconstituirão estas três décadas que ele viveu aqui dentro. O movimento? “Quem não conheceu o Mercado e acha que hoje é muito movimento é porque não viu o que era na época. Na Semana Santa não se conseguia caminhar, só coladinho nos outros”, compara. Sem queixas de patrões e colegas, pelo contrário, tem um carinho especial pelos clientes, com os quais desenvolveu uma relação de amizade, inclusive de todo o Brasil. Mora na Ilha da Pintada, do jeito que gosta, “mato, campo e de estar rodeado por coisas da natureza”. Como muitos outros mercadeiros, partilha da ideia que o Mercado é uma família. “A gente vive mais aqui na família do Mercado do que na da gente”, conclui.

 

Sérgio e o incêndio

 

            “Fiquei bastante triste e me afetou muito, porque eu tenho problema de pressão alta. Quando eu vi o Mercado, que há tantos anos me abrigou e me acolheu – minha vida foi escrita aqui dentro –, acontece um sinistro desta forma, dando a impressão de que a qualquer momento o Mercado poderia desaparecer do centro de Porto Alegre. Mas, graças a Deus, olhando a proporção do que a gente viu e do que realmente aconteceu, até que não foi tão grande o estrago. A gente lamenta muito por aqueles colegas que ainda estão passando por este período indeterminado, muitos perderam seus empregos, mas a maioria já está trabalhando novamente e o nosso Mercado voltou a sorrir”.

 

Foto: Letícia Garcia

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