Sérgio da Costa Franco, a memória viva de Porto Alegre

Premiado no 3º Prêmio Joaquim Felizardo como destaque na área de Memória Cultural, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura, o procurador da justiça aposentado, jornalista e historiador, Sérgio da Costa Franco, colaborador do Jornal do Mercado, durante uns chopes no Naval recordou um pouco aquilo no que ele é especialista: a memória de Porto Alegre.

Relação com o Mercado Público Quando eu era comilão, ia muito ao Mercado, à Banca 43, à Banca do Holandês, em busca das minhas iguarias. Agora que estou lutando contra a gordura, quase deixei de frequentar. Vou lá, levo um charquezinho, um queijo, vou à Bancab Central, mas não sou grande frequentador. Tive o meu tempo, do Treviso, do Guaraxaim. O Naval, fiquei conhecendo agora há pouco. Eu morei no Centro do 12 aos 23 anos. Então eu ia habitualmente ao Mercado fazer compras. Minha mãe se abastecia no armazém do Joaquim Lopes Dias. Naquele tempo não havia supermercado. Era um armazém grande, de secos e molhados, na esquina da Júlio de Castilhos com a Praça Parobé. Fazia-se o pedido e eles entregavam em casa, dois ou três dias depois. Desde criança eu fazia compras no Mercado. Também naquela época eu vinha comprar numa banca das massas, que fazia macarrão, ravióli, talharim, tudo feito na hora, na zona central do Mercado.

O Mercado e a história de Porto Alegre
Na época da construção do Mercado houve discussões e críticas na cidade. Diziam alguns que o Município estava se endividando. Polidoro Antônio da Costa construiu o nosso Mercado e também fez o de Jaguarão, um pouco antes deste aqui. Pelo tamanho que a cidade tinha na época, foi uma obra impressionante. E ficou sendo o referencial mais importante da cidade velha. Nossa capital destruiu todos os seus referenciais mais antigos. Das igrejas, sobrou a da Conceição, nem sei como. A velha Matriz, que era de 1780, derrubaram para fazer a catedral moderna, de estilo Renascença italiano. Abandonaram o barroco português. A das Dores é agora a igreja mais antiga da cidade, mas já desfigurada: a fachada foi projetada por um alemão, o gosto alemão já estava predominando. Ela era originalmente barroca e lusitana, como se vê no seu interior. Como levou cem anos para ser construída, ficou muito tempo sem torres e sem escadaria, e só ficou pronta em 1904, começou com um estilo e terminou com outro. A única igreja que se mantém com o desenho original é a da Conceição.  A velha Matriz do Rosário, na Rua Vigário José Inácio, que foi construída por uma irmandade de negros, foi incrivelmente demolida e substituída por outra de estilo italiano, que não tem nada a ver com a cidade antiga. Houve isto em Porto Alegre: uma mudança de gosto, que atingiuos próprios luso-brasileiros, seduzidos pelo gosto germânico.

Cronistas da cidade
O professor Coruja (Antônio Alvares Pereira) é o cronista mais antigo da cidade. Saiu daqui por causa da revolução Farroupilha. Era professor e se envolveu com a revolução, foi preso, em 1837, desterrado para o Rio de Janeiro e não voltou mais para cá. Foi um professor destacado no Rio, tinha gramáticas. Mas terminou falido. Em 1879 publicou um livro chamado “Antigualhas”, que é uma preciosidade. Ele relembra Porto Alegre no tempo dele, de 1820, viu as primeiras execuções em Porto Alegre. Colaborei com duas reedições do livro dele. Tenho a impressão que ele deve ter voltado a Porto Alegre porque acompanhou algumas
mudanças aqui, nomes de rua.

Mas não é o primeiro que publicou, antes dele tem o José Cândido Gomes que publicou crônicas semanais em 1852 no “Mercantil”, assinando como “O Estudante”, falando do cotidiano e sua época. Nossos cronistas são relativamente poucos. Coruja, José Cândido Gomes, depois tem o Felicíssimo de Azevedo, que escrevia crônicas sobre a cidade com pseudônimo de Fiscal Honorário (estas crônicas foram reunidas em livro Cousas Municipais, publicado em 1884). Depois, lá no século 20 tem o Achylles Porto Alegre. “O jornal moderno é que valorizou o cronista. Nos jornais antigos não havia cronistas diários, mas semanais. O Machado de Assis escrevia uma por semana. Em Porto Alegre houve uma época em que os cronistas não falavam muito da cidade, como foi o caso de Paulino de Azurenha, um dos primeiros redatores do Correio do Povo, bom jornalista, que assinava como Leo Pardo, mas as crônicas dele eram muito sentimentais, pouco objetivas.

A velha Porto Alegre e novos estudos
Havia execuções na forca em Porto Alegre. Uma das mais conhecidas foi a de um escravo hospedado por Domingos José Lopes, e que foi enforcado na frente da Igreja das Dores, dando origem à lenda das “torres malditas”. Neste livro também levantei a história dos chafarizes da cidade, que foram a primeira forma de abastecimento de água potável, que vinha do Arroio Sabão, nascentes do Dilúvio, e era explorada pela Companhia Hidráulica Porto-Alegrense. Antes disso se bebia água do Guaíba e do Dilúvio, e por isso morreu muita gente de cólera em 1856. A água dos chafarizes era vendida por baldes. Depois começaram a instalar torneiras nas casas. Havia um depósito grande de água, onde hoje está a Assembléia Legislativa. Depois foi criada a Hidráulica do Moinhos de Vento, puxando água do Guaíba, e que acabou sendo encampada pela Prefeitura. Muitos desses temas estão no meu novo livro, “AVelha Porto Alegre”.

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