Luis Salami: “A minha faculdade foi o balcão do Mercado”

“A minha faculdade foi o balcão do Mercado”

     Gremista apaixonado, Luis Salami, aos seus 13 anos já trabalhava no Mercado. Acreditava que a vida lhe daria muito mais frutos longe da terra natal.

     “Trabalhar na roça não é pra mim.” Não que não gostasse do trabalho, muito pelo contrário, em seus 75 anos, Luis Salami, dedicou-se de forma integral ao trabalho e seus sonhos. Natural de Batuvira na época distrito de Lajeado, Rio Grande do Sul, o rapaz buscou outras ferramentas além da enxada e o arado. A sua busca inicia quando em suas mãos chega a carta que mudaria sua vida. Um tio havia comprado uma banca no Mercado Público e precisava de alguém para atender o balcão.

Foi em um caminhão carregado de porcos e galinhas, que o menino conseguiu carona para chegar até Taquarí. Naquela noite, a Balsa Vera Cruz, trazia para a capital, muito mais que mantimentos, toras e alguns passageiros, trazia um menino sonhador. Ao amanhecer, lá estava o bambino, de olhos curiosos a contemplar as docas do carvão, o mercado livre e a doca das frutas. Levado por um desconhecido até o seu destino. Banca 35 do MP. Propriedade de Balduino Valezan.
O seu trabalho era vender secos e molhados. Sua casa era a garagem vazia do tio. Seu desejo era de vitória. Durante quatro anos trabalhou praticamente em troca da comida,  cumprindo uma jornada de 17h. Todo este trabalho não apaga a sua lembrança do destino dado ao primeiro trocado no bolso “o primeiro dinheirinho que eu juntei, mandei 2 dúzias de maçãs e 2 de bananas pra mãe e pro pai”. Sem fantasmas na adolescência. Recorda de apenas um. O “bonde fantasma”, que vinha do bairro Petrópolis até o Mercado todas as manhãs às 5h.
Da Porto Alegre de seu tempo, recorda das horas de folga, quando podia contemplar aqueles enormes edifícios que se erguiam em sua volta. Ou então, quando pegava algumas laranjas e corria para a beira do Guaíba, onde passava alguns instantes descansando. Chupando uma laranja e jogando as cascas pras sardinhas. “Era a minha diversão ver aquelas sardinhas. Depois voltava e continuava a trabalhar… e vamos trabalhar”. Desde os primeiros momentos do dia o trabalho já era intenso, lembra que ao abrir dos portões para a população, já havia várias pessoas esperando para serem atendidas, “isso 7 horas da manha! Era uma coisa. De manhã o meu primeiro freguês eu sabia quem era … O Lupicínio, grande freqüentador do Mercado. Aqui também atendi o Teixerinha, a Meri teresinha …” Mas a saudade vem mesmo quando lembra do seu lanche preferido: pão com banha “que coisa boa… que coisa boa. Que vida que levavamos. Tudo natural.”

O espiríto empreendedor de Salami

     Na banca 35 recebeu seus primeiros ensinamentos para o comércio. Trabalhou durante quatro anos na companhia do tio. Depois disso foi trabalhar com o Dionísio José Toniollo e seu irmão. Passados alguns anos Dionísio o chama para ser sócio. Em pouco tempo torna-se proprietário. Logo a vende e compra a Banca 21, onde seu maior empreendimento será realizado. Luis agora trabalha com carnes.
Já mais estabilizado e com os negócios prosperando, um homem feito, percebe mais do que secos e molhados no interior da banca 38. Descobre ali, una bella ragazza, de olhos azuis cheios de vida. Sua futura esposa, Leolcilda Gabardo. “Quando me casei o MP fechou, porque era 7 de setembro, em 1.957.”

Os viajantes e os moradores de Espumoso, Novo Hamburgo, Canoas e outras cidades do interior do estado, traziam suas mercadorias para serem comercializadas na Rua da Conceição. “Existia ali um ponto de abastecimento, o pessoal que vinha de fora deixava tudo ali, de Espumoso eles vinham comprar o que não tinham, querosene, açúcar … e vendiam o que eles produziam”. Muitos dos proprietários das bancas do MP também se abasteciam de mercadorias lá, o que mudou após a década de 60.
Entre uma rodada e outra de negócios, o tino comercial foi aumentando, já prevendo as mudanças em sua banca, Luis sempre buscou aprender com os acontecimentos diários “Eu estudei pouquíssimo, aprendi mesmo foi no Mercado Público, no dia-a-dia , eu cheguei aqui e sabia que 3 x 7 era 21, continua hoje também. Mas o que o balcão ensina é uma faculdade fantástica.”

Ah … O tempo bom

     Recorda com saudade dos jogos no estádio do Grêmio Esportivo Renner. Onde ia acompanhado do goleiro da seleção Gaúcha Valdir Moraes, que o levava pelo braço ao estádio. Ou ainda das saídas com o seu cunhado Alzir Gabardo para jogar bolão na Sogipa, onde conquistaram o campeonato. Lembra ainda das festas realizadas no Mercado “quando se fazia festa, vinha o governador e o secretário do abastecimento. A coisa mudou. Antes se tinha uma outra relação”. Lembra de visitas como a de Juarez Soares e Leonel Brizola durante a campanha pra prefeito em 1.955. “Éramos visitados e tínhamos uma ótima relação com a prefeitura”. Recorda de visitas como a do então prefeito Telmo Thompson Flores, assim como a do Prefeito Guilherme Socias Villela.

A Oportunidade

     Nos quatro portões do MP existiam casas de carnes, ali estavam também os Provensanos, com um abastecimento diário de três a quatro jamantas, como conta Luis. É neste ritmo frenético que a sua banca se desenvolve. Eem pouco tempo ele compra a banca 20 de propriedade de Armindo Venzão. Vislumbrando a possibilidade de expansão do negócio devido aos altos preços da carne. “Em 70 quando o Brasil teve que importar carne da Holanda, a chegada da carne era uma festa, chegava carne a cada 5 ou 7 dias.” Em seguida compra as bancas 22 e 23, respectivamente de Leonardo Gualhanoni e Guido Julião. Assim torna-se a maior casa de carnes da época – Supermercado de Carnes Rodeio LTDA. Na reforma a sua banca foi deslocada. Hoje está próximo ao Guaíba, no quadrante II. Lembra que talvez tenha errado algumas vezes “a gente erra querendo acertar”. Mas de tudo fica a felicidade, as conquistas e vitórias. Uma delas a sua família, em especial suas filhas, Márcia, Solange e Mirian. Os frutos que buscou em outras terras, aqui ele os encontrou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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