Rondineli Malfatti: “Quero o Mercado melhor ainda do que ele está hoje”

Rondineli Malfatti, o “Alemão”, como é mais conhecido, nascido em novembro de 1980, natural de Porto Alegre, casado, pai de duas filhas de oito e cinco anos, é um dos tantos trabalhadores do Mercado que nele começou por influência do pai. O garoto vinha passear no prédio desde pequeno, sonhando um dia estar ali.

Foto: Leticia Garcia

“Praticamente me criei aqui dentro, mas o meu pai sempre foi contra que eu viesse trabalhar no Mercado. Ele queria que eu fosse estudar e tivesse outro futuro. Mas foi inevitável: acabei vindo para cá e fui ficando.” O pai, Aldo José Malfatti, começou trabalhando na antiga Banca 17, onde ficou mais de 15 anos. Depois, passou para a Banca 26, onde esteve por alguns anos e, finalmente, mais 20 anos no Armazém 28. Mesmo depois de aposentado, ainda trabalhou mais 10 anos. O garoto vinha sempre ao Mercado e sentia um grande e crescente fascínio por ele. “Quando o pai viu que não tinha outra solução, começou a procurar, até que surgiu a Banca 16, o Rancho Gaúcho. Chegou em casa e disse: ‘amanhã tu vai começar a trabalhar’. Fiquei todo faceiro. Eu digo que meu começo no Mercado foi de forma meio inusitada.” Apesar de não precisar, o pai chegava às 5h no Mercado. Com isso, o mais novo estreante nas bancas mercadeiras também acabou vindo nesse horário para o trabalho – a banca só abria às 7h. Porém, um desencontro entre os sócios da sua futura banca sobre sua contratação impediu a estreia do garoto. “Cheguei em casa triste e decepcionado, já demitido no primeiro dia. Meu sonho de trabalhar tinha ido por água abaixo”, diz. Felizmente, pouco depois, a situação foi contornada: Reni Groff, sócio majoritário na sociedade, comprou a parte do outro e foi resolvida a questão. E Rondineli, aos 17 anos, finalmente pôde dar início ao seu sonho.

 

Encontrando o seu destino

“Eu não sabia nem como se pesava um quilo, não tinha experiência nenhuma, nem sabia fazer contas, empacotar. Agradeço muito às pessoas, ao Reni, ao Roberson (filho de Reni), por tudo que sei hoje, devo muito ao pessoal, principalmente ao meu primo Hamilton Malfatti, já falecido, um ícone até hoje, que me ensinou tudo o que eu sei.” No Rancho Gaúcho, acabou trabalhando por nove anos, até que o genro de Reni ficou desempregado. Resultado: teve que ceder a sua vaga. Saiu sem problemas, tanto que mantém até hoje uma boa relação com a antiga banca. “Saí dali com um aprendizado muito grande, numa terça-feira – e na quarta já estava sendo chamado por Jefferson Spolavori, seu atual patrão, na banca Ponto do Chimarrão. “Era uma loja pequena, não tinha toda a estrutura que tem hoje, o movimento era bem menor. Ele fez uma proposta e eu vim. O salário era menor, mas tinha muito coleguismo. A relação com o patrão era bem diferente da que eu estava acostumado, se precisasse de folga, horário mais flexível. Isso foi me atraindo e, mesmo recebendo outras propostas, resolvi ficar aqui.” Isso foi em 2005. Diz o “Alemão” que, a partir dali, a empresa foi crescendo, melhorando, e ele “pondo os conhecimentos em prática – tudo o que tinha aprendido na loja anterior, onde me disseram que eu ia fazer nova loja crescer ainda mais”.

 

Lembranças do Mercado Antigo

O ambiente do trabalho, Alemão descreve como dos melhores, principalmente a convivência, com uma ótima relação patrão/funcionário. “Quase não dá pra diferenciar, a gente tem autonomia, decide tudo junto ali dentro. É por isso que a empresa anda bem.” Quanto à natureza do trabalho, de produtos típicos gaúchos, acha que, com o público local, é bem tranquilo. Só complica um pouco quando é com os turistas, porque tem explicar cada detalhe, os costumes, etc., diz este apaixonado por chimarrão. “Se não tomo, dá dor de cabeça, virou mania”, brinca. Lembranças antigas? “Até preferia aquela estrutura antiga, o prédio mais baixinho, os corredores mais estreitos, a liberdade de expor mais as mercadorias para os clientes. Hoje é mais restrito, os produtos ficam dentro das lojas”, compara. Em relação ao movimento, diz que antes era muito maior. “Não sei se foi a crise, ou o movimento que depois do incêndio caiu muito mesmo. O próprio prédio também decaiu por causa das reformas. Não está tão arrumadinho, o que entristece a gente. Um prédio no centro da cidade estar do jeito que está… E que demora para fazer uma reforma. Isso revolta!”

 

A família Mercado

São por essas coisas que ele tem saudades do Mercado antigo. Sente falta, mas também quer ver o Mercado modernizado, servindo como uma referência para o Rio Grande do Sul e para o Brasil, “que encha os olhos e que seja visto como um ponto de referência”. Também mantém uma ótima relação com os clientes, muitos deles fiéis, do tempo ainda de quando trabalhava no Rancho Gaúcho. “Aqui se cria um vínculo muito grande de amizade, eles voltam, é como um imã. Tem uns que me trazem legumes, coisas das chácaras. Isso é muito legal aqui no Mercado – a gente cria uma família aqui dentro, principalmente com as pessoas que estão já há mais tempo.” Hoje ele tem uma vida mais sossegada, um horário diferenciado, não tão puxado, trabalha um sábado sim, outro não. E cuida de tudo, principalmente dos encapsulados e produtos naturais da loja. Assim como para todos ultimamente, o incêndio é a lembrança mais marcante dos últimos tempos. Quando lhe contaram, achou que era piada. Depois ligou a TV e veio direto ver de perto. “Vendo todo aquele fogo, não se sabia a gravidade. Seria, também, uma grande perda pessoal.” O Ponto do Chimarrão não foi atingido diretamente, mas ele sentiu muito pelos outros. “Foram 38 dias parados, uma insegurança muito grande. A gente não tinha certeza de nada, quando ia reabrir. Ficava em casa, às vezes vinha, fazia umas reformas, era o que tinha para fazer. Tudo o que a gente adquiriu, deve ao Mercado. Então, queremos ver ele bem, vivo. É um segundo pai para mim.” Resumir o Mercado em poucas palavras? “Aprendizado, cultura, comprometimento e muita garra. O pessoal novo tem que ter sangue nos olhos.”

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