Robinson Soares de Braz: “O Mercado é uma história de vida”

Para ele, o importante é fazer o que se gosta. Técnico de contabilidade, praticamente nunca exerceu a profissão, porque não se vê trancado em um escritório. Foi se encontrar no Mercado, onde nunca tinha entrado na vida até começar a trabalhar na Banca 47, em 1998. Começou a trabalhar desde cedo, aos 14 anos, e já fez de tudo um pouco, de comprador a marceneiro.

Personagem Mercado Público POA sorrindo

Foto: Letícia Garcia

Natural de Porto Alegre, nascido em 12 de setembro de 1977, casado, dois filhos, ele chegou ao Mercado através do sogro “emprestado” (o “Gaúcho”, da Banca Central, casado com a sua sogra). “Ele disse que o dono da banca estava precisando de um motorista, e eu tinha carteira. Na verdade, minha profissão é contador, mas sou ‘meio’ hiperativo, tenho que estar sempre em movimento, tenho pânico de ficar preso num escritório. Aí, surgiu esta oportunidade de trabalhar na rua, fazendo entrega.” Ele se apresentou no trabalho, mas achou que não ia ficar: “Já cheguei atrasado, eu tinha cabelo comprido, ‘magrão’, de barba. Aí o dono olhou para mim e falou ‘bah, esse aí não vai ter futuro’. Mas comecei a trabalhar, ele gostou do meu serviço.” O trabalho era fazer entrega de mercadoria, produtos para cachorro-quente, principalmente. Cachorro do Rosário e do Bigode, os mais famosos, eram os principais clientes. Lembra que a demanda aumentou muito. O começo foi com uma camionete pequena, depois foram adquiridas outras e até um caminhãozinho — até bater a crise, quando as entregas começaram a diminuir. Também trabalhou um tempo na padaria do seu patrão, Ari Sauer, na Avenida Voluntários da Pátria e no seu próprio escritório. Mas logo voltou para a 47, em 2002, onde assumiu a função de gerente. Saiu da área de entregas, mas continua na de compras, além de atender a clientela, eventualmente.

 

Mais tempo no Mercado do que em casa

Ele diz que é bacana trabalhar no Mercado, onde se conhece muita gente. Em nove funcionários na Banca, descreve o ambiente como “uma família”. Convive com os mais antigos do seu tempo, como Anderson Narquine Vanderlei da Rocha, além dos novos. Cita, em especial, Flávio Ensler, cunhado de Ari, que esteve na banca e lhe ensinou muitas coisas, com paciência. Orgulha-se de dizer que os patrões foram no seu casamento e que mantém com eles uma relação de amizade, familiar. “Conhecemos e vimos nossos filhos crescerem.” Nesse clima de amizade, também inclui os clientes — alguns fregueses há mais de 30 anos, que viram amigos e vão ao Mercado (e à banca) desde os tempos dos antigos donos. “A gente passa mais tempo no lugar de serviço do que em casa. E no Mercado tem pessoas de vários lugares, e isso aí que é o ‘barato’: atender bem o cliente, para ele voltar. Nunca se sabe quem está ali comprando. Pode ser um juiz, um advogado, um assalariado — o atendimento tem que ser igual para todos. Sempre digo isso para os guris.” Nesse clima, estabeleceu uma intimidade com os clientes, que conhece pelo nome, e até apelido, como o que os colegas da banca carinhosamente colocaram na “Dona Encrenca”, freguesa de alguns anos da 47. Também mantém uma boa relação com a maioria dos pipoqueiros da Redenção, assim como os que vendem churros e cachorro-quente na cidade e são abastecidos pela banca, que se tornou uma espécie de distribuidoras desses produtos.

 

Mercado, ontem e hoje

Quanto à rotina, diz que antes era bem mais puxada. “Hoje em dia o Mercado é uma paz, está difícil de ver os corredores lotados.” Robinson entrou no Mercado depois da grande reforma dos anos 90 e acha que o Mercado está muito bom de trabalhar, sendo possível atender aos clientes com mais tranquilidade. “Antes era uma correria, filas e filas, mais cansativo. Chegavam os carrinhos carregados e toda a mercadoria logo saía.” Hoje ele chega às 6h e sai às 20h. Gosta da correria, precisa estar sempre trabalhando, e também de conversar com todo o tipo de gente, das pessoas mais velhas até as crianças. Das lembranças, destacam-se os colegas que passaram — alguns foram e nunca mais voltaram. Com todos, sempre uma troca de experiências diferentes, fruto da grande mistura que forma os trabalhadores do Mercado, a maioria vinda do interior do estado. Percebe que o Mercado está passando por uma adaptação aos novos tempos, principalmente no atendimento. “Mas na banca a gente mantém o estilo antigo, como fazer conta de caneta no papel.” Mas, reconhece que esse método ainda trava muito o atendimento no Mercado, onde, segundo dados dele, tem bancas que levam em médio 20 minutos para atender cada cliente.

 

Tradição e significado do Mercado

Não só o atendimento, mas os produtos da 47 estão dentro daquilo que é mais tradicional do Mercado: linguiça enrolada, charque picado ou inteiro, produtos para feijoada. “Tem restaurantes renomados da cidade que vem comprar aqui. A gente preza a qualidade. Só compramos o que vai ser vendido no dia e produtos com procedência — linguiça raramente sobra, é sempre nova. Por isso, todo dia temos que montar a banca. Agora baixou muito, estamos pedindo a metade do que pedíamos antes.” A lembrança do incêndio de 2013 ainda é forte. Diz que estava jantando com os filhos em um shopping quando soube. Pegou o carro e foi direto para o local. Em função disso, acha que o Mercado anda meio triste. “Falta alguma coisa, a parte de cima (piso superior) tinha música, os restaurantes de lá traziam muitos clientes, atraía para fazer compras.” Convivendo todos esses anos com o Mercado, considera-o como um ponto bem marcante na sua vida. “Tem toda uma história de vida: tenho minha casa quitada, meu carro, dou uma condição boa para minha família, meus filhos estão estudando. Tudo vem do Mercado e da Banca 47, é uma gratidão.”

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