Roberson Groff: “A minha história com o Mercado já vem de berço”

Roberson Groff

“A minha história com o Mercado já vem de berço”
 

Pai de três meninas – a caçula nasceu dia 4 de junho –, casado com Daiane, Roberson tem uma longa história com o Mercado, “de berço”, como ele define. Nascido em 3 de agosto de 1971, em Porto Alegre, assim como muitos outros colegas também começou cedo a trabalhar no Mercado – já aos 10 anos ajudando o pai Reni João Groff. Hoje à frente do Rancho Gaúcho, Roberson já é um dos personagens do velho Mercado Público.

 

 

“O pai trabalhava aqui, tinha banca, e desde cedo eu vim para cá, esporadicamente na parte da tarde, umas duas vezes por semana, sempre trabalhando no mesmo ramo, de erva-mate”, inicia ele. Reni chegou em Porto Alegre em 1958, vindo de Santa Cruz para servir ao Exército, e acabou ficando e criando família. “Começou trabalhando com o (Luis) Salami, na época não sei se era açougue ou secos e molhados. Com o tempo, acabaram se juntando em três ou quatro, conseguiram um dinheiro e deram de entrada numa banca, que depois foi se desenrolando devagarinho, até os dias de hoje”, diz. A banca era a 33, Casa da Erva-Mate. Empreendedor, como era comum entre os mercadeiros mais antigos, o pai em seguida adquiriu mais duas bancas: a atual Rancho Gaúcho e a Banca 2 (Salgados e Carreteiros), também de erva-mate, onde trabalhavam em sociedade também a irmã e o cunhado. “Aqui (na Rancho Gaúcho) foram um primo e um cunhado, que eram sócios dos pais e vieram da região de Gramado Xavier. A banca foi fundada em 1978. O cunhado já é falecido e hoje somos em sociedade eu e minha tia”, revela. Ele também lembra que na época foi uma inovação trabalhar com erva-mate à granel, era só em pacotinho. Nos anos 70, o pai viajava, indo até às ervateiras para trazer a erva direto. “Tinha um custo mais acessível, mas chegou um ponto que equilibrou o preço e não valia mais a pena buscar. Ele foi um dos primeiros”, registra.

 

As mudanças do Mercado

 

Roberson começou em 1988, definitivamente – tanto que até hoje está na banca, a qual acabou por assumir o comando. O começo? “Foi ajudando, pegando o ritmo para ver como se faziam as coisas, direitinho. No começo eu estudava de manhã e vinha dar uma mão aqui, na 33 e na outra, ficava revezando entre as três bancas. Até que assinaram minha carteira aqui e não saí mais”. Em relação ao Mercado antigo, acha que hoje ele está muito diferente, principalmente depois da grande reforma dos anos 90, que “mudou, bem dizer, 100% dele”. A banca ficou no mesmo lugar porque os planejadores quiseram manter um ramo de comércio por corredor, no caso erva-mate. “O Mercado de antigamente, além de ter os corredores mais estreitos, tinha um telhado muito baixo. No verão a gente sofria muito com o calor aqui dentro”. O intenso movimento ele atribui ao fato de na época não haver os atuais supermercados. “Todo mundo vinha para cá, gente de todas as idades. Depois começaram a abrir em todos os bairros e diminuiu o movimento”, avalia. Também lembra bem do tempo em que as peixarias eram na região central. “Era um horror transitar aqui dentro, de tanta gente que tinha. Hoje as peixarias são mais afastadas, então melhorou um pouco a circulação, sem aquele acúmulo grande de pessoas aqui dentro. Mas o

povo continua vindo”, diz.

 

Os “barões” da erva-mate

 

Segundo Roberson, 60% da erva-mate do Mercado é vendida nas bancas da família. Ou seja, além de pioneiros, são os maiores vendedores. Isso faz com que o público busque predominantemente o produto nas suas bancas, o carro-chefe de todas elas. “Mas tem também um pessoal que gosta de facas, e muitos turistas vem atrás de artesanato e coisas diferentes”, observa. Contudo, sua ligação com a cultura gaúcha já foi bem maior, especialmente nos CTGs. Com o tempo, família grande, filhas pequenas, “começou a complicar um pouco mais”, mesmo com o movimento na banca hoje relativamente menor do que nos tempos antigos. “Com aquele movimento mais frequente, tu não vias o tempo passar, trabalhava direto – buscava a mercadoria, trazia, quando notava já era noite. Atualmente, tem altos e baixos, tem dias que está bem devagar, andando em câmera

lenta. Parece que leva uma semana para passar o dia”. Das lembranças, que são muitas, destaca as dificuldades durante a reforma, com as mudanças e o movimento que diminuiu consideravelmente. “A gente tinha que correr atrás de novidades, inovar. Agora são as lembranças trágicas deste último incêndio, ficamos 38 dias parados. Não fomos atingidos, graças a Deus, mas ter que parar complicou a situação”. A sua vida no Mercado é de segunda a sábado, um “horário puxado”, sobrando só os domingos.

 

“O Mercado é uma família”

 

Com uma vida puxada, diz que é natural que a família reclame do horário. “Então, quando dá uma folguinha, tento passear, sair com o pessoal de casa”. Lembra que ainda pegou o tempo de trabalhar aos domingos no Mercado. “Já tentaram reabrir nesse dia, mas não vinga. O pessoal prefere shopping, que tem mais conforto, climatização, estacionamento, coisas que poderiam ter aqui. Ainda tem muita coisa para melhorar no Mercado”, afirma. Ele também sente um ambiente familiar entre os mercadeiros, onde se brinca, diverte, trabalha, faz amizades e confraterniza. “As pessoas que trabalham aqui e saem sempre dão um jeitinho de voltar ou vir aqui passear, relembrar os amigos. Aqui tem uma aura diferente, um convívio, onde se cria um vínculo com o pessoal”, defi ne. Tem uma boa freguesia, com muitos clientes fiéis, acostumados com a banca. “Cada um cria um certo apego com cada banca. Carne, erva, frios é em tal lugar, não muda. Depois é que vão para outro lugar”, observa. Hoje, diz que está mais “light”, cuidando da administração, ao lado de mais quatro funcionários, enquanto ele só “dá uma mãozinha”. Valoriza muito as amizades feitas com colegas do Mercado e com os clientes, famosos ou anônimos, porque para ele o Mercado “é uma família, onde se convive com pessoas diferentes, de várias classes, e de onde se tira muita coisa boa”. 

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