Rio Grande indígena

O RS tem uma formação étnica e cultural heterogênea. São muitas histórias que ajudam a compor o nosso estado. Enquanto algumas são amplamente divulgadas, como a dos imigrantes alemães e italianos, outras ficam relegadas a um segundo plano. Pois são essas histórias que precisamos recuperar. Como a da ampla e diversa cultura indígena, os primeiros povoadores do nosso território.

 

CULTURA GAÚCHA, por Letícia Garcia

São cinco matrizes étnicas que compõem esse conjunto de histórias distintas: charrua (também chamada pampeana), guarani, kaingang, minuana (ou guenoa) e xokleng. Por origem linguística, os guarani* são tupi, os charrua e minuano são chon/pampa e os kaingang e xokleng são jê. A ocupação da região do nosso estado iniciou há cerca de 12 mil anos. “A constituição do espaço onde hoje é o Rio Grande do Sul, em termos étnicos e indígenas, é muito complexa.

Se pensarmos proporcionalmente, os últimos 240 anos, quando temos presença europeia e africana mais intensiva, são só 2% da história do Rio Grande do Sul — os outros 98% são história só dos povos indígenas. E os indígenas estão presentes também nos outros 2%”, resume Rodrigo Venzon. Rodrigo é coordenador institucional do Conselho Estadual dos Povos Indígenas (Cepi) e já atuou na ONG Anaí — Associação Nacional de Ação Indigenista (1982–95), em especial nos temas de políticas públicas de educação, saúde indígena e meio ambiente.

Foto: Karine Viana/Palácio Piratini

 

Povoamento

Os povos indígenas chegaram ao território do RS ao longo dos milênios. Os deslocamentos ligam a cultura charrua e minuano aos povos andinos e patagônicos, os guarani, aos povos amazônicos e do litoral Atlântico e os kaingang e xokleng, aos do Brasil Central e Nordeste. “Então o Rio Grande do Sul é, praticamente, um encontro de toda a América do Sul”, diz Rodrigo.

Até os anos 1600, não havia presença de europeus no RS. Em áreas abertas de campo, viviam os charrua; em regiões úmidas de banhados, os minuano; na região central, Missões e litoral, com floresta de Mata Atlântica, viviam os guarani; nas matas de araucária e nos campos de cima da serra, os kaingang e xokleng. “Temos aqui uma grande história de longa duração que está relacionada aos milhares de caçadores, coletores, pescadores e horticultores que estavam estabelecidos quando espanhóis e portugueses invadiram esse território. Toda essa história é comprovada através de utensílios manufaturados feitos de pedra e cerâmica encontrados por arqueólogos”, afirma Cláudio Knierim, historiador, pesquisador e professor de História que participou da organização do livro “Releituras da história do Rio Grande do Sul” (Corag, 2011), entre outros.

Como os indígenas são um povo de tradição oral, os registros por escrito nos legaram uma história de muitos apagamentos e lacunas, que não considera toda a riqueza cultural dos nativos. Mas sempre é tempo de recuperar.

 

Missões

A conquista bélica e religiosa europeia na região do RS aconteceu a partir do século XVI. No caso específico das Missões, foi imposta uma escolha aos guarani: jesuítas ou bandeirantes. “Nas Missões Jesuíticas, havia a possibilidade de manter a língua, o vínculo familiar e continuar no próprio território, enquanto no bandeirantismo tudo isso era rompido, pois os indígenas eram escravizados e deportados para outras regiões.

Então, entre acatar determinadas formas de violência na organização familiar e em outras questões pelos jesuítas ou ser escravizado pelos bandeirantes, era mais fácil se aliar aos jesuítas”, pondera Rodrigo. “A escolha dos guarani de se aliarem aos jesuítas foi estrategicamente adequada, porque permitiu uma sobrevivência por mais séculos, com todas as consequências disso.”

Os chamados Sete Povos das Missões da história do RS são uma parcela dos 30 povos do Vice-Reino do Peru e do Prata (atuais Argentina, Paraguai e sul do Brasil), com o qual elas se relacionavam comercial e politicamente. “As Missões estavam vinculadas ao processo de exploração da prata em Potosí. A produção no RS de fumo, erva-mate e charque era ligada a essa exploração pelos espanhóis, pois estavam dentro de um processo colonial”, explica Rodrigo.

Diferentes povos indígenas passaram a interagir também nesse período: os guarani foram levados a criar gado em território xokleng e a plantar erva-mate em terras kaingang. “São interações muito complexas dessa história, a maior parte não está registrada por escrito”, conta. “Existe um foco muito grande no ensino voltado só para a Europa. Os indígenas, os africanos e as suas interações são minimizadas no contexto geral.”

Karine Viana/Palácio Piratini

 

Miscigenação

O pertencimento espanhol das Missões é comprovado por diversos fatores, como o vocabulário, que tem palavras da língua quéchua (mate, pampa, charque, chiripá), idioma usado pelos charrua, do tronco inca. O termo “gaúcho” vem de “guaxo”, do quéchua, “wajchu”, “órfão”. “O gaúcho é o filho de mãe indígena que foi violentada pelo espanhol ou português. Isto é, a nossa origem vem da violência dos conquistadores contra as mulheres indígenas, uma coisa que também precisa ser compreendida. A própria pesquisa genética na fronteira demonstra isso”, exemplifica Rodrigo, referindo-se à pesquisa da profª Maria Cátira Bortolini, da Ufrgs. “Ela constatou que mais de 60% dos habitantes da região da campanha e fronteira oeste do nosso estado possuem uma ascendência indígena pelo lado materno, índices comparáveis ao que se encontra na Amazônia”, conta Cláudio.

Nesse ponto, é preciso encarar o doloroso preconceito cultural enraizado na construção da identidade regional, que valoriza a origem europeia, como analisa José Otávio Catafesto de Souza em   artigo no livro “RS índio” (Edipucrs, 2009). Alemães, italianos e portugueses que chegavam ao país contavam com ações afirmativas do Império brasileiro, um favorecimento que dava direito privado sobre lotes de terra e mais incentivos, como equipamentos e financiamento, para que eles se estabelecessem.

Imigrantes europeus foram privilegiados pela sua suposta maior capacidade de trabalho, trazidos para substituir índios e negros africanos desconsiderados para o “projeto de nação” do governo. Em consequência, descendente de colonos tiveram maior acesso a cargos e empregos ao longo da história. Uma carga simbólica que leva a população a valorizar a sua ascendência europeia, em detrimento da ancestralidade nativa, como escreve José. Mesmo que a maior parte dos registros escritos ignore, houve, sim, uma intensa miscigenação genética e cultural entre indígenas, africanos e europeus no RS.

De forma mais ampla, a herança autóctone na cultura regional está presente na língua, nos costumes (como as relações familiares, mais indígenas que europeias), nos conhecimentos de ervas medicinais e, de forma muito intensa, na culinária.

 

Confira na próxima edição a segunda parte da matéria!

 

*As palavras indígenas não levam plural, como é recorrente demonstrado por estudiosos do tema. Portanto, a grafia é “os charrua”, “os guarani”, e assim por diante.

 

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