Riachuelo, uma rua com muita história

Centro Histórico, por Emílio Chagas

 

Considerada uma das três ruas fundacionais da cidade, ao lado da Duque de Caxias e Andradas (Rua da Praia), a Riachuelo já foi chamada de Rua da Ponte e Rua do Cotovelo, até chegar à denominação

A histórica Confeitaria Rocco FOTO: Emílio Chagas

atual. Desde sua fundação, porém, sempre foi uma das mais importantes da cidade, principalmente da região central.

                                                                                      

Ela começa na rua General Salustiano, na chamada “ponta do Gasômetro” e termina na Rua Doutor Flores, em frente à Praça Conde de Porto Alegre, antiga Praça do Portão – onde erguia-se uma espécie de fortificação para proteger a cidade. Seguindo o modelo português de cidade, segundo o arquiteto Luiz Merino, do Programa PAC das Cidades Históricas, a parte alta (Duque de Caxias, no caso) era destinada às expressões do poder, como Igreja, Governo e residências das famílias mais abastadas. Na parte baixa, principalmente o comércio, que era o forte da rua da Praia. A Richuelo, entre as duas, foi uma mescla dessas duas características, traçada já no primeiro “Plano da Vila”, elaborado pelo Capitão Alexandre Montanha. Da Rua da Ladeira (atual General Câmara), até a antiga Praia do Arsenal, nas margens do Guaíba, era conhecida como Rua do Cotovelo, porque na altura do Theatro São Pedro, uma curva (existente até hoje no traçado), lembrava um grande cotovelo. Porém, da Ladeira até a já citada antiga Praça do Portão, era conhecida como Rua da Ponte. A razão do nome: exatamente no cruzamento com a Avenida Borges de Medeiros, então a mais importante artéria de Porto Alegre, ha

via uma ponte. A área era um dos pontos críticos da área central, porque eram frequentes os alagamentos, só resolvidos a partir der 1830, com o aterro do rio e remoção da ponte. Já em direção à rua do Cotovelo, o entrave era, então, uma enorme pedreira na rua Clara (atual João Manoel), quebrada em 1844. Nessa época, foi instituído o emplacamento das ruas, e a via passou a ter o nome único de Rua da Ponte, que durou até 1865, em homenagem a uma grande vitória naval brasileira, na Guerra do Paraguai.

 

Traços predominantes do estilo colonial português

Prédio da Biblioteca Pública Estadual, exemplo positivista FOTO: Bruno Silveira PiresEmbora não tanto quanto a Duque de Caxias, a Riachuelo abrigou muitas residências nobres. Reza a lenda que foi a primeira rua a ter uma casa com vidraças, o que se constituiu em uma grande novidade. As casas, então, seguindo o modelo de povoamento português, tinham as janelas fechadas, resguardando o interior. Mas em se tratando de referências arquitetônicas, a rua tem marcos históricos até hoje. O Palacete Rocco, na esquina com a rua Dr. Flores, é um deles. Considerado um dos prédios mais elegantes de Porto Alegre nesse período, o local é também uma referência da época em que a capital começou a ser tornar cosmopolita. Ponto de encontro das famílias, políticos, intelectuais e expressões da província, a Rocco era uma confeitaria disputadíssima, com salões de festas para banquetes, bailes e festas ornamentadas por sua riquíssima arquitetura em estilo eclético. Além da Rocco, entre outras construções importantes da Riachuelo, está o imponente prédio da Biblioteca Pública, talvez o mais importante ícone da arquitetura do período positivista do estado, construído em 1912. Antes, em 1886, no local funcionava a União Telefônica, quando a rua já registrava mais de 300 casas, sendo, então, como registra o historiador Sérgio da Costa Franco, “uma rua tipicamente central, com denso povoamento.” Outro prédio importantes é o de número 933, um raro remanescente da arquitetura colonial residencial. Construído no fim do século XIX, preserva sua fachada eclética até hoje. O mesmo não se pode dizer daquela que o arquiteto Merino aponta com a primeira casa construída em Porto Alegre, em estilo genuinamente português, comprada pela prefeitura e interditada atualmente, na altura do número XX. E também o atual Solar Coruja, construído em 1906, uma das primeiras edificações com traços do estilo arquitetônico francês, que passou a predominar no estado (e Brasil), depois do colonial português.

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