Restauro da Casa de Cultura Mario Quintana, uma obra a serviço da cultura

Restauro da Casa de Cultura Mario Quintana, uma obra a serviço da cultura

Por Emílio Chagas 

Um dos marcos culturais (e arquitetônicos) mais importantes da cidade, a Casa de Cultura passa por mais uma obra de restauro que, além de restaurar a arquitetura do prédio, traz mais segurança para os visitantes. A previsão é que até o fim de 2014 ela esteja operando com sua capacidade integral.

 

Restauro da Casa de Cultura Mario Quintana, uma obra a serviço da cultura - Jornal do Mercado

As origens: Hotel Majestic, onde tudo começou

 

     No começo do século passado, em 1913, quando Porto Alegre era ainda uma província, o empresário Horácio de Carvalho, decidiu construir um palacete nada modesto na então Rua da Praia. O projeto foi entregue aos cuidados, em 1916, do alemão Theodor Wiederspahn, na época o principal arquiteto da cidade. O seu arrojo impressionou, com inéditas passarelas suspensas (que chegaram a ser embargadas pelo suposto perigo que representavam) e exibia colunas, terraços e sacadas, tudo com a solidez do moderníssimo concreto armado. Em 1918, a primeira parte, voltada para a rua Sete de Setembro, estava pronta. O prédio, a esta altura, já havia sido transformado em hotel com 150 quartos. A outra ala só começou a ser construída em 1926. Ao final dos trabalhos, em 1933, o nomeado Majestic exibia seu assimétrico aspecto definitivo – os sete pavimentos da ala leste e os cinco da oeste. Já tinha, então, 400 quartos “com ar e luz direta”, 310 banheiros e ainda aposentos especiais para famílias, além de um salão de refeições capaz de servir 600 comensais. Hóspedes e artistas famosos   passaram pelo hotel, misturando-se com famílias de moradores. Getúlio Vargas e sua amiga vedete Virginia Lane, e o “cantor das multidões” Francisco Alves integram a vasta lista de celebridades dos anos 30 e 40 do Majestic, onde também morou, durante dois anos, o ex-presidente João Goulart. Já o escritor Erico Verissimo e sua esposa Mafalda chegaram ao endereço para passar a lua de mel e ali passaram a residir.

 

Surge o grande espaço da cultura

 

     Nos anos 1950, mudou o perfil da hotelaria e do Centro da capital, entrando o hotel em decadência, mudando o perfil dos moradores. Ali se instalou, em 1968, o poeta Mario Quintana. Na década seguinte o hotel foi posto à venda, amargando o desprezo dos compradores – durante 10 anos somente dois interessados apareceram, mas se assustaram com a degradação física do edifício. O destino do Majestic, com 57 anos de vida, era a demolição. Mas o governo estadual autorizou, em 1980, a compra do imóvel pelo Banrisul, o banco do estado, que ali instalaria sua principal agência. Isso não ocorreu: um movimento insatisfeito com esta alternativa tomou corpo e em 1983 foi sancionado e promulgado, pelo governo, o decreto que denominava Casa de Cultura Mario Quintana o prédio, já adquirido e tombado pelo Estado. No ano seguinte era criada a Associação de Amigos da Casa de Cultura Mario Quintana (AACCMQ), que cooptou empresas apoiadoras para investir no projeto de reforma de 1987, sob a responsabilidade dos arquitetos Flávio Kiefer e Joel Gorski, transformando os 12.000 m² de área em espaço cultural. Em 1990, no dia 25 de setembro, finalmente, o público pode conhecer a nova face do velho edifício.

 

A primeira grande reforma

 

     Kiefer apostou num projeto que integrasse todas as alas do prédio, preservando os elementos decorativos do teto, chão e colunas, lembrando os tempos do hotel. A ideia de aproveitar apenas alguns andares foi esquecida: era tudo ou nada. Na ala que teve seu hall totalmente transformado, a grande inovação foi a escada em espiral, chamada “percurso cultural”, que atravessa todos os andares. Passarelas também ganharam novas roupas, com vidros temperados. Foram investidos seis milhões de dólares na transformação do prédio, 95% do Estado e o restante por empresas privadas. Gorski lembra que um dos méritos do projeto foi ter tratado a CCMQ como uma instituição com personalidade única, embora formalmente constituída por diferentes instituições da área cultural. “Havia, antes do projeto arquitetônico, um projeto de instituição ao qual buscamos atender”. Lamenta, porém, que “as alterações desarticuladas, observadas ao longo dos anos, denotam o afastamento da ideia original e explicam a situação atual, onde a programação visual caótica, a sinalização inadequada, a ocupação de espaços de forma desordenada, a iluminação ineficiente e instalações sucateadas são a tônica.”

 

O restauro atual

 

     Em fins de 2011, o Governo do Estado que, através da Secretaria da Cultura, gere a CCMQ, anunciou a disposição do Banrisul de patrocinar a restauração das fachadas e telhados do prédio, bem como sua acessibilidade e sinalética, destinando um total de R$ 8 milhões para as obras. A partir daí,  a AACCMQ (que repassa todas as verbas de patrocínio para funcionamento e manutenção da instituição) formou uma equipe para trabalhar na formatação do projeto a ser enviado ao Ministério da Cultura para uso da Lei Rouanet, aprovado integralmente. Elaborado pela museóloga Vanessa Dutra, chamada pela Associação de Amigos, o projeto voltado para as fachadas elenca todas as necessidades para este restauro, cujo término está previsto para fins de 2014. O edifício, que representa a memória dos séculos XIX e XX e integra o Inventário Municipal de Bens e Imóveis, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Cultural do Estado (IPHAE), que emitiu o parecer técnico necessário à execução da obra. O trabalho realizado pela Arquium (empresa com larga experiência em restauração), inclui a recuperação de suas estruturas danificadas, arquitetura e paisagismo do prédio. O objetivo específico do restauro, que, nesta primeira fase, conta com R$ 4 milhões do Banrisul, é manter a segurança dos passantes, frequentadores e visitantes, evitando a queda, já registrada anteriormente, de elementos das fachadas. Para Paulo da Luz, engenheiro que dirige a Arquium e que coordenou o restauro mais recente, a importância da obra atual está na segurança que trará ao público. “Vejo este trabalho com muito carinho, dada à importância da CCMQ, por tudo que ela representa em nossa cidade”.

 

A Associação dos Amigos

 

     A ideia de criar um grupo que tratasse de tornar viável a Casa de Cultura Mario Quintana surgiu num seminário que reuniu artistas, produtores e pensadores da cultura. Nicea Brasil, primeira coordenadora de atividades culturais do complexo, conta que, formada a Comissão de Organização e Planejamento da Casa, as reuniões semanais ocupavam o térreo do prédio do Majestic. Num primeiro momento, foi feito o que Nicea classifica como “um remendo”, instalando, no térreo, cinema e sala de exposições, e no primeiro andar, a escola infantil Sapato Florido. “Havia uns doze funcionários no total”, diz. Mais tarde, as melhorias chegaram através da parceria de empresários que foram convidados a investir na Casa. “Daí em diante, foi correr para o abraço: só o que se comentava era que uma grande casa de cultura seria construída no antigo hotel”. Surgida em 1984, a Associação dos Amigos da Casa de Cultura Mario Quintana, sem fins lucrativos, é registrada no Ministério da Cultura como entidade captadora de recursos.  Tem como atuação primordial criar e encaminhar projetos culturais para captação de recursos via leis de incentivo, além de repassar verbas públicas para manutenção física e cultural da instituição. Em seus quase 30 anos teve entre seus presidentes Ruy Carlos Ostermann, Walter Galvani da Silveira e Nicea Brasil. O atual presidente da Associação dos Amigos da CCMQ, Eduardo Vital, lembra que era visível a todos a urgência de um restauro imediato antes até que alguma ala viesse a ser interditada. “A comunidade cultural pedia, havia muito tempo, esta ação. É claro que este processo só poderia acontecer em conjunto com o Governo do Estado e a Associação dos Amigos da Casa de Cultura Mario Quintana, entidade oficial que pode obter o recurso de patrocínio para a restauração”. A responsabilidade da Associação é total, diz Eduardo, “como proponente, junto ao MinC, de um projeto de um total de R$ 8 milhões, do qual é preciso prestar conta de cada centavo ao Governo Federal”.

 

A estrutura atual da CCMQ

 

     A CCMQ abriga as bibliotecas Lucília Minssen e Erico Verissimo, a Discoteca Pública Natho Henn, com o auditório Luis Cosme, Biblioteca Armando Albuquerque, Espaço Lupicínio Rodrigues, Sala Radamés Gnattalli, e Sala Irmãos Moritz. Os espaços para exposições são Buraco do Cabaré, Espaço Maurício Rosenblat, Espaço Vasco Prado, Foto Galeria Virgílio Calegari, Galeria Sotero Cosme (com o Museu de Arte Contemporânea, ainda sem sede própria), Galeria Xico Stockinger e Sala de Arte Augusto Meyer. O público pode acessar também Laboratório Fotográfico, as salas Cecy Frank, Cláudio Heemann, Hermes Mancilha, Marcos Barreto, Lili Inventa o Mundo, Literatura e salas A2B2, C2, C3, E4, para palestras e eventos. Além dos teatros Bruno Kiefer (palco italiano) e Carlos Carvalho, a CCMQ conta com Acervo Elis Regina, Espaço Professora Dionéia M. Rüdiger, Mezanino, Quarto do Poeta, Espaço Romeu Grimaldi, Oficina de Arte Sapato Florido e jardim Lutzenberger e o do terraço do sétimo andar. Administrados pela Associação dos Amigos, os cafés dos Cataventos e Santo de Casa, Bombonière, Arteloja e Livraria e Papelaria Caçula têm seus aluguéis revertidos para a manutenção da CCMQ que, atualmente, abriga, ainda, institutos da Secretaria da Cultura e parte do Acervo da Biblioteca Pública do Estado (em reforma), além das salas de cinema Eduardo Hirtz, Norberto Lubisco e Paulo Amorim.

 

Matéria a partir de colaboração de Maristela Bairros, jornalista e assessora de comunicação da AACCMQ.

 

Fotos: Emílio Chagas

COMENTÁRIOS