Resgatando a cultura e a tradição gaúcha

Fala, Paixão!

 

Resgatando a cultura e a tradição gaúcha

 

Patrono da Feira do Livro? Bom, eu acho uma distinção o convite ir para os escritores, historiadores, jornalistas, poetas, ficcionistas. Está numa área que é a que eu mais atuo, né? A área da cultura popular, ao lado de outras expressões culturais, de livros publicados, de palestrantes, aplaudidos e reconhecidos no cenário literário rio-grandense. É uma distinção muito grande que eu recebo, dentro desta área, às vezes, não muito bem entendida, mas que representa a cultura e a vivência do povo, as suas expressões genuínas e espontâneas, não formalizadas, e que vem se transmitindo de geração em geração. E isso não só no ambiente urbano, mas também, na zona campestre, que eu represento, pela minha vivência, pela minha atividade profissional. Eu sou engenheiro agrônomo, então a minha convivência é mais com o homem rural do que urbano, então a minha preocupação de registrá-la, fotografar, gravar, para documentar como contribuição da cultura espontânea do povo que é o folclore. Devolver ao povo, o que é do povo. Tive a oportunidade de abraçar mais intimamente outras figuras que estão aí reconhecidamente no cenário literário rio-grandense. Este resgate começa em 1947, portanto são 63 anos de contínua, insistente e persistente pesquisa da área folclórica. Nós, quando iniciamos, junto com outros companheiros, as coisas eram bastante diferentes dos dias atuais, pois não existiam os movimentos de preservação dos valores genuínos, de identidade da terra. Existiam manifestações brasileiras e universais das coisas mais modernas, e excluía esses aspectos ligados a terra. Então surgiram depois do Colégio Júlio de Castilhos, que é o ponto inicial. Vem depois, o 35, Centro de Tradições, que é o primeiro, e essa avalanche que hoje congrega 4 mil entidades no mundo e giram em torno dessas instituições, entidades, agremiações, grupos musicais campestres, cinco milhões de pessoas. É significativo de que a idéia vingou e está aí através das novas gerações. 60 anos já se passam, umas duas gerações, no mínimo.

 

Os nossos valores

Anterior a este movimento popular, que não é um movimento popular elitista, ele veio de baixo para cima, e não de cima para baixo, não houve regras, não se estabeleceram normas obrigatórias, nem fiscalização, nem decretos, este movimento é espontâneo, nasceu, com vivência do homem do campo e foi assumindo posições progressivas, dentro do desenvolvimento normal da modernidade, sem fazer modismo. Esse é o cuidado que se tem, às vezes, os próprios tradicionalistas não se apercebem que estão fazendo modismo, conseqüências às vezes irresponsáveis, fantasiosas. A preocupação dos que delinearam o movimento de preservação dos nossos valores morais, físicos, artísticos, editoriais, pois não havia livros, quase não se publicavam obras a respeito de temáticas regionais, fossem campeiras, musicais, poéticas, ou de ficção – nada disso estava praticamente na vivência, na lembrança de livros editados do passado e que estavam. Dificilmente você conseguia um exemplar, porque não havia mercado, não tinha consumidor da cultura popular, mas sim das coisas mais modernas. O que aconteceu após a segunda guerra, foi o “ismo” do americanismo; o que é bom para o EUA é bom para o Brasil. A vitória do pan-americanismo é um sucesso do norte-americano. Então os norte-americanos nos davam livros, música, rádio, cinema, revistas, edições do best-seller. A cultura da terra, de elementos genuínos, espontâneos, isso não merecia credito na educação e na cultura brasileira, a não ser, aqueles que se destacavam da Academia Rio-grandense de Letras”.

                                                                                                                                                                   Foto de Luis Ventura 

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