Reni João Groff o pioneiro da erva mate no Mercado Público

Reni João Groff o pioneiro da erva mate no Mercado Público

 

De Gramado Xavier para o mundo do Mercado, esta é a trajetória de Reni, o jovem que saiu do quartel e veio direto para Porto Alegre, em 1958. Sentou praça em Santa Cruz. Criado na roça, via aquele “monte de gente” na cidade, andando de um lado para o outro e se perguntava: “do que elas vivem”? Não entendia porque ele trabalhava de sol a sol, enquanto aquelas pessoas “passeavam”. Ao contrário de muitos casais mercadeiros, não conheceu a esposa no Mercado. Ela, Lionerci, morava numa pensão perto da sua. Tiveram três filhos, duas filhas dentistas, e Roberson que continuou no Mercado, hoje no Rancho Gaúcho. “No começo muitas gurias não queriam namorar com quem trabalhava no Mercado porque tinha muito malandro. Mas com a esposa foi diferente. Namoraram sete anos e estão casados há 44. Quando fez 32 de trabalho se aposentou e não quis mais continuar nas atividades. “Dei 20% para o Gilmar e 10% para o Adão, meus sobrinhos que eram empregados, e caí fora”.

 

     Já era um sinal, na verdade, que o seu destino seria também a cidade. Só que o seu “passeio” seria de muito trabalho, no Mercado, para onde veio direto  a convite de Delmiro Salami há mais de 50 anos. Naquela época a viagem durava o dia todo. Não conhecia nada, veio aos trancos e barrancos, fugido do pai, aportando no Mercado para trabalhar na Banca 5 e depois na 20, onde ficou quase um ano. Depois os donos adquiriram mais uma banca, a 33 e ofereceram-lhe participação. “Mas precisava uns trocadinhos para entrar de sócio. Falei com o meu pai: fica com tudo que eu tenho e me empresta X em dinheiro”, conta. Ali começaria uma história de 32 anos, onde aprendeu todos os segredos do balcão, com uma rotina puxadíssima, saindo de casa às seis da manhã.

 

O começo da erva no Mercado

 

     Os primórdios da erva no Mercado estão bem vivos em sua memória. “Tinha muita gente de Palmeira das Missões que procurava erva de lá e não tinha”. O que fez o bravo pioneiro? Comprou um “caminhãozinho” e viajava de noite para ir lá buscar a erva voltando no outro dia. E se não tinha uma erva bonita, virava as coisas e ia embora, “Só trazia coisa boa”, faz questão de frisar. Aí alavancou o negócio. Criou uma grande clientela, inclusive com fregueses ilustres, como Paulo Brossard e o General Gastão que, por sua vez, levavam muitos outros em busca da erva. “Mas tinha que ser de Palmeira”, recorda. Porém, o Mercado e seus incêndios, um deles, no ano 78, queimou toda a área onde ficava a banca. “Foi perda total, perdi até os passarinhos que eu vendia. Ficamos 100 dias parados, com dívidas. O que me salvou foi uma chacrinha em Gravataí que eu tinha e vendi. Aí trouxe o pai e a mãe, que sustentei até o fim da vida, pois ele tinha vendido tudo”. Continuou com a erva, vendendo também artesanato gauchesco.

 

Trabalhando duro

 

     Muito trabalho é a primeira coisa que vem na sua memória quando lembra dos tempos antigos do Mercado. Época em que trabalhava de segunda a domingo, até o meio dia. Não bastasse, ainda trabalhava numa fruteira no mercado livre da uma da tarde às 10 da noite. “O que eu ganhava no Mercado era “limpo”, sobrava tudo. Passei cinco anos sem folgar um domingo e 10 anos sem tirar um dia de férias. Hoje ninguém faz isso. A gurizada hoje já quer férias antes de começar a trabalhar”, brinca ele. Economizou, ganhou e juntou dinheiro. O preço disso é que não pôde acompanhar direito a criação dos filhos. Quando chegava em casa estavam dormindo, quando voltava ele que ia dormir. A educação, assim, ficou mais com a esposa. “Mas são filhos maravilhosos, não tenho queixa deles”. Por fim, parou de trabalhar aos domingos, assim como o Mercado que depois da reforma deixou de abrir nesse dia.

 

Uma grande família

 

      O Mercado para ele sempre foi muito familiar. Teve época em que tinha quase 100 primos trabalhando nas bancas. Irmãos, tios, sobrinhos, o que ajuda a manter a tradição de passar os negócios de pai para filho. Claro, hoje muito diferente dos velhos tempos, quando a maioria das bancas eram de secos e molhados, com poucos açougues, predominando as bancas de peixes. Como não havia supermercado, as pessoas faziam ranchos no Mercado, que eram entregues geralmente à noite. Essas entregas acabaram com as suas chances de continuar os estudos, iniciados no colégio Anchieta, de onde acabou sendo expulso por falta de freqüência. “O que eu aprendi foi atrás do balcão”, resume do alto da sua experiência.

 

Os gaudérios, ontem e hoje

 

     Apesar de vender muito mais erva antes, ele acha que agora tem muito mais “gaudérios”. Lembra que no início praticamente só se vendia faca. Os produtos de artesanato gaúcho vieram depois, muito procurados pelos turistas e artistas para levar lembrancinhas daqui e só encontráveis no Mercado. As ervas? “Acho que mudaram muito. “Antes não tinha erva com açúcar, era um padrão só. Eu cuidava só pela cor: verde escura. Hoje tem fina, grossa, fraca, forte, amarga. A boa mesmo era a canchada, com madeira”. E dos fregueses já conhecia o gosto de cada um.

 

Lembranças e novos tempos do Mercado

 

     Depois de tanto tempo, muitas lembranças. De levar rancho para a casa de Teixeirinha, na Glória, “na paleta”. De enfeitar o Mercado por fora e das promoções, quando cada mulher que viesse no Mercado ganhava uma rosa. “A última que fizeram foi quando o Mercado fez 100 anos. Hoje não fazem mais nada, nenhuma promoção”, lamenta. Acredita que depois da reforma o velho Mercado ficou mais limpo, melhor administrado. Acha louvável a presença de muitas mulheres, seja comprando ou trabalhando no Mercado, muito raro no seu tempo. A freguesia, diz, ainda é a mesma, só que agora com cartões de crédito, que ele acha melhor, até por uma questão de segurança. “Antes quase não tinha assalto, hoje é um perigo”.

 

Legado do Mercado

 

     “Tudo que a gente tem, tem que agradecer aqui ao Mercado. Aqui me dou com todo mundo, não tenho inimigos. Quem não é parente, é conhecido. Tudo o que eu tenho saiu daqui. Tomara que continue mais 100 anos assim, embora eu não vá chegar lá, mas tem a raiz, meus filhos. Se precisar um dia voltar trabalhar, eu volto”, diz enternecido. O que gostava mesmo no seu trabalho era atender e conversar com o freguês. “Sou quieto, mas na hora da venda não escapava ninguém. Difícil alguém sair sem levar uma coisa”. O importante para ele sempre foi atender bem os clientes. Garante que a fórmula do sucesso é ser honesto e trabalhar direitinho porque vai ter freguês sempre. “Roubou, atendeu mal, perde o freguês, que não volta mais”. O que nunca foi o seu caso. Pelo contrário, fez grandes amizades, sendo convidado para festas e aniversários na casa deles. Além da honestidade, a lição, ensina ele, é começar cedo e se ocupar. “Eu trabalhei bastante, não me arrependo, mas parei. Agora, podendo, eu me mando viajar para aproveitar a vida”, conclui.

COMENTÁRIOS