Renato Dias da Silva: “Temos que cuidar mais do Mercado para as futuras gerações”

Ao contrário de muitos que começaram no Mercado levados pelo pai, Renato Dias da Silva, nascido em 19 de setembro de 1965, natural de Gravataí, ingressou no mundo mercadeiro pelas mãos da mãe, Célia, que trabalhou na Padaria Copacabana, onde era muito bem vista – aliás, até hoje.

Foto: Leticia Garcia

Renato, 50 anos, mais conhecido como Gaúcho (trabalha sempre pilchado) ou Bigode, mora em Sapucaia, é casado, tem quatro filhos e uma neta. Chegou ao Mercado em 1982, no bar e restaurante Padre Reus, que pertencia a Custódio Duarte. Em seguida conheceu Jair Leo Lima Neto e José Duarte, da Lancheria Luz. “Então me convidaram para trabalhar com eles, com quem estou há 28 anos.” Antes do Mercado, porém, trabalhou na Lancheria 2 Irmãos, no bairro Azenha. Sempre como garçom, o que lhe valeu um grande rol de amizades, principalmente na Luz. Tem muitas lembranças, em especial do entorno do Mercado. Das praças, dos ônibus que ficavam no atual Largo Glênio Peres, dos estacionamentos junto à Avenida Júlio de Castilhos, quando não havia ainda o trem metropolitano Trensurb. “Fui um dos primeiros a andar nele, levou mais de três horas até o aeroporto, na inauguração, com autoridades. Peguei todas as transformações. O trem mudou tudo, da noite para o dia.” Também tem bem presente na memória os tempos em que a Lancheria Luz ficava “do outro lado” do Mercado, onde é hoje a Peixaria Japesca, também junto à Júlio de Castilhos. Com a reforma, ela foi deslocada para o seu ponto atual, em frente à Praça Parobé. “Foi um pulo. Depois da reforma, melhorou muito o movimento, multiplicou, ficou bom para todo mundo. Antes a freguesia tinha medo de entrar no Mercado, ele era mal falado.”

 

Toda atenção aos clientes

Quase três décadas depois, vivendo cotidianamente o Mercado, conheceu muita gente – de dentro e de fora. “Tem freguês que vem aqui desde 1980, outros que noivaram, casaram, tiveram filhos que cresceram e também casaram e trazem as crianças aqui na Luz. Acompanho muitos, desde pequenos. Chegam dizendo ‘meu avô me trazia aqui, mas tu continua igual, Bigode’.” Considera o público o mais importante de tudo, por isso procura passar para os novos garçons muitas recomendações. “Em primeiro lugar, nós vivemos do freguês. Temos que tratar bem, oferecer mercadoria boa, não lesar nunca quem entra aqui. Já passou muita gente na nossa mão.” Hoje, dos mais antigos, só ele, o “seu” Zé e o irmão Geovane Souza, que entrou quando era bem jovem e pôde receber as preciosas dicas do veterano garçom. Lembra que, quando começou, o perfil da lancheria era muito diferente. “Era muita cervejada, cachaçada, embora tivesse uma freguesia boa, selecionada.” Depois das mudanças trazidas pela reforma dos anos 90, a Luz parou com as bebidas, focando nos lanches e refeições. “Graças a Deus paramos com a cerveja. Deu certo a nossa meta, agora é só suco, xis, cachorro quente, mocotó, a la minuta, filé de peixe, tainha e risoto de camarão – sei de cor o cardápio”, brinca.

 

O gauchão do Mercado

Ele tem muitas lembranças dos tempos antigos, mas nenhuma saudade do Mercado daquela época. Recorda que o lado onde a antiga Luz ficava era muito sujo, com os caminhões descarregando peixe, a água parada junto às calçadas: “era difícil suportar o cheiro”. Mas tem boas recordações dos fregueses e colegas antigos, com quem fazia marreco no forno uma vez por semana na loja, como Lair José Groff, da Banca 2 (Rancho Nativo). “Temos muitos clientes do próprio Mercado. A gente comia junto, uma vez por semana – juntava uns quatro ou cinco para fazer o marreco.” Sujeito expansivo e comunicativo, que chama a atenção pelos seus trajes típicos, é muito reconhecido em vários lugares. “Uma vez eu estava na praia em Santa Catarina, pilchado, e passou um gritando: ‘o melhor peixe do Mercado é o da Luz, onde trabalha esse gaúcho!’”, recorda, divertido. O jeito bonachão lhe rendeu o apelido de Bigode, reforçado em Sapucaia, onde a esposa abriu uma loja com o nome de Agropecuária do Bigode. “Se chegar lá e perguntar onde mora o Renato, ninguém sabe. Mas se falar no Bigode, todos sabem: é ali, ali… E aqui no Mercado é Gaúcho, principalmente com as crianças.” Muitos, inclusive, ligam sua figura ao Restaurante Gaúcho, que fica ao lado da Luz.

 

Tradicionalismo e  Mercado, as grandes paixões

Em relação aos hábitos gauchescos, diz que sempre gostou de andar pilchado, de ir a rodeios e de andar a cavalo aos domingos e feriados. “Minha mulher e minha filha também gostam. Nós temos que valorizar mais a nossa cultura.” Se pudesse, afirma, mudaria a “lei” de só usar pilchas na Semana Farroupilha. “Tem gente que só usa trajes nessa época, compram botas, pilchas, nem sabem se vestir. Tem uns que usam até tênis com bombacha! Temos que dar continuidade, não deixar nossa cultura morrer.” Além do tradicionalismo, o Mercado é sua outra grande paixão. “Sou apaixonado por ele, criei minhas filhas aqui. Tem muito dono de banca que tem vergonha de dizer que trabalha aqui. Eu não: aonde vou, levo o cartãozinho da Lancheria.” Das mudanças, a mais significativa que considera foi quando Olívio Dutra assumiu a prefeitura e resolveu reformar o Mercado, ao contrário da vontade de muitos, como o jornalista Paulo Sant’Ana, que defendeu a sua demolição, como Renato faz questão de lembrar. Depois disso, diz, o Mercado passou a ser outro. “Cliente que não entrava aqui, começou a entrar. As lojas estão bonitas e o Mercado também. Mas tem umas coisinhas para ajeitar – os bueiros todos sucateados, é até um perigo, o piso está horrível. Faltam três coisas aqui: mais bancos, uma farmácia e um estacionamento, que já era para ter saído há muito tempo. Isso vai puxar mais gente para nós.” E, para finalizar, faz um apelo às autoridades competentes: que cuidem do Mercado para as próximas gerações.

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