Renato Borghetti – E dê-lhe gaita!

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

Cabelo comprido, chapéu, bombacha, alpargata e uma gaita-ponto – este é Renato Borghetti no palco. Com um hábil dedilhar, Borghettinho, como também é conhecido, encanta multidões com sua música regional, gaúcha e instrumental. Tem 30 trabalhos na carreira, entre discos, CDs e DVDs. 2014 marca o aniversário de 30 anos de seu primeiro vinil, “Gaita ponto”, que colocaria a melodia em evidência e conquistaria gerações. Então, para encerrar o ano, trago aqui a conversa que tive com ele e um pouco de sua trajetória.

Foto: Letícia Garcia

O instrumentista e compositor Renato Borghetti fala com a voz da gaita desde muito cedo. Tudo começou quando recebeu uma gaita dos pais, ainda criança. Borghetti sempre esteve envolvido com o tradicionalismo através do pai, Rodi Pedro Borghetti, que na época atuava no 35 CTG (e hoje é o atual presidente do FIGTF) e levava a família aos eventos. “O pai diz que eu sempre estava em volta de uma gaita. Desde pequeno eu gostava do som”, conta. “Acho que já nasci para isso”. Logo passou a participar do 35 CTG e dali para os festivais, foi o tempo de um abrir de gaita. “Sem dúvida o primeiro grande palco em que eu subi foi em 1979, a 9ª Califórnia da Canção Nativa de Uruguaiana”, diz. Borghettinho tinha então 16 anos. Além da icônica Califórnia, na qual já venceu como Melhor Instrumentista em mais de uma edição, participou de outros festivais pelo estado, em especial os de música regional na década de 80, que tiveram sua parcela de participação na divulgação de seu trabalho.

Seu primeiro disco, “Gaita- ponto”, veio em 1984, há exatos 30 anos. Contando com melodias como “Milonga para as missões” (Gilberto Monteiro) e “Minuano” (Sadi Cabral), o trabalho lançou Borghetti ao reconhecimento, trazendo-lhe um Disco de Ouro – o primeiro da música instrumental brasileira, pelas 100 mil cópias vendidas. De lá para cá, seu gaiteado ganhou o estado, o país e também o mundo.

Gaita na estrada

Argentina, Áustria, Estados Unidos, França, Portugal e Uruguai são apenas alguns dos países em que o trabalho de Borghettinho já chegou e conquistou espaço. “Foi a partir de 2000 que a gente começou realmente a fazer turnês, regularmente. Temos mais de três discos internacionais”, conta. Seu alcance nacional também é grande. Além de Santa Catarina, Paraná e Mato Grosso, “um mercado bem absorvido, circuito onde fica a gauchada”, como diz, também chega ao meio gaiteiro. Já fez parcerias com nomes como Chiquinho do Arcordeon, Dominguinhos, Luiz Gonzaga, Oswaldinho do Acordeon, Sivuca – “a sanfoneirada toda”, brinca. “Sempre existiu essa relação entre os sanfoneiros do Brasil, desde o início. E depois, a gente conhece muita gente, toca com pessoas diversas, desde o rock até a música erudita, desde o jazz até muito regional, muita música argentina também”.

Esta variedade é sentida em seu trabalho. Borghettinho já tocou com diferentes orquestras, como a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre (OSPA) e a Orquestra de Câmara do Theatro São Pedro. Também integrou o Projeto Asa Branca nos anos 90, cantando ao lado de artistas como Alceu Valença e Elba Ramalho, e participou de festivais como o Free Jazz Festival (São Paulo). Com a música platina não é diferente: vê como natural sua relação com a música rio- -grandense. “Muito antes de se falar em Mercosul como bloco econômico, já existia esta relação. Eu me criei escutando música uruguaia, argentina, e eles também escutam muita música brasileira. Então essa relação é muito próxima, não só da música, mas da cultura, dos hábitos, da gastronomia. É só a consequência desta origem toda do gaúcho, Del gaucho”.

Fábrica de Gaiteiros

O músico também deixa sua marca como compositor: “Pensa que berimbau é gaita?” e “Cambicho em Alegrete” são algumas de suas melodias, ao lado de “Sétima do Pontal” (com Veco Marques), que faz referência à Fazenda do Pontal de sua família, às margens do Guaíba, em Porto Alegre. Neste tempo de estrada, muitas outras músicas ficaram conhecidas através de seus dedos. “Cada gravação mostra o momento musical em que estou, que nunca é igual. Não tem uma ‘linha padrão’ de todos estes 30 anos. Tem vezes que estou com uma influência um pouco mais moderna, daqui a pouco mais tradicional. Mas tentando achar este equilíbrio”.

A maestria no toque da gaita não se restringe aos palcos. Através do Instituto Renato Borghetti de Cultura e Música, com apoio da Celulose Riograndense, Borghetti fundou o projeto Fábrica de Gaiteiros, que leva o ensino da gaita-ponto a jovens pelo estado. Além de aulas, a Fábrica confecciona instrumentos a seus alunos, tudo para despertar nos pequenos o interesse tanto pela gaita quanto pela cultura gaúcha. Porque, mesmo aberta a circular por alguns ritmos, a gaita de Borghetti valoriza o lugar de onde veio – tocar os ritmos do sul está no cerne de seu abrir e fechar de fole. “Eu demonstro o carinho que eu tenho pelo Rio Grande do Sul através da minha música”, declara Borghetti.

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