Religião e política, os antagonismos do mito fundador gaúcho

Religião e política, os antagonismos do mito fundador gaúcho

Por Emílio Chagas 

As origens do estado gaúcho, sob a ótica do baiano Nivaldo Pereira, jornalista e Mestre em Letras e Cultura Regional, radicado no estado há 20 anos, como elas se expressam simbolicamente na nossa arquitetura e monumentos, com interpretações míticas, o que representam na identidade do gaúcho hoje: este foi o tema de um dos passeios do Viva o Centro a Pé. Nivaldo também é autor de “Deus Morto no Pampa – Um olhar sobre a cultura gaúcha a partir da religiosidade no mito fundador”.

 

Ao chegar no estado, o baiano disse ter levado “um choque cultural”, pelos contrastes. “Você vem para cá e parece outro país, em função da sua formação espanhola. Sempre vai haver esta estranheza”, constata. A partir disso, passou a pesquisar a história do estado. Com o Tratado de Tordesilhas, quando portugueses e espanhóis dividiram o país, o RS ficou mais de 250 anos existindo como um território espanhol. As primeiras ocupações foram as formações jesuíticas, que surgiram na Espanha para combater o protestantismo e evangelizar fiéis, como os índios americanos. Para isso, fundaram esses aldeamentos na Argentina, Paraguai e Rio Grande do Sul. “Eles foram considerados uma espécie de utopia”, analisa Nivaldo. Os portugueses não manifestaram nenhum interesse pelo pampa gaúcho – não havia ouro, e o litoral não era nem um pouco atrativo. Mesmo assim, fundaram a Colônia de Sacramento em pleno território espanhol – que foi motivo de lutas, durante décadas, até que, em 1750, fez-se o Pacto de Madrid. Pelo acordo, a Colônia passava a ser espanhola, e as Missões seriam entregues aos portugueses. A esta altura já era uma região próspera, com a introdução do gado, cultivo de hervais, com mate e churrasco instituídos como hábitos.

 

As guerras guaraníticas

 

A resistência deu início às guerras guaraníticas – e ao fim dos Sete Povos das Missões, o primeiro massacre da história do estado. Exércitos das coroas espanhola e portuguesa uniram-se no genocídio que dizimou mais de 1500 índios liderados por Sepé Tiaraju. É nesse banho de sangue que nasce, segundo Nivaldo, o mito de origem gaúcho – o fim de uma sociedade utópica, de ordem religiosa, destruída por motivos políticos.  A substituição da religiosidade pela política vai marcar profundamente a nossa história e valores, guerreiros, principalmente, alimentada pela profunda influência positivista que o estado viveria. É o guerreiro contra o religioso. Episódio primordial, o extermínio das Missões é o início de um ciclo de guerras, onde a religiosidade é praticamente banida, emergindo a figura do guerreiro, abrindo espaço para o positivismo. Trata-se de uma doutrina proferida por Augusto Comte, “que propunha uma leitura desvinculada do religioso, do sobrenatural, pautada na ciência, na praticidade e na objetividade”. Como observa Nivaldo, “deu muito certo aqui, ficando 40 anos no poder, mais do que em qualquer outro lugar”. Nada de Deus, metafísica – apenas ações positivas e concretas. Júlio de Castilhos será o grande patriarca da doutrina, depois de voltar de São Paulo, formado em Direito e impregnado de suas ideias.

 

Viaduto Otávio Rocha, um ícone positivista

 

“Com um mito que nega o divino para implantar o guerreiro, estão criadas as condições para o surgimento desse sistema que também nega Deus. O período positivista vai da Proclamação da República até 1930”, registra Nivaldo. Um período de muito progresso, com transportes e grandes obras. Uma delas é o Viaduto Otávio Rocha, construído entre 1926 e 1932, expressando todo o requinte, riqueza, arte e poder – não por acaso, bandeiras positivistas. Aberto para ligar a cidade com a zona sul, até hoje é um obra imponente e referência no gênero na América Latina.

 

Museu Júlio de Castilhos, berço positivista

 

Primeiro museu do RS, fundado em 1905, é composto de duas casas. A marrom, onde morou e morreu, aos 43 anos, Júlio de Castilhos, comprada pelo PRR, Partido Republicano Riograndense, para que o líder morasse com sua família – esposa e sete filhos. Na casa ao lado, que também compõe o Museu, residia Borges de Medeiros, seguidor e sucessor de Júlio. O curioso, diz Nivaldo, é que o Museu possui duas salas contíguas: a missioneira, com objetos e estatuária, e ao lado, o quarto do caudilho. “Uma sala dá para a outra, por ironia da história. Tudo a ver com a leitura mítico-simbólica”, observa. O fato também reforça a tese do psicanalista Jung, segundo a qual, quando se nega a religiosidade, a idolatria é transferida para os humanos, líderes, políticos e heróis, principalmente.

 

Catedral Metropolitana, religiosidade na terra guerreira

 

Reduto maior da Igreja Católica no estado, foi erigida para acompanhar a imponência que o Palácio Piratini traria à região. Foram descartados projetos locais, um do arquiteto Theo Wiedersphan, por ser protestante. A missão coube ao arquiteto do Vaticano,  Giovanni Battista Giovenale – que nunca veio a Porto Alegre. Em estilo renascentista, faz uma alusão direta à Basílica de São Pedro, no Vaticano. Fora da igreja, na base, junto à cripta, carrancas de índios, referência direta do massacre. Na fachada, um mosaico com figuras religiosas, como a Madre de Deus, São Francisco, os três jesuítas martirizados, São Pedro, Pio XIX, Sta. Teresa de Ávila e São Miguel Arcanjo. Mas o que chama a atenção, observa o jornalista, é uma referência ao centenário da revolução Farroupilha, uma data político-militar, em plena Catedral. “É curioso a relação entre política e religião, com uma marca celebrando uma revolução sanguinária”.

 

Palácio Piratini, imponência e poder

 

Construção suntuosa, no estilo neoclássico, remonta à arquitetura greco-romana. Construído a mando de Júlio de Castilhos, substituiu o antigo Palácio de Barro, que já não correspondia aos novos tempos positivistas, de poder, autoridade e desenvolvimento. Carlos Barbosa, o novo governador, queria que fosse o mais belo e majestoso edifício público do Brasil, revela Nivaldo. O arquiteto francês Maurice Gras foi chamado para a tarefa. O prédio apresenta uma série de detalhes e estatuária de inspiração positivista e esculturas de Paul Landowski, o mesmo do Cristo Redentor.

 

Monumento Júlio de Castilhos, 100 anos de simbologias 

 

Construído em 1903, mais que monumento, foi concebido como um santuário para o grande líder positivista. Borges de Medeiros convidou o artista carioca Décio Vilares, que conheceu a doutrina na França, para criar a obra. Além de eternizar a memória de Júlio, a obra deveria, também, traduzir a ideologia positivista. O escultor mostra a tripla face do líder: jovem, maduro e idoso – embora tenha morrido com apenas 43 anos. Além disso, inúmeros outros elementos: pendão da bandeira (civismo), data da Proclamação da República, ano da Revolução Francesa (ideais iluministas), representação da República, jovem atlético representando a Coragem, outra figura representando a Prudência, dragão (perigo), jovem soldado simbolizando a firmeza, e, no lado voltado para o Piratini, gaúcho a cavalo, representando o apoio do povo, além de elementos alusivos à agricultura e pecuária.

 

Biblioteca, Memorial do Rio Grande e Paço Municipal

 

Outros marcos do período também fizeram parte do roteiro, como a Biblioteca Pública com sua fachada trazendo 10 bustos do calendário positivista, pensadores e filósofos; o Memorial de RS, em estilo barroco (antigo prédio dos Correios), de 1913, auge do positivismo, e o Paço Municipal. Um dos primeiros edifícios positivistas, construído em 1901, o Paço, com sua estatuária farta em referências à doutrina francesa, tem em sua frente a Fonte Talavera, doada pela Espanha à cidade nas comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. “Não é curioso o Marco Zero de Porto Alegre ter uma fonte espanhola?”, pergunta Nivaldo, reforçando que as origens da história gaúchas são muito mais hispânicas do que portuguesas.

 

Fotos: Emílio Chagas

 

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