Reinaldo Serafim: “Trabalhar no Mercado foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”

 

Como muitos antigos mercadeiros, ele começou ainda na adolescência, aos 17 anos, a trabalhar no Mercado Público. Mais exatamente no antigo Mercado Livre, que alguns também chamavam de “docas das frutas”. Era um belo prédio de arquitetura neoclássica, onde se comprava verduras e frutas, nas margens do Guaíba. Ficava onde hoje está situada a estação Mercado do Trensurb. Lá, Reinaldo, gaúcho de Torres, nascido em 14 de junho de 1945, casado, uma filha e dois netos, trabalhava, numa banca onde ficou durante oito anos, tendo Cláudio Fagundes dos Santos como patrão.

Foto: Leticia Garcia

Depois disso, trabalhou mais dois anos no local para onde o Mercado Livre foi transferido mais tarde, na praça Rui Barbosa, onde hoje está assentado o Pop Center, popularmente conhecido como Camelódromo. Como era muito conhecido no Mercado Público, através de um amigo acabou sendo convidado para trabalhar na Banca 15, de frutas, de Dálcio Salami. Dali começaria uma peregrinação por diferentes bancas do Mercado: Banca 6 e 7 (também de frutas), de Salvador Mancuso, Banca 26, de Secos & Molhados, Banca 43, esta a primeira de especiarias em que trabalhou, e Peixaria Golfinho. Como ele diz, “rodeou” o Mercado. Depois ficou dois anos fora, porque resolveu abrir um minimercado com um sócio. “Não deu muito certo porque vendia muito a fiado – a gente pagava tudo em dinheiro e recebia ‘pingado’”, diz. Resultado: voltou para o Mercado, sendo convidado então pelo dono da Banca do Holandês, Renato Jardim Rosa, onde está até hoje, mais de 20 anos depois. Dessa época guarda uma foto sua que saiu na antiga revista Manchete, da editora Bloch, do Rio de Janeiro. Trabalhando “desde guri” (14 anos) no atendimento aos fregueses, seja nos minimercados ou nas bancas, orgulha-se de lidar com o público: “É o meu fraco, me dou muito bem com ele.” Por isso não vê nenhuma diferença nos públicos das bancas pelas quais passou – das fruteiras às mais “sofisticadas”.

 

Atendimento antes e hoje, sem diferenças

“O atendimento é sempre igual, como em qualquer comércio. É só saber se comunicar com as pessoas, e eu, casualmente, tenho facilidade para comunicação”, diz. Ainda em relação ao atendimento, em comparação ao Mercado antigo, afirma que antes tinha mais movimento e o público não era tão sofisticado como  hoje, “mas a gente sempre atendeu – no comércio encontramos tudo que é tipo de gente, tem que saber levar. Tinha freguês que às vezes xingava no começo e saía agradecendo no final. Era uma pessoa que se conquistava. E o que eu conquistei de pessoas é incrível! Fiquei um tempo fora e os fregueses sempre perguntavam por mim e ficaram contentes quando voltei. Outros estavam até em outras bancas e voltaram para cá. Hoje, muitos guris que estão atendendo não sabem relevar uma pessoa assim”. Garante que antes também se vendia mais. “Não parava nunca, agora está mais light. A gurizada acha que é muito serviço, mas quem já está acostumado, nem vê o tempo passar”, compara. Lembra dos duros tempos do Mercado Livre, na beira do Guaíba, no rigor do inverno, quando ele e os colegas faziam barricadas de caixas de tomates para enfrentar o frio, o vento e a chuva. Ou de quando saía de casa às 5h da manhã para comprar frutas fresquinhas numa espécie da Ceasa da época, onde é hoje o Parque Marinha do Brasil.

 

Mudanças do Mercado

Mas não tem lembranças apenas das dificuldades do velho Mercado, como a terrível rotina de trabalhar das 7h da manhã às 7h da noite, ou de trabalhar todos os domingos até a 1h da tarde. Lembra que naquela época os caminhões entravam pela porta dos “fundos” do Mercado (lado da Av. Júlio de Castilhos) e que havia uma rua de paralelepípedos no meio do Mercado, onde eram descarregadas as mercadorias nas bancas. Da banca onde está nestas duas últimas décadas, diz que pouca coisa mudou, em relação aos produtos. Mas registra que era bem menor quando começou a trabalhar nela. “Reformaram depois de um incêndio e ela acabou ficando maior do que era”, diz. Mas, em síntese, acha que o Mercado melhorou bastante. “Antes era mais velho, não era muito requisitado pelos turistas. Hoje todo mundo quer passear e conhecer o Mercado. Ele está bonito, mais chamativo.” E, claro, ainda lembra bem da clientela antiga, que continua vindo ao Mercado. “Só não vêm aqueles que já partiram, mas os descendentes continuam aparecendo, muitos perguntando se eu ainda lembro deles, quando vinham com seus pais. Muitos conheço pelo nome, mas é muita gente, não dá para se lembrar de todo mundo.”

 

A vida no Mercado

 

Em todos esses anos, Reinaldo vem acompanhando, atento, tudo o que  acontece no Mercado – reformas, incêndios, mudanças. Entre idas e vindas, voltou no ano passado para o Holandês. “Voltei porque em casa a gente acaba se entediando, se estressando, lendo jornal, lavando louça. Voltar é bom para a cabeça”, diz. Mas agora está pegando mais leve, começando a trabalhar a 1h da tarde. Pretende trabalhar até o fim do ano e depois “dar uma parada” em janeiro e fevereiro do ano que vem, e então decidir depois se volta ao não. Já falou até com a patroa Adriana Schmitt Alcântara. Acha que o importante agora é cuidar da saúde. “Minha vida foi toda no Mercado, bem dizer me criei aqui. Minha filha nasceu, não pude acompanhar o crescimento dela, não tinha tempo; chegava em casa de noite. Agora estou curtindo os netos”, diz. Define sua relação com o Mercado como “ótima”. “Aqui todo mundo me conhece, se eu sair dessa banca aqui e chegar ali em outra, estou empregado – para você ver a minha reputação. Sou sério, tenho carisma, me dou bem com todo mundo. Me conhecem como ‘Garrincha’, do tempo do futebol, porque tenho as duas pernas tortas (como o famoso jogador), cheguei até a fazer teste no São José. Trabalhar e fazer parte da história do Mercado foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, resume.

 

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