Reforma, o renascimento do Mercado Público

Durou sete anos, de 1990 a 1997, tendo custado R$ 9 milhões, recursos vindos da prefeitura (88%) e do Funmercado, formado pelo aluguel dos permissionários, além de doações de terceiros. Foi uma obra fundamental para a continuidade do Mercado Público, àquela altura em precárias condições.

Fototeca Sioma Breitman/MJJF-PMPA

A história do Mercado Público pode ser dividida entre antes e depois da reforma dos anos 90, a mais marcante entre todas pelas quais passou. Sem dúvida, a construção do segundo piso também é igualmente importante, mas a reforma teve como diferencial integrar os dois andares, até então historicamente separados. Já não mais pairavam sinistras ameaças da sua demolição, que tiveram o ápice em meados dos anos 1970.

Mesmo protegido da demolição, o Mercado encontrava-se praticamente abandonado, situação que motivou a criação, em 1967, da Associação do Comércio do Mercado Público Central (Ascomepc), liderada então pelo proprietário do Restaurante Gambrinus, Antônio Dias Melo, o Toninho, falecido em 2010, que passou a representar os permissionários.

O prefeito Alceu Collares (PDT) reivindica como suas as primeiras medidas de reforma do prédio, com a criação do Fundo Municipal para Restauração, Reforma, Manutenção e Animação do Mercado Público (Funmercado) em 1987.

Mas foi em 1989, com a chegada de Olívio Dutra (PT) à prefeitura, que o Mercado ganhou um olhar mais atento, pois, mesmo com o seu tombamento como patrimônio histórico em 1979, ele continuava em estado crítico.

 

Reforma a caminho

A Associação dos permissionários convocou o novo prefeito a uma visita ao prédio, para ver as suas péssimas condições. Foi criada pela prefeitura uma comissão multidisciplinar para desenvolver o projeto de reforma, que começou a desenvolver os estudos iniciais, formada, basicamente, pelas arquitetas Doris Oliveira e Helena Machado e pela historiadora Elizabete Breitman.

Em uma fase posterior, uniram-se a elas no grupo de trabalho os agrônomos Leonardo Malgarejo e Jairo Menegaz, os arquitetos Evaldo Schumacher, Otacílio Ribeiro e Teófilo Meditsch, o economista Leonardo Neugaresch, a historiadora Zita Possamai, a professora Vera Becker e as sociólogas Elisabeth Tomasi e Fátima Ávila.

Problemas de infiltração, goteiras, rede elétrica precária e deterioração em vários níveis afetavam o prédio. Foi iniciado um detalhado levantamento envolvendo aspectos culturais, sociológicos e materiais do Mercado, com a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

Não se tratava de uma simples reforma, mas do restauro de um bem tombado, com toda a sua história e significados histórico, étnico, religioso, turístico e de abastecimento. As dificuldades eram muitas e de toda espécie — financeiras, estruturais, de convencimento dos permissionários (muitos estavam resistentes, principalmente em perder os seus lugares), falta de documentação original do espaço e, a mais importante, realizar a reforma com o Mercado em funcionamento.

 

Praticamente um novo Mercado

A reforma teve quatro fases, incluindo a recuperação das suas estruturas básicas — já que havia, inclusive, o risco de desabamento do telhado de um dos torreões, tal o estado das suas paredes —, restauração da fachada e um novo telhamento, nova cobertura — antes, os telhados das bancas do primeiro piso impediam a visão do segundo andar, que ficava isolado, então foi projetado um telhado alto sobre os dois andares.

Por último, foi feito o redesenho do pátio interno, quando todas as bancas subiram para o segundo piso para continuarem em funcionamento. Os permissionários lembram das muitas histórias e dificuldades, até de sobrevivência, já que as vendas caíram substancialmente. A reforma atravessou três gestões da prefeitura: Olívio Dutra, Tarso Genro e Raul Pont.

A reforma, naturalmente, não agradou a todos e alguns desistiram. A princípio, os lugares mais antigos, como os restaurantes Gambrinus e Naval, permaneceram intocados nos seus lugares originais, assim como a Banca do Holandês.

Porém, outras, tão tradicionais quanto, mudaram de posição, como a Banca 40. Alguns dos princípios das obras buscavam respeitar as características tradicionais do Mercado, como, por exemplo, a circulação em cruz — um marco inicial do prédio do início de 1900, que também tem grande significado para as religiões de matriz africana frequentadoras do local.

Respeitadas todas as tradições e acordadas as mudanças e inovações, como uma antes impensável escada rolante e até elevadores, o Mercado Público pôde, finalmente ser entregue aos permissionários e à população de Porto Alegre em 19 de março de 1997. Mais espaçoso, permitindo uma ampla visão interna e dos seus arcos, com o novo telhado levantado, primeiro e segundo pisos, puderam, finalmente se fundir e ser um só Mercado.

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