Reabre o Naval, centenário bar do Mercado

Reabre o Naval, centenário bar do Mercado

 

Um dos bares mais famosos e emblemáticos da cidade, o centenário Naval reabriu, depois de muitas expectativas. Totalmente reformado e com uma nova proposta, mas mantendo a tradição de reduto boêmio que o caracterizou durante décadas.

 

     O bar agora está mais condizente com os tempos atuais. Com uma moderna decoração, passou por um processo de restauração nos florões, afrescos e nos trabalhos de arte do teto. Após sua recuperação e pintura revelou-se o belo trabalho que reflete a riqueza da arquitetura do Mercado Público. Foram destacados os arcos originais mostrando e valorizando os antigos tijolos. Um revestimento em madeira nas paredes remete ao clima dos mais antigos bistrôs, restaurantes, cafés e bares europeus do século XVIII. Assim como os espelhos com facetes e o piso preto e branco.

 

Novos tempos

 

     Do clima antigo foram preservadas algumas fotos, placas e recortes de reportagens nas paredes. Serão mantidas as feijoadas, o mocotó e os famosos bolinhos de bacalhau. Novas mesas e cadeiras dão um toque de contemporaneidade ao ambiente.  Outra novidade é que o bar ganhou banheiro próprio. Junto ao novo balcão, de onde são despachados os chopes, uma TV onde passam clips, blues, principalmente. Os antigos frequentadores do velho Naval certamente não deixarão de fazer comparações, mas a verdade é que a tendência é de todos os estabelecimentos locais seguirem a revitalização do Mercado. Inclusive o Naval.

 

Reduto boêmio

 

     Mostrando que veio para ser um marco de resistência na cultura popular e no imaginário boêmio da cidade, o Naval sobreviveu a incêndios, enchentes e até ameaças de demolição do próprio Mercado, tornando-se uma instituição da cidade. Tradicional e riquíssimo em histórias, ficou famoso pelo seu chopp, muito apreciado especialmente pelos, então, recentes imigrantes alemães, especialistas no assunto. Compondo o cenário boêmio do centro da cidade, logo tornou-se ponto obrigatório de músicos, como Túlio Piva e Lupicínio Rodrigues, o mais importante compositor gaúcho, que lá almoçava praticamente todos os dias. Nas mesas do Naval, Lupe escreveu muitas das suas famosas canções. Elis Regina, Carlos Gardel, Thedy Corrêa no Naval também passaram. Sempre plural e democrático, acolheu os políticos, como Flores da Cunha, Leonel Brizola, João Goulart,dentre outros líderes do  estado e país. O jornalista Glênio Peres, que trouxe consigo intelectuais, cineastas, poetas, historiadores, artistas, todos atraídos pela mística e pelo folclore que se criou em torno do Naval.

 

 

Uma lenda da cidade

 

     Como um verdadeiro bar, o Naval tem muitas histórias. E muitos administradores. Depois de Crivelaro, passaram mais dois proprietários, ambos alemães, até que em 1953 veio o português Antônio Lopez Branco. Em abril de 1961, dois novos timoneiros assumem a navegação do Naval, João Fernandes da Costa e seu irmão Manoel da Costa. João Fernandes, manteve a tradição do bolinho de bacalhau e o chopp, bem como, a do mocotó, feijoada, peixes e frutos do mar, cardápio inspirado na cozinha luso brasileira. Manteve também os florões, os afrescos no teto, o que contribuiu para aumentar a aura e magia do Naval. Uma história secular, acompanhando gerações e gerações. Forte reduto popular, democrático, com seus frequentadores anônimos e famosos, cenário de filmes, de encontros e desencontros, o Naval fez história ao longo do tempo como um espaço de convívio e cidadania, uma referência histórica, cultural e sentimental de Porto Alegre.

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