Raúl Quiroga – Americanto

Cultura Gaúcha, por Letícia Garcia

 

Nascido em Montevidéu, capital uruguaia, Raúl Quiroga encontrou no Rio Grande seus caminhos como folclorista e cantador. Autor de mais de 350 músicas nestes 30 anos de carreira, tem 10 CDs gravados e parcerias que atravessam fronteiras. Participou dos festivais dos anos 80 e já foi premiado com o Troféu Vitor Mateus Teixeira da Assembleia Legislativa como melhor arranjador de 2010. Quiroga é também criador do Projeto Americanto, que forma jovens na música para representar a cultura rio-grandense e latinoamericana. Com os jovens do projeto, seu amor pelo folclore promete se propagar através dos tempos.

Foto: Letícia Garcia

Cheguei ao Rio Grande do Sul quando decidi me autoexilar do Uruguai depois de inúmeros problemas sócio-políticos do país. Depois de ter percorrido vários países, optei por me radicar no Rio Grande. Fui para Caxias do Sul, onde comecei como folclorista. Comecei em uma casa de tangos de uruguaios e aprendi na marra a cantar tango. Ainda não tinha me entrosado com a cultura rio-grandense. Depois de dois anos nessa casa, conheci uma churrascaria em Caxias, onde iria reencontrar minhas raízes e origens. E é aí que começa minha parte ativa dentro do folclore rio-grandense e da música folclórica latino-americana. Laços com o Rio Grande Primeiramente eu escutava muito a Rádio Liberdade, que estava em seu auge – rodava Cenair Maicá, Noel Guarany, Pedro Ortaça, enfim, os artistas que estavam fazendo sucesso na época. Foi uma de minhas maiores ajudas, aí eu aprendi a falar o famoso “portunhol”. Em menos de um ano, já era um estrangeiro que se fazia entender muito bem. Três anos depois da chegada, conheci o acordeonista Gilberto Monteiro, autor de “Milonga para as missões”, que me convidou para tocar com ele. Tocamos juntos por cinco anos. Dos shows nasceu o convite para um festival, através de Mário Barros, que me convidou para cantar “O caminhante” e participar do projeto “Menino Parobé”. Tive minha história nos festivais nos anos 80, primeiramente cantando obras de outros autores e logo em meus primeiros passos como compositor, depois de conhecer o poeta Alvandy Rodrigues, parceria até hoje. Graças a ele e a outros parceiros – Mauro Marques, Vaine Darde, Rômulo Chaves e outros tantos poetas – o intérprete transformou-se em compositor, hoje com umas 350 músicas gravadas, muitas delas premiadas. Assim foi o caminho dos festivais, e lá se vão 30 anos de amor por esta terra.

 

Ritmos e estilos

O Rio Grande do Sul tem um só ritmo autófono, o bugio, conhecido no folclore rio-grandense. Mas o estado faz um triângulo com as culturas argentina e uruguaia, o que Artigas chamava de “pátria grande”, formada por Uruguai, as regiões argentinas de Corrientes e Misiones e o Rio Grande do Sul. Esse era o tão sonhado sonho artiguista de unir as três pátrias. Não aconteceu, mas a história desses quatros pontos da América Latina não se separa, história própria de guerras por liberdade e história de estilo de vida. Por exemplo, aqui no Rio Grande quem anda de bombacha muitas vezes não necessariamente é aquele que tem conhecimento pleno da vida de campo – mas ele está honrando, escolheu um estilo de vida a seguir. Conheço muita gurizada criada em apartamento que segue no seu dia a dia os costumes do gaúcho – e isso quer dizer que nestes 30 anos de corrida temos feito alguma coisa para a posteridade. A cultura gaúcha é uma das mais autênticas do Brasil. Acho que se o governo focasse maciçamente nela, trabalhasse em prol da cultura nativa, os olhos do mundo se voltariam para o Rio Grande.

 

Americanto

O Americanto é um projeto real de formação através da música. O projeto se sustenta sozinho, não depende de nenhum órgão público, não deve nada politicamente a ninguém. Muitos dos antigos integrantes seguem na música comigo. É um aprendizado que junta os costumes cisplatinos, o chamamé, a milonga, os ritmos e tendências latino-americanas que surgem de uma forma amigável e espontânea no Rio Grande do Sul. Quem curte música nativista com certeza conhece Atahualpa Yapanqui, Alfredo Zirarrosa, Mercedes Sosa, Teresa Parodi e assim por diante – eles respiram cultura latino-americana e gaúcha, sem deixar suas raízes. Os tempos mudam, antigamente mal se tocava um instrumento, mas havia um gosto musical ímpar no Rio Grande do Sul, poetas conseguiam fazer da terra ouro com suas palavras. Hoje a música e as tendências musicais estão mais exigentes. Falo muito isso para os guris do projeto, que hoje é preciso estudar. A música nativista e gaúcha está exigindo constantemente no dia a dia que se supere musicalmente para ter o direito de ganhar seu espaço.

 

Música

Acredito que o cantor é um pássaro que anda o mundo representando o povo. Aquilo que o povo não pode ou não consegue falar nas tribunas, o cantor que tem esse dom e essa oportunidade tem que representar a voz do povo. Não lembro de ter cantado uma obra que não tenha um significado social, daquele dia a dia que vivemos, tanto o urbano quanto o homem do campo. Este dia a dia me inspira muito. As lembranças do passado, assim como lembranças da minha terra, apesar de eu me sentir muito em casa. Não quero ser prepotente demais em dizer que o Rio Grande me considera gaúcho, mas acho que eu tenho colaborado com a minha história para a cultura e o folclore rio-grandense.

 

“Eu tenho tantos irmãos

/ Que não os posso contar /

E uma noiva muito formosa

/ Que se chama liberdade”

(Los Hermanos, Atahualpa Yapanqui)

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