Vilson Bocca: “Quero curtir a vida, sem esquecer do Mercado”

     Nos tempos atuais a história dele não poderia ter acontecido, ou seja, começar a trabalhar com 10 anos. Hoje com a proibição do trabalho infantil, o menino Vilson não teria entrado no Mercado, em 1954, para fazer os pesados serviços nas bancas por onde passou. “Com 11 anos eu levantava um saco com 60 kg de mantimentos. Comecei na Banca 14 que era do Eliseu Toniolo e do Deolindo Gueno, de secos e molhados. Começava às seis da manhã e ia até às oito da noite”, recorda. Passou por muitos lugares no Mercado, mas sua história é marcada pela Banca do Holandês, onde trabalhou grande parte da sua vida. Quando começou a maior parte do Mercado era ainda de chão batido e a entrada das bancas com lonas amarradas com cordinhas. “Ninguém mexia em nada”, garante. Lembra também dos tempos em que haviam mais de 300 gatos nos telhados do Mercado. “Ai que se fizesse alguma coisa com um deles. Vinha a Dona Palmira Gobbi, que era protetora dos gatos e mandava prender”. E quando o Mercado vendia galinha, peru e outros animais vivos. Sem dúvida, outros tempos que ele nos fala um pouco aqui.

     O garoto, nascido em Flores da Cunha, não pode estudar porque os pais estavam doentes e teve que trabalhar para ajudar a sustentar a casa. “Éramos em 12 irmãos e os menores que eu não podiam trabalhar”, diz. O destino: tinha dois cunhados que trabalhavam no Mercado, Cláudio, que o trouxe e Claudino Poz­zebon. Também tinha irmãos que trabalhavam no Mercado, Loreno e Renato, nas antigas 26 e 15, respectivamente. Como era comum na época, passou por várias bancas. Depois de um ano e meio na 14, foi para a 12, de Desidério de Paoli e Pedro Rotta, passando posteriormente para a Fruteira Sorocaba, no então Mercado Livre, bancas onde ficou menos de dois anos. Finalmente, vai para a Banca 11, onde ficaria seis anos. Mas haveria um porém. Ele conta: “Em 68 tinha marcado casamento para 69, mas fui demitido pelos donos que não queriam casados na banca. Então o velho holandês Dirk Van der Brum que era muito meu amigo soube que eu tinha sido demitido e foi lá me buscar. Ele já não estava mais na banca, mas chegou lá e disse pro cunhado dele – bota ele que eu conheço o trabalho dele e gosto dele” – tinha, então, 23 anos. 

 

A origem da Banca do Holandês, gratidão e família

     Do velho holandês, algumas lembranças. Por exemplo, ele dizia que a banca foi fundada em 1903 – o mesmo ano de fundação do Grêmio -, mas foi registrada na Prefeitura somente em 1919. A banca era um apenas depósito de banana, que Dirk transformou em fiambreria, com as primeiras especialidades. Na Holanda, torcia para um time “de vermelho”, razão pela qual seu time aqui era o Internacional. “Ele tinha um caderno com oito fregueses, que ele só cobrava no fim do ano. E eram os fregueses mesmo que somavam as contas deles para pagar. Mas isso era só para colorados”, conta Vilson. A banca tinha um grande movimento o ano inteiro. O nosso personagem não chegou a trabalhar com o lendário holandês, mas diz que ele estava lá todos os dias e foi ele que o ensinou a trabalhar e fazer os originais pacotes da época. “Ele se aposentou, vendeu, mas não queria largar a banca porque tinha muita amizade com os fregueses”, diz. “A banca era toda envidraçada, com balcões de mármore, com uma pequena janelinha na frente, onde o holandês atendia os fregueses. “Ele faleceu pouco tempo depois que vendeu a banca, atropelado, caiu na calçada e bateu com a cabeça no meio fio”. Da banca ele guarda muita gratidão, pois quando nela ingressou ganhou 15 dias de férias, 13º como se tivesse trabalhado o ano inteiro e gratificação para a lua de mel. A esposa, Eva Maria Machado, ele conheceu num jogo do Brasil, na casa da cunhada. Casaram-se 04 de janeiro de 1969 e tiveram três filhos, Alessandro, Janaína e Marlize e quatro netos. “Consegui pagar os estudos dos filhos e minha casa em Gra­vataí. Tudo o que eu tenho, agradeço ao Mercado Público.”

Histórias e lembranças do Mercado

     Com mais de 50 anos de Mercado, Vilson tem muitas lembranças. Pegou dois incêndios e “umas quantas enchentes”, como diz. “Tinha que levantar todas as mercadorias porque a água ainda vinha aqui dentro do Mercado, com um palmo de altura. A água vinha até a (rua) 7 de Setembro. Chegava às seis horas para arrumar tudo e fechava às sete e meia da noite. Quando entrei no Mercado Público não tinha aqueles telhados ali em cima e as bancas eram fechadas com lona na frente. Quando chovia tinha umas folhas de zinco sanfonadas e tinha um guarda só que cuidava os dois mercados. Não tinha problema, podia deixar até aberto”, recorda. Ao lado do Mercado havia o chamado Mercado Livre, com frutas e peixes e no meio tinha a Feira Livre que funcionava a noite toda. “De manhã davam tudo e às vezes tinha “guerra” de repolho, de laranjas”, diverte-se ao recordar. A Banca Central, do alemão Müller, chegava a vender um caminhão de carne de porco por dia e ao lado dela tinha uma máquina antiga de ralar coco e queijo na hora. Também recorda-se de um “senhor” que vendia pintado defumado  em cestas, no portão central do Mercado. Diz que até hoje ainda é vendido lombinho defumado pelo “Pau­linho”, que aprendeu a técnica de vendedor. Nesse tempo os quatro portões eram só açougues. Haviam ainda vários armazéns de secos e molhados, a famosa bancas das Massas, a 29 e o mini­mer­cado Despensa Riogranden­se, tradicional, da família Giulian.  

Passado e presente, sempre no Mercado

     Depois que saiu da Banca do Holandês, ficou oito meses fora e quando voltou foi para a Empório 38, onde está há três anos. “A saudade dos fregueses não me deixou ficar em casa. Adoro trabalhar nesta banca. Sou conhecido em vários lugares, os clientes me apertam a mão, chamam pelo nome”. Aliás, clientes que ele conhece a família já na quinta geração. A rotina é a mesma de outros tempos, com a diferença que agora só trabalha no turno da tarde. O que mais gosta? Na verdade de tudo, de ajudar os colegas e cativar o freguês. Seu espírito brincalhão ajuda bastante. “O Mercado representa tudo o que eu tenho, casa, família, educação dos meus filhos e as amizade que eu tenho ali, com os fregueses principalmente. Tinha fregueses que iam passar o domingo na minha casa”, diz. Seus planos? “A idade está chegando, estou de 66 para 67 anos. Pretendo ficar mais um tempo no Empório e depois parar e curtir um pouquinho a vida, sair com a esposa que sempre foi maravilhosa”, sonha ele. E se dedicar também à sua pequena fábrica de artesanato. Sempre ficarão as boas lembranças, quando saía para entregar mercadorias em bondes – até para o ex-governador Brizola, na Legalidade. “O último rancho que entreguei lá não pagaram até hoje, porque ele teve que fugir”. Leo Falt e Neldo Borttolini foram os amigos que o ensinaram a trabalhar e como tratar os fregueses. Ainda em plena ação, pois mesmo aposentado não conseguiu parar de trabalhar, ele orgulha-se de atender todo mundo bem. “Nunca importou se o cliente está de chinelo ou de gravata”. Fica a saudade dos bons tempos do Mercado, quando ele almoçava no famoso Treviso todos os dias sem precisar pagar. 

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